Cristo A Igreja
Plano Encontro 2 Dia 238
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Leitura do livro
O Grande Conflito, páginas 229-233
eu soubesse estar um dos meus próprios membros manchado ou infectado com esta detestável podridão, eu o daria para que vós o cortásseis. ... E, demais, se visse um de meus filhos contaminado por ela, não o pouparia. ... Eu mesmo o entregaria e sacrificaria a Deus.” As lágrimas abafaram-lhe as palavras, e toda a assembléia chorou, exclamando em uníssono: “Viveremos e morreremos pela religião católica!” — D’Aubigné.
Terríveis se tornaram as trevas da nação que rejeitara a luz da verdade. “A graça que traz a salvação” havia aparecido; mas a França, depois de lhe contemplar o poder e santidade, depois de milhares terem sido atraídos por sua divina beleza, depois de cidades e aldeias terem sido iluminadas por seu fulgor, desviou-se, preferindo as trevas à luz. Haviam repudiado o dom celestial, quando este lhes foi oferecido. Tinham chamado ao mal bem, e ao bem mal, até serem vítimas voluntárias do próprio engano. Agora, ainda que efetivamente cressem que, perseguindo ao povo de Deus estavam fazendo a obra divina, sua sinceridade não os inocentava. A luz que os teria salvo do engano, da mancha de sua alma pelo crime de sangue, haviam-na voluntariamente rejeitado.
Um juramento solene para extirpar a heresia foi feito na grande catedral, onde, quase três séculos mais tarde, a “Deusa da Razão” deveria ser entronizada por uma nação que se tinha esquecido do Deus vivo. Novamente se formou a procissão, e os representantes da França aprestaram-se a iniciar a obra que haviam jurado fazer. “A pequenas distâncias haviam-se erigido cadafalsos, nos quais certos cristãos protestantes deveriam ser queimados vivos, e arranjaram para que as fogueiras fossem acesas no momento em que o rei se aproximasse e a procissão fizesse alto para testemunhar a execução.” — Wylie. As minúcias das torturas suportadas por aquelas testemunhas de Cristo são demasiado dilacerantes para serem descritas; não houve, porém, vacilação por parte das vítimas. Exigindo-se-lhes retratar-se, um respondeu: “Creio unicamente no que os profetas e apóstolos anteriormente pregaram, e no que creu
Muito tempo antes da perseguição provocada pelos cartazes, o ousado e ardoroso Farel fora obrigado a fugir da terra de seu nascimento. Seguiu para a Suíça e, mediante seus labores, secundando a obra de Zwínglio, auxiliou a fazer pender a balança a favor da Reforma. Seus últimos anos deveriam ser ali despendidos; todavia continuou a exercer decidida influência sobre a Reforma na França. Durante os primeiros anos de exílio, seus esforços foram especialmente dirigidos no sentido de propagar o evangelho em seu país natal. Empregou tempo considerável com a pregação entre seus compatriotas próximo da fronteira, onde, com incansável vigilância, observava o conflito e auxiliava com suas palavras de animação e conselho. Com o auxílio de outros exilados, os escritos dos reformadores alemães foram traduzidos para a língua francesa, juntamente com a Bíblia em francês, impressos em grande quantidade. Por colportores foram estas obras extensamente vendidas na França. Eram fornecidas aos colportores por um preço baixo, e assim os lucros do trabalho os habilitavam a continuar.
Farel entrou para o seu trabalho na Suíça com as humildes vestes de mestre-escola. Dirigindo-se a uma paróquia afastada, dedicou-se à instrução das crianças. Além das matérias usuais de ensino, cautelosamente introduziu as verdades da Escritura, esperando atingir os pais mediante as crianças. Alguns houve que creram, mas os padres se apresentaram para deter o trabalho, e o supersticioso povo do campo ergueu-se para se opor ao mesmo. “Este não pode ser o evangelho de Cristo”, insistiam os padres, “sendo que a pregação disto não traz paz, mas guerra.” — Wylie. Semelhante aos primeiros discípulos, quando perseguido em uma cidade, fugia para outra. De vila em vila, de cidade em cidade, ia ele, viajando a pé, suportando fome, frio e cansaço, e por toda parte em perigo de vida. Pregava nas praças, nas igrejas, algumas vezes nos púlpitos das catedrais. Por vezes encontrava a igreja vazia de ouvintes; outras vezes era sua pregação interrompida com brados e zombaria; outras, ainda, era com violência arrancado do púlpito. Mais de uma vez foi apanhado pela plebe e espancado quase até morrer. Contudo,
prosseguia. Posto que freqüentemente repelido, voltava com incansável persistência ao ataque; e uma após outra, via vilas e cidades, que haviam sido redutos do papado, abrirem as portas ao evangelho. A pequena paróquia em que a princípio trabalhara, logo aceitou a fé reformada. As cidades de Morat e Neuchatel também renunciaram aos ritos romanos, removendo de suas igrejas as imagens idolátricas.
Farel havia muito desejara implantar as normas protestantes em Genebra. Se essa cidade pudesse ser ganha, seria um centro para a Reforma na França, na Suíça e na Itália. Com este objetivo diante de si, continuou com seus trabalhos até que foram ganhas muitas das cidades e aldeias circunjacentes. Então, com um único companheiro, entrou em Genebra. Mas foi-lhe permitido pregar apenas dois sermões. Os padres, tendo-se vãmente esforçado por conseguir sua condenação pelas autoridades civis, chamaram-no perante um concílio eclesiástico, ao qual chegaram com armas escondidas debaixo das vestes, decididos a tirar-lhe a vida. Fora do salão da assembléia reuniu-se uma populaça furiosa, com clavas e espadas, para garantir a sua morte caso conseguisse escapar do concílio. A presença dos magistrados e de uma força armada, entretanto, salvou-o. Cedo, na manhã seguinte, foi com seu companheiro conduzido através do lago para um lugar de segurança. — Assim terminou seu primeiro esforço para evangelizar Genebra.
Para a próxima prova foi escolhido um instrumento mais humilde — um jovem tão modesto na aparência, que foi tratado friamente mesmo pelos professos amigos da Reforma. Mas que poderia ele fazer onde Farel havia sido rejeitado? Como poderia alguém de pouca experiência e coragem resistir à tempestade, diante da qual os mais fortes e bravos haviam sido obrigados a fugir? “Não por força nem por violência, mas pelo Meu Espírito, diz o Senhor.” Zacarias 4:6. “Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes.” “Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.” 1 Coríntios 1:27, 25.
Froment iniciou o seu trabalho como mestre-escola. As
verdades que na escola ensinava às crianças, estas repetiam em casa. Logo os pais foram ouvir a explicação da Bíblia, até que a sala de aulas se encheu de atentos ouvintes. Novos Testamentos e folhetos foram livremente distribuídos, e atingiram a muitos que não ousavam ir abertamente ouvir as novas doutrinas. Depois de algum tempo este obreiro foi também obrigado a fugir; mas as verdades que ensinara tinham tomado posse do espírito das pessoas. A Reforma fora implantada, e continuou a se fortalecer e estabelecer-se. Os pregadores voltaram e, mediante seus trabalhos, o culto protestante foi finalmente estabelecido em Genebra.
A cidade já se havia declarado pela Reforma, quando Calvino, depois de vagueações e vicissitudes várias, entrou por suas portas. Voltando de sua última visita à terra natal, estava a caminho de Basiléia, quando, encontrando a estrada direta ocupada pelos exércitos de Carlos V, foi obrigado a tomar um desvio por Genebra.
Nessa visita Farel reconheceu a mão de Deus. Posto que Genebra houvesse aceitado a fé reformada, precisava ainda ser ali efetuada uma grande obra. Não é em grupos mas como indivíduos que os homens se convertem a Deus. A obra de regeneração deve ser realizada no coração e consciência, pelo poder do Espírito Santo, e não pelos decretos dos concílios. Ao passo que o povo de Genebra repelia a autoridade de Roma, não se mostrava tão pronto para renunciar aos vícios que haviam florescido sob o seu domínio. Estabelecer ali os puros princípios do evangelho, e preparar esse povo para preencher dignamente a posição a que a Providência parecia chamá-los, não era fácil tarefa.
Farel confiava em que houvesse encontrado em Calvino a pessoa que o pudesse assistir naquela obra. Em nome de Deus conjurou solenemente o jovem evangelista a que ficasse e ali trabalhasse. Calvino recuou, alarmado. Tímido e amante da paz, arreceava-se do contato com o espírito ousado, independente e mesmo violento daquele filho de Genebra. Sua debilidade de saúde juntamente com seus hábitos de estudo, levaram-no a procurar
O Grande Conflito · Ellen G. White