Cristo A Igreja
Plano Encontro 2 Dia 235
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Leitura do livro
O Grande Conflito, páginas 219-222
em vão. “Estamos também prontos”, disseram as testemunhas da verdade, “para enfrentar com ânimo a morte, pondo nossos olhos na vida por vir.” — História da Reforma no Tempo de Calvino, D’Aubigné.
Durante a perseguição em Meaux, os ensinadores da fé reformada foram proibidos de pregar, e partiram para outros campos. Lefèvre, depois de algum tempo, tomou rumo da Alemanha. Farel voltou para sua cidade natal, na França oriental, a fim de disseminar a luz no lugar de sua infância. Já se haviam recebido notícias do que se passava em Meaux, e a verdade, por ele ensinada com destemido zelo, atraía ouvintes. Levantaram-se logo as autoridades para fazê-lo silenciar, sendo ele banido da cidade. Posto que não mais pudesse trabalhar publicamente, atravessou as planícies e aldeias, ensinando nas casas particulares, nos prados isolados, encontrando abrigo nas florestas e entre as cavernas rochosas que haviam sido sua guarida nos tempos de rapaz. Deus o estava preparando para maiores provas. “Não têm faltado as cruzes, perseguições e maquinações de Satanás, de que eu estava prevenido”, disse ele; “são mesmo muito mais atrozes do que poderia suportar por mim mesmo; mas Deus é meu Pai; Ele me proveu e sempre há de prover-me da força que peço.” — D’Aubigné.
Como nos dias dos apóstolos, a perseguição contribuíra “para maior proveito do evangelho.” Filipenses 1:12. Expulsos de Paris e Meaux, “os que andavam dispersos iam por toda a parte, anunciando a Palavra.” Atos 8:4. E assim a luz teve acesso a muitas das afastadas províncias da França.
Deus estava ainda a preparar obreiros para ampliar a Sua causa. Em uma das escolas de Paris havia um jovem refletido, quieto, e que dava mostras de espírito robusto e penetrante, e não menos notável pela correção de vida do que pelo ardor intelectual e devoção religiosa. Seu gênio e aplicação logo o fizeram o orgulho do colégio, e tinha-se como certo que João Calvino seria um dos mais hábeis e honrados defensores da
igreja. Mas um raio de luz divina penetrou até ao próprio interior das paredes do escolasticismo e superstição em que se achava Calvino encerrado. Estremeceu ao ouvir das novas doutrinas, nada duvidando de que os hereges merecessem o fogo a que eram entregues. Contudo, sem disso se dar conta, foi posto face a face com a heresia, e obrigado a submeter à prova o poder da teologia romana no combate ao ensino protestante.
Estava em Paris um primo de Calvino, que se havia unido aos reformadores. Os dois parentes muitas vezes se encontravam, e juntos discutiam as questões que estavam perturbando a cristandade. “Não há senão duas espécies de religiões no mundo”, dizia o protestante Olivetan. “Uma é a espécie de religiões que os homens inventaram, e em todas as quais o homem se salva por cerimônias e boas obras; a outra é a religião que está revelada na Escritura Sagrada e ensina o homem a esperar pela salvação unicamente da livre graça de Deus.”
“Não quero nenhuma das tuas novas doutrinas”, exclamou Calvino; “achas que tenho vivido em erro todos os meus dias?” — Wylie.
No espírito, porém, haviam-se-lhe despertado pensamentos de que se não podia livrar de todo. Sozinho em seu quarto, ponderava as palavras do primo. Não o deixara a convicção do pecado; via-se sem intercessor, na presença de um santo e justo Juiz. A mediação dos santos, as boas obras, as cerimônias da Igreja, tudo era impotente para expiar o pecado. Nada via diante de si, além do negror do desespero eterno. Em vão os doutores da igreja se esforçavam por aliviar-lhe a infelicidade. Em vão recorria à confissão e penitência; estas não podiam reconciliar a alma com Deus.
Enquanto ainda se empenhava nessas lutas infrutíferas, Calvino, visitando casualmente uma das praças públicas, testemunhou ali a queima de um herege. Ficou deveras maravilhado ante a expressão de paz que se esboçava no semblante do mártir. Entre as torturas daquela morte cruel, e sob a mais terrível condenação da igreja, manifestou uma fé e
coragem que o jovem estudante dolorosamente contrastou com o seu próprio desespero e escuridão, embora vivesse em estrita obediência à igreja. Na Bíblia, sabia ele, fundamentavam os hereges a sua fé. Resolveu estudá-la e descobrir, se o pudesse, o segredo da alegria deles.
Na Bíblia achou a Cristo. “Ó Pai”, exclamou ele, “Seu sacrifício apaziguou Tua ira; Seu sangue lavou minhas impurezas; Sua cruz arrostou minha maldição; Sua morte fez expiação por mim. Imaginamos para nós muitas tolices inúteis, mas Tu colocaste Tua Palavra diante de mim como uma tocha, e tocaste-me o coração, a fim de que eu abominasse todos os outros méritos, com exceção dos de Jesus.” — Martyn.
Calvino tinha sido educado para o sacerdócio. Quando contava apenas doze anos de idade, foi designado para o cargo de capelão de pequena igreja, sendo-lhe pelo bispo tonsurada a cabeça, de acordo com o cânon da igreja. Não recebeu consagração, nem cumpria os deveres de sacerdote, mas tornou-se membro do clero, mantendo o título de seu ofício e recebendo um estipêndio em consideração ao mesmo.
Ora, compreendendo que jamais poderia tornar-se padre, volveu por algum tempo ao estudo das leis, mas abandonou finalmente este propósito e resolveu dedicar a vida ao evangelho. Hesitou, porém, em se fazer pregador público. Era naturalmente tímido, é pesava-lhe a intuição das graves responsabilidades daquele cargo, desejando ainda dedicar-se ao estudo. Os ardorosos rogos de seus amigos, entretanto, alcançaram finalmente o seu consentimento. “É maravilhoso”, disse ele, “que pessoa de tão humilde origem fosse exaltada a tão grande dignidade.” — Wylie.
Calmamente deu Calvino início à sua obra, e suas palavras foram como o orvalho que caía para refrigerar a terra. Deixara Paris, e então se encontrava numa cidade provinciana sob a proteção da princesa Margarida, que, amando o evangelho, estendia seu amparo aos discípulos do mesmo. Calvino era ainda jovem, de porte gentil e despretensioso. Começou o
trabalho nos lares do povo. Rodeado dos membros da família, lia a Escritura e desvendava as verdades da salvação. Os que ouviam a mensagem, levavam as boas novas a outros, e logo o ensinador passou para além da cidade, às vilas e aldeias adjacentes. Encontrava ingresso tanto no castelo como na cabana e ia avante, lançando o fundamento de igrejas que deveriam dar corajoso testemunho da verdade.
Decorridos alguns meses, achou-se de novo em Paris. Havia desusada agitação nas rodas dos homens ilustrados e eruditos. O estudo das línguas antigas conduzira os homens à Bíblia, e muitos, cujo coração não fora tocado pelas suas verdades, discutiam-nas avidamente, dando mesmo combate aos campeões do romanismo. Calvino, se bem que fosse hábil lutador nos campos da controvérsia religiosa, tinha a cumprir uma missão mais elevada do que a daqueles teólogos ruidosos. O espírito dos homens estava agitado, e esse era o tempo para lhes desvendar a verdade. Enquanto os salões da Universidade ecoavam do rumor das discussões teológicas, Calvino prosseguia de casa em casa, abrindo a Escritura ao povo, falando-lhes de Cristo, o Crucificado.
Na providência de Deus, Paris deveria receber outro convite para aceitar o evangelho. Rejeitara o apelo de Lefèvre e Farel, mas de novo a mensagem deveria ser ouvida por todas as classes naquela grande capital. O rei, influenciado por considerações políticas, não tinha ainda tomado completamente sua atitude ao lado de Roma contra a Reforma. Margarida ainda se apegava à esperança de que o protestantismo triunfasse na França. Resolveu que a fé reformada fosse pregada em Paris. Durante a ausência do rei, ordenou a um ministro protestante que pregasse nas igrejas da cidade. Sendo isto proibido pelos dignitários papais, a princesa abriu as portas do palácio. Um de seus compartimentos foi improvisado em capela e anunciou-se que diariamente, em hora determinada, seria pregado um sermão, sendo o povo de todas as classes e condições convidado a comparecer. Multidões congregavam-se para assistir ao culto.
O Grande Conflito · Ellen G. White