Cristo A Igreja

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O Grande Conflito, páginas 241-243

com o sangue de seus discípulos. Mas nos países do norte encontrou pacífica entrada. Estudantes em Wittenberg, voltando para casa, levaram a fé reformada para a Escandinávia. A publicação dos escritos de Lutero também propagou a luz. O povo simples e robusto do norte, deixou a corrupção, a pompa e as superstições de Roma, para acolher a pureza, a simplicidade e as verdades vitais da Bíblia.

Tausen, o “Reformador da Dinamarca”, era filho de camponês. Desde a infância deu mostras de vigoroso intelecto; tinha sede de saber; mas este desejo lhe foi negado pelas circunstâncias em que seus pais se achavam, e entrou para o claustro. Ali, sua pureza de vida bem como diligência e fidelidade, conquistaram a benevolência de seu superior. O exame demonstrou possuir talento que prometia em algum futuro bons serviços à igreja. Foi decidido dar-lhe educação em uma das universidades da Alemanha ou dos Países Baixos. Concedeu-se ao jovem estudante permissão para escolher por si mesmo uma escola, com a condição de que não fosse a de Wittenberg. Não convinha expor o educando ao veneno da heresia. Assim pensaram os frades.

Tausen foi para Colônia, que era então, como hoje, um dos baluartes do romanismo. Ali logo se desgostou com o misticismo dos escolásticos. Aproximadamente por esse mesmo tempo obteve os escritos de Lutero. Leu-os com admiração e deleite, desejando grandemente o privilégio de receber instrução pessoal do reformador. Mas para fazer isso, deveria arriscar ofender a seu superior e privar-se de seu arrimo. Decidiu-se logo, e pouco tempo depois se matriculou na Universidade de Wittenberg.

Voltando à Dinamarca, de novo se dirigiu a seu mosteiro. Ninguém, por enquanto, o suspeitava de luteranismo; não revelou seu segredo, mas sem despertar preconceitos dos companheiros, esforçava-se por levá-los a uma fé mais pura e vida mais santa. Expôs-lhes a Bíblia e explicou seu verdadeiro sentido, pregando-lhes finalmente a Cristo como a justiça do pecador e sua única esperança de salvação. Grande foi a ira do

prior, que nele havia depositado extraordinárias esperanças como valoroso defensor de Roma. Foi logo removido de seu mosteiro para outro, e confinado à cela sob estrita fiscalização.

Para o terror de seus novos guardiães, vários dos monges logo se declararam conversos ao protestantismo. Através das barras da cela, Tausen comunicara aos companheiros o conhecimento da verdade. Fossem aqueles padres dinamarqueses peritos no plano da igreja de como tratar a heresia, e a voz de Tausen jamais teria sido de novo ouvida; mas, em vez de o confiar ao túmulo nalguma masmorra subterrânea, expulsaram-no do mosteiro. Estavam, então, reduzidos à impotência. Um edito real, apenas promulgado, oferecia proteção aos ensinadores da nova doutrina. Tausen começou a pregar. As igrejas lhe foram abertas, e o povo reunia-se em multidão para ouvi-lo. Outros também estavam a pregar a Palavra de Deus. O Novo Testamento, traduzido para a língua dinamarquesa, circulou amplamente. Os esforços feitos pelos romanistas a fim de destruir a obra, tiveram como resultado estendê-la e, não muito depois, a Dinamarca declarava aceitar a fé reformada.

Na Suécia, também, jovens que haviam bebido da fonte de Wittenberg, levaram a água da vida a seus patrícios. Dois dos dirigentes da Reforma sueca, Olavo e Lourenço Petri, filhos de um ferreiro de Orebro, estudaram com Lutero e Melâncton, e foram diligentes em ensinar as verdades que assim aprenderam. Semelhante ao grande reformador, Olavo despertava o povo pelo seu zelo e eloqüência, enquanto Lourenço, à semelhança de Melâncton, era ilustrado, refletido e calmo. Ambos eram homens de fervorosa piedade, profundos conhecimentos teológicos e inflexível coragem para promover o avançamento da verdade. A oposição romanista não faltava. Os padres católicos instigavam o povo ignorante e supersticioso. Olavo Petri foi muitas vezes assaltado pela populaça, e em várias ocasiões mal pôde escapar com vida. Estes reformadores eram, entretanto, favorecidos e protegidos pelo rei.

Sob o domínio da Igreja de Roma, o povo estava submerso na pobreza e atormentado pela opressão. Destituídos das Escrituras, e tendo uma religião de meras formas e cerimônias, que não transmitia luz ao espírito, estavam a voltar às crenças supersticiosas e práticas pagãs de seus antepassados gentios. A nação achava-se dividida em facções contendoras, cuja perpétua luta aumentava a miséria de todos. Resolveu o rei fazer uma reforma no Estado e na igreja, e recebeu com agrado aqueles hábeis auxiliares na batalha contra Roma.

Na presença do monarca e dos principais homens da Suécia, Olavo Petri, com grande habilidade, defendeu contra os campeões romanos as doutrinas da fé reformada. Declarou que os ensinos dos pais da igreja deviam ser recebidos apenas quando estivessem de acordo com as Escrituras; que as doutrinas essenciais da fé são apresentadas na Bíblia de maneira clara e simples, de modo que todos os homens as possam compreender. Disse Cristo: “A Minha doutrina não é Minha, mas dAquele que Me enviou” (João 7:16); e Paulo declarou que se pregasse outro evangelho a não ser aquele que recebera, seria anátema. Gálatas 1:8. Como, pois, disse o reformador, “pretenderão outros de acordo com sua vontade decretar dogmas, impondo-os como coisa necessária à salvação?” — Wylie. Demonstrou que os decretos da igreja não têm autoridade quando em oposição aos mandamentos de Deus, e insistiu no grande princípio protestante de que “a Bíblia e a Bíblia só” é a regra de fé e prática.

Esta contenda, posto que travada em cenário relativamente obscuro, serve para mostrar-nos “a qualidade de homens que formavam a maior parte do exército dos reformadores. Longe de serem analfabetos, sectaristas, controversistas ruidosos — eram homens que haviam estudado a Palavra de Deus, e bem sabiam como manejar as armas com que os supria o arsenal da Escritura. Com respeito à erudição, antecipavam-se a seu tempo. Quando fixamos a atenção em centros brilhantes como Wittenberg e Zurique, e em ilustres nomes tais como os de

O Grande Conflito · Ellen G. White

Passagem bíblica

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