Cristo A Igreja

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Leitura do livro

O Grande Conflito, páginas 254-256

pág. 102. Tais eram as densas trevas que haviam baixado sobre a igreja, ocultando a obra de expiação, despojando a Cristo de Sua glória, e desviando a mente dos homens de sua única esperança de salvação — o sangue do Redentor crucificado.

Wesley e seus companheiros chegaram a ver que a verdadeira religião se localiza no coração, e que a lei de Deus se estende tanto aos pensamentos como às palavras e ações. Convictos da necessidade de pureza de coração, bem como da correção da conduta exterior, buscaram com zelo levar uma nova vida. Com oração e diligentes esforços, aplicavam-se a subjugar os males do coração natural. Viviam vida de renúncia, caridade e humilhação, observando com grande rigor e exatidão todas as medidas que julgavam lhes pudessem ser de auxílio para obter o que mais desejavam — a santidade que conseguia o favor de Deus. Mas não alcançaram o objetivo que procuravam. Nulos foram seus esforços para se libertar da condenação do pecado, ou para lhe quebrar o poder. Essa foi a mesma luta que Lutero experimentara em sua cela em Erfurt. A mesma questão lhe torturara a alma — “Como se justificaria o homem para com Deus?” Jó 9:2.

Os fogos da verdade divina, quase extintos sobre os altares do protestantismo, deveriam reacender-se do antigo facho legado através dos séculos pelos cristãos boêmios. Depois da Reforma, o protestantismo na Boêmia fora calcado a pés pelas hordas de Roma. Todos os que se recusavam a renunciar à verdade foram obrigados a fugir. Alguns destes, encontrando refúgio na Saxônia, ali mantiveram a antiga fé. Foi dos descendentes desses cristãos que a luz chegara a Wesley e a seus companheiros.

João e Carlos Wesley, depois de serem ordenados para o ministério, foram enviados em missão à América do Norte. A bordo do navio havia um grupo de morávios. Violentas tempestades acossaram-nos na travessia, e João Wesley, posto face a face com a morte, sentiu que não tinha a certeza de paz com Deus. Os alemães, ao contrário, manifestavam uma calma e confiança que lhe eram estranhas.

“Muito tempo antes”, disse ele, “já eu havia observado a grande rigidez de sua conduta. De sua humildade haviam dado prova contínua, efetuando para os outros passageiros as ocupações servis que nenhum dos ingleses desempenharia; isto, sem desejarem nem receberem paga, dizendo que era bom para o seu coração orgulhoso, e que seu amante Salvador por eles fizera mais. E dia a dia manifestavam uma mansidão que nenhuma ofensa poderia abalar. Se eram empurrados, batidos ou derrubados, erguiam-se de novo e iam-se; mas nenhuma queixa lhes escapava dos lábios. Houve então uma oportunidade para provar se eram movidos pelo espírito de temor, ou de orgulho, ira e vingança. Em meio do salmo com que iniciaram seu culto, o mar enfureceu-se, reduzindo a pedaços a vela principal, cobrindo o navio e derramando-se pelos conveses como se o grande abismo já nos houvesse tragado. Terrível alarido surgiu entre os ingleses. Os alemães calmamente continuaram a cantar. Perguntei a um deles, depois: ‘Não ficastes com medo?’ Ele respondeu: ‘Graças a Deus, não!’ Perguntei: ‘Mas não ficaram com medo vossas mulheres e crianças?’ Respondeu brandamente: ‘Não, nossas mulheres e crianças não têm medo de morrer.’” — Vida de João Wesley, de Whitehead, pág. 10.

Ao chegar a Savannah, Wesley demorou-se por um pouco de tempo com os morávios, ficando profundamente impressionado com a sua conduta cristã. Descrevendo um de seus cultos religiosos, que oferecia grande contraste com o culto formalista da igreja da Inglaterra, disse: “A grande simplicidade, assim como a solenidade que em tudo se notava, quase me fizeram esquecer os dezessete séculos decorridos, e imaginar-me eu numa daquelas assembléias onde não havia formas nem pompas, mas onde Paulo, o fabricante de tendas, ou Pedro, o pescador, presidiam, e contudo havia demonstração do Espírito e poder.” — Ibidem, págs. 11 e 12.

Ao voltar para a Inglaterra, Wesley, sob a instrução de um pregador morávio, chegou a um entendimento mais claro da fé bíblica. Ficou convencido de que deveria renunciar a toda

confiança em suas próprias obras para a salvação, e que lhe cumpria confiar inteiramente no “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” Em uma reunião da Sociedade Morávia de Londres, foi lida uma declaração de Lutero, descrevendo a mudança que o Espírito de Deus opera no coração do crente. Ao ouvi-la, acendeu-se a fé na alma de Wesley. “Senti o coração aquecido de maneira estranha”, disse ele. “Senti que confiava em Cristo, Cristo somente, para a salvação; e foi-me concedida certeza de que Ele tirara meus pecados, sim, os meus, e me salvara da lei do pecado e da morte.” — Vida de João Wesley, de Whitehead, pág. 52.

Durante longos e sombrios anos de esforços exaustivos, anos de rigorosa renúncia, acusações e humilhações, Wesley havia-se conservado firme em seu único propósito de procurar a Deus. Encontrou-O, por fim; e achou que a graça que labutara por alcançar pelas orações e jejuns, obras de caridade e abnegação, era um dom, “sem dinheiro, e sem preço”.

Uma vez estabelecido na fé cristã, ardia-lhe a alma do desejo de espalhar por toda parte o conhecimento do glorioso evangelho da livre graça de Deus. “Considero o mundo todo minha paróquia”, disse ele; “em qualquer parte em que me encontre julgo próprio, justo e de meu dever indeclinável, declarar a todos os que desejam ouvir, as alegres novas da salvação.” — Vida de João Wesley, de Whitehead, pág. 74.

Continuou em sua vida austera e abnegada, agora não como base, mas como resultado da fé; não como raiz, mas como fruto da santidade. A graça de Deus em Cristo é o fundamento da esperança do cristão e essa graça se manifestará em obediência. A vida de Wesley foi dedicada à pregação das grandes verdades que recebera — justificação pela fé no sangue expiatório de Cristo e no poder renovador do Espírito Santo a operar no coração, produzindo frutos em uma vida de conformidade com o exemplo de Cristo.

Whitefield e os Wesley foram preparados para a sua obra mediante longas e decididas convicções pessoais quanto à sua própria condição perdida; e, para que pudessem habilitar-se a

O Grande Conflito · Ellen G. White

Passagem bíblica

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