Cristo A Igreja

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Leitura do livro

O Grande Conflito, páginas 237-240

Capítulo 13 — A liberdade nos Países Baixos

Nos Países Baixos a tirania papal já muito cedo suscitou resoluto protesto. Setecentos anos antes do tempo de Lutero, dois bispos, enviados em embaixada a Roma, ao se tornarem conhecedores do verdadeiro caráter da “Santa Sé”, dirigiram corajosamente ao pontífice romano as seguintes acusações: Deus “fez rainha e esposa Sua a Igreja, e proveu-a de abundantes bens para seus filhos, com dote que se não consome nem se corrompe, e deu-lhe uma coroa e cetro eternos; ... tudo o que vos beneficia, e como um ladrão interceptais. Sentais-vos no templo como Deus; em vez de pastor vos fizestes lobo para as ovelhas; ... quereis fazer-nos crer que sois o bispo supremo, quando nada mais sois que tirano. ... Conquanto devais ser servo dos servos, como chamais a vós mesmos, esforçais-vos por vos tornar senhor dos senhores. ... Trazeis o desdém aos mandamentos de Deus. ... O Espírito Santo é o edificador de todas as igrejas até onde se estender a Terra. ... A cidade de nosso Deus, da qual somos cidadãos, atinge todas as regiões dos céus; e é maior do que a cidade chamada Babilônia pelos santos profetas, a qual pretende ser divina, elevando-se ao céu e se jacta de que sua sabedoria é imortal; e finalmente afirma, ainda que sem razão, que nunca errou, nem jamais poderá errar.” — História da Reforma nos Países Baixos e em Redor Deles, Brandt.

Outros surgiram de século em século para fazer soar este protesto. E aqueles primitivos ensinadores que, atravessando diferentes países, eram conhecidos por vários nomes e tinham as características dos missionários valdenses, espalhando por toda parte o conhecimento do evangelho, penetraram nos Países Baixos. Suas doutrinas se difundiram rapidamente. A Bíblia valdense foi traduzida em verso para a língua holandesa. Declararam “que havia nela grande vantagem. Nada de motejos, fábulas, futilidade, enganos, mas palavras de verdade. Com efeito, havia aqui e acolá uma dura crosta, mas a medula e doçura do que é bom e santo podiam ser nela facilmente descobertas.” — Brandt. Assim escreveram no século XII os amigos da antiga fé.

Começaram então as perseguições romanas; mas em meio das fogueiras e torturas os crentes continuaram a multiplicar-se, declarando firmemente que a Bíblia é a única autoridade infalível em matéria de religião, e que “nenhum homem deveria ser coagido a crer, mas sim ser ganho pela pregação.” — Martyn.

Os ensinos de Lutero encontraram terreno propício nos Países Baixos, e homens ardorosos e fiéis surgiram para pregar o evangelho. De uma das províncias da Holanda veio Meno Simons. Educado como católico romano, e ordenado ao sacerdócio, era completamente ignorante em relação à Escritura, e não a queria ler de medo de cair no engano da heresia. Quando o impressionou uma dúvida a respeito da doutrina da transubstanciação, considerou isso como tentação de Satanás, e pela prece e confissão procurou dela libertar-se, mas em vão. Entregando-se ao desregramento, esforçou-se por fazer silenciar a voz da consciência; sem resultado, porém. Depois de algum tempo foi levado ao estudo do Novo Testamento, o qual, juntamente com os escritos de Lutero, o fez aceitar a fé reformada. Logo depois, testemunhou numa aldeia vizinha a decapitação de um homem, morto por ter sido rebatizado. Isto o levou a estudar na Bíblia a questão do batismo infantil. Não pôde encontrar prova para ele nas Escrituras, mas viu que o

arrependimento e a fé eram tudo que se exigia como condição para receber o batismo.

Meno retirou-se da igreja romana e dedicou a vida a ensinar as verdades que recebera. Tanto na Alemanha como nos Países Baixos surgira uma classe de fanáticos, defendendo doutrinas absurdas e sediciosas, ultrajando a ordem e a decência, e levando a efeito a violência e a insurreição. Meno viu os terríveis resultados a que tal movimento conduziria inevitavelmente, e com tenacidade se opôs aos ensinos errôneos e ferozes planos dos fanáticos. Muitos havia, entretanto, que tinham sido transviados por esses fanáticos, renunciando, porém, posteriormente a suas perniciosas doutrinas; e restavam ainda muitos descendentes dos antigos cristãos, fruto dos ensinos valdenses. Entre essa classe Meno trabalhou com grande zelo e êxito.

Durante vinte e cinco anos viajou, com a esposa e filhos, suportando grandes agruras e privações, e freqüentemente em perigo de vida. Atravessou os Países Baixos e a Alemanha do norte, trabalhando principalmente entre as classes mais humildes, mas exercendo vasta influência. Eloqüente por natureza, posto que possuísse limitada educação, era homem de integridade inabalável, espírito humilde e maneiras gentis, e de uma piedade sincera e fervorosa, exemplificando na própria vida os preceitos que ensinava, e recomendando-se à confiança do povo. Seus seguidores estavam esparsos e eram oprimidos. Sofriam grandemente por serem confundidos com os fanáticos adeptos de Münster. Não obstante, grande número se converteu pelos seus labores.

Em parte alguma foram as doutrinas reformadas mais geralmente recebidas do que nos Países Baixos. Em poucos países suportaram seus adeptos mais terríveis perseguições. Na Alemanha, Carlos V havia condenado a Reforma, e com prazer teria levado à tortura todos os seus partidários; mas os príncipes mantiveram-se como uma barreira contra sua tirania. Nos Países Baixos seu poder foi maior, e editos perseguidores seguiam-se uns aos outros em rápida sucessão. Ler a Bíblia,

ouvi-la ou pregá-la, ou mesmo falar a respeito dela, era incorrer na pena de morte pela tortura. Orar a Deus em secreto, deixar de curvar-se perante as imagens, ou cantar um salmo, eram também puníveis de morte. Mesmo os que renunciassem seus erros, eram condenados, sendo homens, a morrer pela espada; e sendo mulheres, a ser enterradas vivas. Milhares pereceram sob o reinado de Carlos e de Filipe II.

Certa ocasião uma família inteira foi levada perante os inquisidores, acusada de não assistir à missa, e de fazer culto em casa. Ao serem examinados quanto às suas práticas particulares, respondeu o filho mais moço: “Pomo-nos de joelhos, e oramos para que Deus nos ilumine a mente e perdoe os pecados; oramos pelo nosso soberano, para que seu reino seja próspero e sua vida feliz; oramos pelos nossos magistrados, para que Deus os guarde.” — Wylie. Alguns dos juízes ficaram profundamente comovidos; no entanto, o pai e um dos filhos foram condenados à fogueira.

A cólera dos perseguidores igualava-se à fé que tinham os mártires. Não somente homens, mas delicadas senhoras e moças ostentavam coragem inflexível. “Esposas tomavam lugar junto aos suplícios de seus maridos e, enquanto estes suportavam o fogo, elas balbuciavam palavras de consolação, ou cantavam salmos para animá-los.” “Jovens se deitavam vivas nas sepulturas, como se estivessem a entrar em seu quarto para o sono noturno; ou saíam para o cadafalso e para a fogueira, trajando seus melhores vestidos, como se fossem para o casamento.” — Wylie.

Como nos dias em que o paganismo procurou destruir o evangelho, o sangue dos cristãos era semente. (Ver a Apologia, de Tertuliano.) A perseguição servia para aumentar o número das testemunhas da verdade. Ano após ano o monarca, despeitado até à loucura pela resolução invencível do povo, persistia na obra cruel, mas em vão. Sob o nobre Guilherme de Orange, a Revolução trouxe finalmente à Holanda liberdade de culto a Deus.

Nas montanhas de Piemonte, nas planícies da França e praias da Holanda, o progresso do evangelho foi assinalado

O Grande Conflito · Ellen G. White

Passagem bíblica

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