Cristo A Igreja
Plano Encontro 2 Dia 236
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Leitura do livro
O Grande Conflito, páginas 223-225
Não somente a capela, mas as antecâmaras e vestíbulos regurgitavam. Milhares se reuniam todos os dias — nobres, estadistas, advogados, negociantes e artífices. O rei, em vez de proibir essas assembléias, ordenou que duas das igrejas de Paris fossem abertas. Nunca dantes fora a cidade tão comovida pela Palavra de Deus. O espírito de vida, proveniente do Céu, parecia estar bafejando o povo. Temperança, pureza, ordem e trabalho estavam a tomar o lugar da embriaguez, libertinagem, contenda e ociosidade.
A hierarquia, porém, não estava ociosa. O rei ainda se recusava a intervir no sentido de sustar a pregação, e aquela se volveu para a populaça. Não se poupavam meios para excitar os temores, preconceitos e fanatismo das multidões ignorantes e supersticiosas. Entregando-se cegamente a seus falsos ensinadores, Paris, como Jerusalém na antiguidade, não conheceu o tempo de sua visitação, nem as coisas que pertenciam à sua paz. Durante dois anos a Palavra de Deus foi pregada na capital; mas, ao mesmo tempo em que havia muitos que aceitavam o evangelho, a maioria das pessoas o rejeitavam. Francisco dera mostra de tolerância, meramente para servir a seus próprios propósitos, e os romanistas conseguiram readquirir a ascendência. De novo se fecharam as igrejas e ateou-se a fogueira.
Calvino ainda estava em Paris, preparando-se pelo estudo, meditação e oração, para os seus futuros labores, e continuando a disseminar a luz. Finalmente, porém, firmou-se contra ele a suspeita. As autoridades resolveram levá-lo às chamas. Considerando-se seguro em sua reclusão, não tinha idéia do perigo, quando amigos vieram precipitadamente a seu quarto com as notícias de que oficiais estavam a caminho para prendê-lo. Naquele instante ouviu-se uma forte pancada na porta exterior. Não havia um momento a perder. Alguns amigos detiveram os oficiais à porta, enquanto outros ajudavam o reformador a descer por uma janela; e rapidamente saiu para os extremos da cidade. Encontrando abrigo na cabana de um trabalhador amigo da Reforma, disfarçou-se nos trajes de seu
hospedeiro e, levando ao ombro uma enxada, partiu em sua jornada. Viajando para o sul, encontrou novamente refúgio nos domínios de Margarida. — História da Reforma no Tempo de Calvino. — Ver D’Aubigné.
Ali, por alguns meses, permaneceu em segurança sob a proteção de poderosos amigos, e como dantes, empenhado no estudo. Mas seu coração estava determinado a fazer a evangelização da França, e ele não poderia ficar por muito tempo inativo. Logo que a tempestade amainou um pouco, procurou um novo campo de trabalho em Poitiers, onde havia uma universidade, e onde já as novas opiniões alcançavam aceitação. Pessoas de todas as classes ouviam alegremente o evangelho. Não havia pregação pública, mas na casa do magistrado principal, em seus próprios cômodos, e algumas vezes num jardim público, Calvino desvendava as palavras de vida eterna aos que as desejavam ouvir. Depois de algum tempo, aumentando o número dos ouvintes, foi considerado mais seguro reunirem-se fora da cidade. Uma caverna ao lado de uma garganta profunda e estreita, onde árvores e pedras salientes tornavam a reclusão ainda mais completa, fora escolhida como o local para as reuniões. Pequenos grupos, que deixavam a cidade por estradas diferentes, dirigiam-se para ali. Neste ponto isolado, a Escritura era lida e explicada. Ali, pela primeira vez, foi pelos protestantes da França celebrada a Ceia do Senhor. Dessa pequena igreja foram enviados vários fiéis evangelistas.
Mais uma vez Calvino voltou a Paris. Mesmo então não podia abandonar a esperança de que a França, como nação, aceitasse a Reforma. Encontrou, porém, fechadas para o trabalho quase todas as portas. Ensinar o evangelho era tomar o caminho direto para a fogueira, e finalmente resolveu partir para a Alemanha. Apenas deixara a França, quando irrompeu sobre os protestantes uma tempestade que certamente o teria envolvido na ruína geral, caso houvesse ele permanecido.
Os reformadores franceses, ansiosos por ver seu país acompanhar a Alemanha e a Suíça, decidiram-se a desferir contra a superstição de Roma um golpe audaz, que despertaria a nação
inteira. De conformidade com isto, em uma noite foram afixados, por toda a França, cartazes que atacavam a missa. Em vez de promover a Reforma, este movimento zeloso, mas mal-interpretado, acarretou ruína, não somente para seus propagadores, mas também para os amigos da fé reformada na França inteira. Deu aos romanistas o que havia muito desejavam — um pretexto para pedirem a destruição completa dos hereges como agitadores perigosos à estabilidade do trono e da paz da nação.
Por alguma mão secreta — se a de um amigo imprudente, ou a de um ardiloso adversário, nunca se soube — um dos cartazes foi colocado à porta do quarto particular do rei. O monarca encheu-se de horror. Naquele papel eram atacadas sem reservas superstições que haviam recebido a veneração dos séculos. E a audácia, sem precedentes, de introduzir à presença real estas afirmações claras e surpreendentes, suscitou a ira do rei. Em espanto ficou ele por um pouco de tempo a tremer e com a voz embargada. Então sua raiva encontrou expressão nestas terríveis palavras: “Sejam sem distinção agarrados todos os que são suspeitos de luteranismo. Exterminá-los-ei a todos.” Estava lançada a sorte. O rei se decidira a pôr-se completamente do lado de Roma.
De pronto foram tomadas medidas para a prisão de todos os luteranos em Paris. Um pobre artífice, adepto da fé reformada, que se havia acostumado a convocar os crentes para as suas assembléias secretas, foi agarrado e, sob a ameaça de morte instantânea na fogueira, ordenou-se-lhe conduzir o emissário papal à casa de todos os protestantes na cidade. Ele estremeceu de horror ante a vil proposta, mas finalmente o medo das chamas prevaleceu, e concordou em se fazer traidor dos irmãos. Precedido da hóstia, e rodeado de um séquito de padres, incensadores, monges e soldados, Morin, agente policial do rei, com o traidor, vagarosa e silenciosamente passaram pelas ruas da cidade. Aquela demonstração era ostensivamente em honra ao “santo sacramento”, um ato de expiação pelo insulto feito pelos protestantes à missa. Mas, por sob aquele espetáculo escondia-se um propósito mortal. Chegado
O Grande Conflito · Ellen G. White