Cristo A Igreja
Plano Encontro 2 Dia 243
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Leitura do livro
O Grande Conflito, páginas 249-253
O grande princípio mantido por aqueles reformadores — princípio que fora sustentado pelos valdenses, por Wycliffe, João Huss, Lutero, Zwínglio e pelos que a eles se uniram — foi a autoridade infalível das Escrituras Sagradas como regra de fé e prática. Negavam o direito dos papas, concílios, padres e reis, de dirigirem a consciência em matéria de religião. A Bíblia era a sua autoridade, e por seus ensinos provavam todas as doutrinas e reivindicações. A fé em Deus e em Sua Palavra sustentava aqueles homens santos, ao renderem eles a vida no instrumento de tortura. “Consola-te”, exclamou Latimer a seu companheiro de martírio, quando as chamas estavam a ponto de fazer silenciar-lhes a voz; “acenderemos neste dia na Inglaterra uma luz que, pela graça de Deus, espero jamais se apagará.” — Obras de Hugo Latimer.
Na Escócia, a semente da verdade, espalhada por Columba e seus cooperadores, nunca foi totalmente destruída. Durante séculos, depois de as igrejas da Inglaterra se submeterem a Roma, as da Escócia mantiveram sua liberdade. No século XII, entretanto, o papado se estabeleceu ali, e em nenhum país exerceu mais absoluto domínio. Em parte alguma eram mais profundas as trevas. Todavia, ali chegaram raios de luz a penetrarem as trevas, apresentando a promessa do dia vindouro. Os lolardos, vindos da Inglaterra com a Bíblia e ensinos de Wycliffe, muito fizeram para preservar o conhecimento do evangelho, e cada século teve suas testemunhas e mártires.
Com a inauguração da grande Reforma, vieram os escritos de Lutero, e então o Novo Testamento inglês de Tyndale. Sem serem notados pela hierarquia, esses mensageiros atravessaram silenciosamente as montanhas e vales, reacendendo o facho da verdade quase a extinguir-se na Escócia, e desfazendo a obra que Roma fizera durante quatro séculos de opressão.
Deu então o sangue dos mártires novo ímpeto ao movimento. Os chefes romanistas, apercebendo-se subitamente do perigo que ameaçava a sua causa, levaram à fogueira alguns dos mais nobres e honrados filhos da Escócia. Não fizeram senão erigir um púlpito, do qual as palavras daquelas
sua religião segundo o sabor dos príncipes. Pois muitas vezes acontece que os príncipes são os mais ignorantes de todos no tocante à verdadeira religião de Deus. ... Se toda a semente de Abraão houvesse sido da religião de Faraó, de quem foram súditos durante muito tempo, pergunto-vos, senhora, que religião teria havido no mundo? Ou se todos os homens nos dias dos apóstolos houvessem sido da religião dos imperadores romanos, que religião teria havido sobre a face da Terra? ... E assim, senhora, podeis compreender que os súditos não são obrigados a ter a religião de seus príncipes, conquanto se lhes recomende prestar-lhes obediência.”
Disse Maria: “Interpretais as Escrituras de uma maneira, e eles [os ensinadores católicos, romanos] interpretam-nas de outra; a quem deverei crer, e quem será juiz?”
“Crereis em Deus, que claramente fala em Sua Palavra”, respondeu o reformador; “e além do que a Palavra vos ensina não crereis nem a um nem a outro. A Palavra de Deus é clara por si mesma; e se aparecer qualquer obscuridade em um lugar, o Espírito Santo, que nunca é contrário a Si mesmo, em outros lugares explica a obscuridade de maneira mais clara, de modo que não poderá ficar dúvida a não ser para os que obstinadamente se conservem na ignorância.” — Obras de João Knox, de Laing.
Essas foram as verdades que o destemido reformador, com perigo de vida, disse aos ouvidos da realeza. Com a mesma denodada coragem, manteve seu propósito, orando e ferindo as batalhas do Senhor; até que a Escócia ficou livre do papado.
Na Inglaterra, o estabelecimento do protestantismo como religião nacional diminuiu a perseguição mas não a deteve completamente. Enquanto muitas das doutrinas de Roma foram renunciadas, conservavam-se não poucas de suas formas. Foi rejeitada a supremacia do papa, mas em seu lugar o monarca foi entronizado como cabeça da igreja. No culto da igreja ainda havia largo desvio da pureza e simplicidade do evangelho. O grande princípio da liberdade religiosa não fora por enquanto compreendido. Ainda que só raramente os
governadores protestantes recorressem às horríveis crueldades que Roma empregava contra a heresia, o direito de cada homem adorar a Deus segundo os ditames de sua própria consciência não era ainda reconhecido. Exigia-se de todos aceitar as doutrinas e observar as formas de culto prescritas pela igreja estabelecida. Os dissidentes foram perseguidos, em maior ou menor grau, durante centenas de anos.
No século XVII, milhares de pastores foram destituídos de seus cargos. Foi proibido ao povo, sob pena de pesadas multas, prisão e banimento, assistir a qualquer reunião religiosa exceto às que eram sancionadas pela igreja. As almas fiéis que não podiam abster-se de se reunir para adorar a Deus, eram obrigadas a reunir-se nas ruas escuras, em sombrias águas-furtadas e, em certas estações, nos bosques à meia-noite. Na profundidade agasalhadora da floresta — templo construído pelo próprio Deus — aqueles dispersos e perseguidos filhos do Senhor se congregavam para derramar a alma em oração e louvor. Mas, a despeito de toda precaução, muitos sofreram pela fé. As cadeias estavam repletas. As famílias eram divididas. Muitos eram banidos para países estrangeiros. Contudo, Deus estava com Seu povo, e a perseguição não conseguia fazer silenciar-lhes o testemunho. Muitos foram impelidos para a América do Norte, através do Oceano, e ali lançaram os fundamentos da liberdade civil e religiosa, que tem sido o baluarte e glória desse país.
Novamente, como nos dias apostólicos, a perseguição redundou em favor do evangelho. Em nauseabundo calabouço, repleto de devassos e traidores, João Bunyan respirava a própria atmosfera do Céu; e ali escreveu a maravilhosa alegoria da viagem do peregrino, da terra da destruição para a cidade celestial. Por mais de dois séculos aquela voz da cadeia de Bedford tem falado com poder penetrante ao coração dos homens. O Peregrino e Graça Abundante ao Principal dos Pecadores, escritos por Bunyan, têm guiado muitos à senda da vida.
Baxter, Flavel, Alleine e outros homens de talento, cultura e profunda experiência cristã, ergueram-se em valorosa defesa
da fé que uma vez foi entregue aos santos. A obra realizada por esses homens, proscritos e renegados pelos governantes deste mundo, jamais poderá perecer. A Fonte da Vida e o Método da Graça, de Flavel, têm ensinado milhares a confiar a Cristo a guarda de sua alma. O Pastor Reformado, de Baxter, demonstrou-se uma bênção a muitos que desejam uma revivificação da obra de Deus, e O Eterno Repouso dos Santos efetuou seu trabalho levando almas ao “repouso que resta ainda para o povo de Deus”.
Um século mais tarde, em tempo de grandes trevas espirituais, Whitefield e os Wesley apareceram como portadores da luz de Deus. Sob o domínio da igreja estabelecida, o povo da Inglaterra havia caído em tal declínio religioso que dificilmente se poderia diferençar do paganismo. A religião natural era o estudo favorito do clero e incluía a maior parte de sua teologia. As classes mais elevadas zombavam da piedade, e orgulhavam-se de estar acima do que chamavam fanatismo da mesma. As classes inferiores eram crassamente ignorantes e entregues ao vício, enquanto a igreja não mais tinha coragem nem fé para apoiar a causa esmorecida da verdade.
A grande doutrina da justificação pela fé, tão claramente ensinada por Lutero, fora quase de todo perdida de vista; e o princípio romanista de confiar nas boas obras para a salvação, tomara-lhe o lugar. Whitefield e os Wesley, que eram membros da igreja estabelecida, buscavam sinceramente o favor de Deus, e isto, haviam sido ensinados, deveria conseguir-se mediante vida virtuosa e pela observância das ordenanças da religião.
Quando Carlos Wesley caiu doente certa vez, e previu a aproximação da morte, foi interrogado sobre aquilo em que depositava a esperança de vida eterna. Sua resposta foi: “Tenho empregado meus melhores esforços para servir a Deus.” Como o amigo que fizera a pergunta parecesse não ficar completamente satisfeito com a resposta, pensou Wesley: “Pois quê? Não são meus esforços razão suficiente para a esperança? Despojar-me-ia ele de meus esforços? Nada mais tenho em que confiar.” — Vida de Carlos Wesley, de João Whitehead,
O Grande Conflito · Ellen G. White