Cristo A Igreja
Plano Encontro 2 Dia 242
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Leitura do livro
O Grande Conflito, páginas 244-248
Lutero e Melâncton, de Zwínglio e Oecolampadius, dir-se-nos-á talvez que foram esses os dirigentes do movimento, e naturalmente deveríamos esperar neles prodigioso poder e vastas aquisições; os subordinados, porém, não eram como eles. Mas, volvamos ao obscuro teatro da Suécia, e aos humildes nomes de Olavo e Lourenço Petri — desde os mestres até aos discípulos — que encontramos? ... Eruditos e teólogos; homens que perfeitamente se assenhorearam de todo o sistema das verdades evangélicas, e que ganharam vitória fácil sobre os sofismas das escolas e dos dignitários de Roma.” — Wylie.
Como resultado desta disputa, o rei da Suécia aceitou a fé protestante, e não muito tempo depois a assembléia nacional declarou-se a seu favor. O Novo Testamento fora traduzido por Olavo Petri para a língua sueca e, atendendo ao desejo do rei, os dois irmãos empreenderam a tradução da Bíblia inteira. Assim, pela primeira vez o povo da Suécia recebeu a Palavra de Deus em sua língua materna. Foi ordenado pela Dieta que por todo o reino os pastores explicassem as Escrituras e que às crianças nas escolas se ensinasse a ler a Bíblia.
Ininterrupta e seguramente as trevas da ignorância e superstição foram dissipadas pela bem-aventurada luz do evangelho. Liberta da opressão romana, a nação atingiu força e grandeza que nunca dantes havia alcançado. A Suécia tornou-se um dos baluartes do protestantismo. Um século mais tarde, em tempo de grave perigo, esta pequena e até ali fraca nação — a única na Europa que ousou prestar auxílio — foi em livramento da Alemanha nas terríveis lutas da Guerra dos Trinta Anos. Toda a Europa do norte parecia a ponto de novamente cair sob a tirania de Roma. Foram os exércitos da Suécia que habilitaram a Alemanha a desviar a onda do êxito papal, a conquistar tolerância aos protestantes — calvinistas bem como luteranos — e a restabelecer a liberdade de consciência nos países que haviam abraçado a Reforma.
Capítulo 14 — Progressos na Inglaterra
Enquanto Lutero abria ao povo da Alemanha a Bíblia, que até então estivera fechada, Tyndale era impelido pelo Espírito de Deus a fazer o mesmo pela Inglaterra. A Bíblia de Wycliffe fora traduzida do texto latino, que continha muitos erros. Nunca havia sido impressa, e tão elevado era o custo dos exemplares manuscritos, que, a não ser homens abastados ou nobres, poucos poderiam adquiri-los; demais, sendo estritamente proscrita pela igreja, tivera divulgação relativamente acanhada. Em 1516, um ano antes do aparecimento das teses de Lutero, Erasmo publicara sua versão grega e latina do Novo Testamento. Agora, pela primeira vez, a Palavra de Deus era impressa na língua original. Nesta obra muitos erros das versões anteriores foram corrigidos, dando-se mais clareza ao sentido. Levou muitos dentre as classes cultas a melhor conhecimento da verdade, e deu novo impulso à obra da Reforma. Mas o povo comum ainda estava, em grande parte, privado da Palavra de Deus. Tyndale deveria completar a obra de Wycliffe, dando a Bíblia a seus compatriotas.
Como estudante diligente e ardoroso investigador da verdade, recebeu o evangelho do Testamento grego de Erasmo. Destemidamente pregou suas convicções, insistindo em que toda a doutrina fosse provada pelas Escrituras. À pretensão romanista de que a igreja dera a Bíblia, e de que somente ela a poderia explicar, respondeu Tyndale: “Sabeis quem ensinou as águias a encontrar a presa? Pois bem, esse mesmo Deus
ensina Seus filhos famintos a encontrar o Pai em Sua Palavra. Longe de nos haverdes dado as Escrituras, sois vós que a tendes escondido de nós; sois vós que queimais os que as ensinam e, se pudésseis, queimaríeis as Escrituras mesmas.” — D’Aubigné.
A pregação de Tyndale despertou grande interesse; muitos aceitaram a verdade. Mas os padres estavam alerta, e mal ele deixara o campo, esforçaram-se por destruir-lhe a obra por meio de ameaças e difamações. Muitas vezes eram bem-sucedidos nisso. “Que se deve fazer?” exclamava ele. “Enquanto semeio num lugar, o inimigo devasta o campo que acabo de deixar. Não posso estar em toda parte. Oh! se os cristãos possuíssem as Escrituras Sagradas em sua própria língua, poderiam por si mesmos resistir a esses sofismas. Sem a Bíblia é impossível firmar o leigo na verdade.” — D’Aubigné.
Novo propósito toma então posse de seu espírito. “Era na língua de Israel”, disse ele, “que se cantavam os salmos no templo de Jeová; e não falará o evangelho a língua da Inglaterra entre nós? ... Deve a igreja ter menos luz ao meio-dia do que à aurora? Os cristãos devem ler o Novo Testamento em sua língua materna.” Os doutores e ensinadores da igreja discordavam entre si. Apenas pela Bíblia poderiam os homens chegar à verdade. “Um adota este doutor, outro aquele. ... Ora, cada um destes autores contradiz o outro. Como, pois, podemos nós distinguir quem fala certo de quem fala errado? ... Como? ... Em verdade pela Palavra de Deus.” — D’Aubigné.
Não muito tempo depois, um versado doutor católico, empenhado em controvérsia com ele, exclamou: “Seríamos melhores estando sem as leis de Deus, do que sem as do papa.” Tyndale replicou: “Desafio o papa e todas as suas leis; e, se Deus poupar minha vida, dentro em pouco farei com que um rapaz que conduz o arado saiba mais das Escrituras do que vós.” — Anais da Bíblia Inglesa, de Anderson.
O propósito que começara a acalentar, de dar ao povo as Escrituras do Novo Testamento em sua própria língua, agora
se confirmava, e imediatamente se aplicou à obra. Expulso de sua casa pela perseguição, foi a Londres, e ali prosseguiu por algum tempo em seus labores, sem ser incomodado. Mas de novo a violência dos romanistas o obrigou a fugir. Toda a Inglaterra parecia cerrar-se para ele, e resolveu procurar abrigo na Alemanha. Ali começou a imprimir o Novo Testamento em inglês. Duas vezes foi o trabalho interrompido; mas, quando se lhe proibia imprimir numa cidade, ia para outra. Finalmente tomou o caminho de Worms, onde, poucos anos antes, Lutero havia defendido o evangelho perante a Dieta. Naquela antiga cidade havia muitos amigos da Reforma, e ali Tyndale prosseguiu em sua obra, sem mais estorvos. Três mil exemplares do Novo Testamento foram logo concluídos, e seguiu-se outra edição no mesmo ano.
Com grande ardor e perseverança, continuou seus labores. Apesar de terem as autoridades inglesas guardado seus portos com a mais estrita vigilância, a Palavra de Deus foi de várias maneiras secretamente levada para Londres, e ali circulou por todo o país. Os romanistas tentaram suprimir a verdade, mas em vão. O bispo de Durham, de uma vez comprou de um vendedor de livros, amigo de Tyndale, todo o seu estoque de Bíblias, com o intuito de destruí-las, supondo assim embaraçar grandemente a obra. Mas, ao contrário, com o dinheiro assim fornecido foi comprado material para uma nova e melhor edição, que, a não ser desta maneira, não poderia haver sido publicada. Quando mais tarde Tyndale foi preso, foi-lhe oferecida a liberdade sob condição de revelar os nomes dos que o haviam auxiliado a fazer as despesas para imprimir suas Bíblias. Respondeu que o bispo de Durham fizera mais do que qualquer outra pessoa, pois, pagando elevado preço pelos livros deixados em seu poder, habilitara-o a prosseguir com bom ânimo.
Tyndale foi traído e entregue aos inimigos, permanecendo por muitos meses na prisão. Finalmente deu testemunho da fé, morrendo mártir; mas as armas que preparara habilitaram outros soldados a batalhar por todos os séculos, mesmo até aos nossos dias.
Latimer sustentava do púlpito que a Bíblia deveria ser lida na língua do povo. O Autor da Escritura Sagrada, disse ele, “é o próprio Deus”; e esta Escritura participa do poder e da eternidade de seu Autor. “Não há rei, imperador, magistrado, ou governador ... que não tenha o dever de obedecer a ... Sua santa Palavra.” “Não tomemos quaisquer atalhos, mas dirija-nos a Palavra de Deus: não andemos segundo nossos antepassados nem busquemos saber o que fizeram, mas sim o que deveriam ter feito.” — Primeiro Sermão Pregado Perante o Rei Eduardo VI, Latimer.
Barnes e Frith, fiéis amigos de Tyndale, levantaram-se em defesa da verdade. Seguiram-se os Ridleys e Cranmer. Estes dirigentes da Reforma inglesa eram homens de saber, e quase todos tinham sido muito estimados pelo zelo e piedade na comunhão romana. Sua oposição ao papado resultou de seu conhecimento dos erros da “Santa Sé.” Familiarizados com os mistérios de Babilônia, maior poder imprimiram a seus testemunhos contra ela.
“Farei agora uma estranha pergunta”, disse Latimer. “Quem é o mais diligente bispo em toda a Inglaterra? ... Vejo-vos a ouvir e escutar que eu o nomeie. ... Eu vo-lo direi: é o diabo. ... Ele nunca abandona sua diocese; ... procurai-o quando quiserdes, sempre está em casa; ... está sempre junto a seu arado. ... Nunca o achareis ocioso, garanto-vos. ... Onde reside o diabo, ... fora com os livros, e venham as velas; fora com as Bíblias e venham os rosários; fora com a luz do evangelho, e venha a luz das velas, sim, ao meio-dia; ... abaixo a cruz de Cristo, viva o purgatório limpa-bolsas; ... fora com o vestir os nus, os pobres e os inválidos, e viva o cobrir de imagens e festivos ornamentos, o pau e a pedra; venham as tradições dos homens e suas leis, abaixo com as tradições de Deus e Sua santíssima Palavra. ... Quem dera fossem nossos prelados tão diligentes em semear a boa doutrina, como Satanás o é em semear o joio ou cizânia!” — Sermão do Arado, Latimer.
O Grande Conflito · Ellen G. White