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O Grande Conflito, páginas 226-228

defronte da casa de um luterano, o traidor fazia um sinal, mas nenhuma palavra era proferida. O cortejo fazia alto, entravam na casa, a família era arrastada e acorrentada, e o terrível séquito prosseguia em procura de novas vítimas. “Não poupavam casa, grande ou pequena, nem mesmo os colégios da Universidade de Paris. ... Morin fez abalar toda a cidade. ... Era o reinado do terror.” — História da Reforma no Tempo de Calvino, de D’Aubigné.

As vítimas foram mortas com tortura cruel, sendo ordenado especialmente que o fogo fosse abaixado, a fim de prolongar-lhes a agonia. Morreram, porém, como vencedores. Sua constância foi inabalável, imperturbada sua paz. Os perseguidores, impotentes para abalar-lhes a inflexível firmeza, sentiram-se derrotados. “Os cadafalsos foram distribuídos por todos os bairros de Paris, e as fogueiras arderam durante dias sucessivos, no intuito de, espalhando as execuções, espalhar o terror da heresia. A vantagem, entretanto, ficou afinal com o evangelho. Toda Paris habilitou-se a ver que espécie de homens as novas opiniões produziram. Não havia púlpito como a fogueira do mártir. A serena alegria que iluminava o rosto daqueles homens, ao se encaminharem ... para o lugar da execução; seu heroísmo, estando eles entre as chamas atrozes; seu meigo perdão às injúrias, em não poucos casos transformavam a cólera em piedade e o ódio em amor, pleiteando com irresistível eloqüência em prol do evangelho.” — Wylie.

Os padres, dispostos a conservar em seu auge a fúria popular, faziam circular as mais terríveis acusações contra os protestantes. Eram acusados de conspirar para o massacre dos católicos, subverter o governo e assassinar o rei. Nem uma sombra sequer de provas podiam aduzir em apoio das alegações. No entanto, aquelas profecias de males deveriam ter cumprimento; sob circunstâncias, porém, muito diversas e por causas de caráter oposto. As crueldades que foram pelos católicos infligidas aos inocentes protestantes, acumularam um peso de retribuições e, séculos depois, ocasionaram a mesma sorte que eles haviam predito estar iminente sobre o rei, seu governo e

seus súditos; mas produziram-na os incrédulos e os próprios romanistas. Não foi o estabelecimento do protestantismo, mas sim a sua supressão que, trezentos anos mais tarde, deveria trazer sobre a França essas horrendas calamidades.

Suspeita, desconfiança e terror invadiam agora todas as classes da sociedade. Entre o alarma geral, viu-se quão profundamente o ensino luterano se havia apoderado do espírito dos homens que mais se distinguiam pela educação, influência e excelência de caráter. Cargos de confiança e honra foram subitamente encontrados vagos. Artífices, impressores, estudantes, professores das universidades, autores e mesmo cortesãos, desapareceram. Centenas fugiram de Paris, constituindo-se voluntariamente exilados de sua terra natal, dando assim em muitos casos a primeira demonstração de que favoreciam a fé reformada. Os romanistas olharam em redor de si com espanto, ao pensar nos hereges que, sem o suspeitarem, haviam sido tolerados entre eles. Sua raiva foi descarregada nas multidões de vítimas mais humildes que estavam a seu alcance. As prisões ficaram repletas, e o próprio ar parecia obscurecido com o fumo de fogueiras a arder, acesas para os que professavam o evangelho.

Francisco I tinha-se gloriado de ser o dirigente no grande movimento em prol do renascimento do saber que assinalou o início do século XVI. Deleitara-se em reunir em sua corte homens de letras de todos os países. A seu amor ao saber e a seu desprezo pela ignorância e superstição dos monges deveu-se, em parte ao menos, o grau de tolerância que fora concedido à Reforma. Mas, inspirado pelo zelo de suprimir a heresia, este patrono do saber promulgou um edito declarando abolida a imprensa em toda a França! Francisco I apresenta um exemplo entre muitos registrados, os quais mostram que a cultura intelectual não é salvaguarda contra a intolerância e perseguição religiosas.

A França, mediante cerimônia solene e pública, deveria entregar-se completamente à destruição do protestantismo. Os padres exigiram que a afronta feita aos altos Céus, com a condenação da missa, fosse expiada com sangue, e que o rei, em favor de seu povo, desse publicamente sua sanção à medonha obra.

O dia 21 de janeiro de 1535 foi marcado para a terrível cerimônia. Haviam sido suscitados os supersticiosos temores e ódio fanático da nação inteira. Paris estava repleta de multidões que, de todos os territórios circunjacentes enchiam suas ruas. Deveria iniciar-se o dia por meio de uma vasta e imponente procissão. “Das casas ao longo do itinerário pendiam panos de luto, e erguiam-se altares a intervalos.” Diante de cada porta havia uma tocha acesa em honra ao “santo sacramento.” Antes de raiar o dia formou-se a procissão, no palácio do rei. “Primeiramente vinham as bandeiras e cruzes das várias paróquias; a seguir apareciam os cidadãos, caminhando dois a dois, e levando tochas.” Vinham então as quatro ordens de frades cada qual em seus trajes peculiares. Seguia vasta coleção de famosas relíquias. Após, cavalgavam senhorilmente eclesiásticos em suas vestes de púrpura e escarlate, e com adornos de jóias — uma exibição magnífica e resplandecente.

“A hóstia era levada pelo bispo de Paris, sob magnificente pálio, ... carregado por quatro príncipes de sangue. ... Em seguida à hóstia caminhava o rei. ... Francisco I, naquele dia, não levava coroa, nem vestes de Estado.” Com a “cabeça descoberta, olhos fixos no chão, na mão um círio aceso”, o rei da França aparecia “em caráter de penitente.” — Wylie. Em cada altar ele se curvava em humilhação, não pelos vícios que lhe aviltavam a alma, nem pelo sangue inocente que lhe manchava as mãos, mas pelo pecado mortal de seus súditos que tinham ousado condenar a missa. Seguindo-se a ele vinham a rainha e os dignitários do Estado caminhando também dois a dois, cada um com uma tocha acesa.

Como parte das cerimônias do dia, o próprio monarca discursou aos altos oficiais do reino no grande salão do palácio do bispo. Com semblante triste apareceu perante eles, e com palavras de eloqüência comovedora deplorou “o crime, a blasfêmia o tempo de tristeza e desgraça”, que sobrevieram à nação. E apelou para todo súdito leal a que auxiliasse na extirpação da pestilente heresia que ameaçava de ruína a França. “Tão verdadeiramente, senhores, como eu sou o vosso rei”, disse ele, “se

O Grande Conflito · Ellen G. White

Passagem bíblica

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