Cristo A Igreja
Plano Encontro 2 Dia 232
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Leitura do livro
O Grande Conflito, páginas 207-210
Ao virem para a frente os príncipes cristãos a fim de assinar a Confissão, Melâncton se interpôs, dizendo: “Compete aos teólogos e ministros propor estas coisas; reservemos para outros assuntos a autoridade dos poderosos da Terra.” “Deus não permita”, replicou João da Saxônia, “que me excluais. Estou resolvido a fazer o que é reto sem me perturbar acerca de minha coroa. Desejo confessar o Senhor. Meu chapéu de eleitor e meus títulos de nobreza não são para mim tão preciosos como a cruz de Jesus Cristo.” Tendo assim falado assinou o nome. Disse outro dos príncipes, ao tomar a pena: “Se a honra de meu Senhor Jesus Cristo o exige, estou pronto... para deixar meus bens e vida.” “Renunciaria de preferência a meus súditos e a meus domínios, deixaria de preferência o país de meus pais, com o bordão na mão”, continuou ele, “a receber qualquer outra doutrina que não a que se contém nesta Confissão.” — D’Aubigné. Tal era a fé e a ousadia daqueles homens de Deus.
Chegou o tempo designado para comparecer perante o imperador. Carlos V, sentado no trono, rodeado de seus eleitores e príncipes, deu audiência aos reformadores protestantes. Foi lida a Confissão de sua fé. Naquela augusta assembléia, as verdades do evangelho foram claramente apresentadas, e indicados os erros da igreja papal. Com razão foi aquele dia declarado “o maior dia da Reforma, e um dos mais gloriosos na história do cristianismo e da humanidade.” — D’Aubigné.
Entretanto, poucos anos se haviam passado desde que o monge de Wittenberg estivera em Worms, sozinho, perante o conselho nacional. Agora, em seu lugar estavam os mais nobres e poderosos príncipes do império. A Lutero fora proibido comparecer em Augsburgo, mais estivera presente por suas palavras e orações. “Estou jubilosíssimo”, escreveu, “de que eu tenha vivido até esta hora, na qual Cristo é publicamente exaltado por tão ilustres pessoas que O confessam, em uma assembléia tão gloriosa.” — D’Aubigné. Assim, cumpriu-se o que dizem as Escrituras: “Falarei dos Teus testemunhos perante os reis.” Salmos 119:46.
Nos dias do apóstolo Paulo, o evangelho pelo qual estava preso foi assim levado perante os príncipes e nobres da cidade imperial. Igualmente, nesta ocasião, aquilo que o imperador proibira fosse pregado do púlpito, era proclamado em palácio; aquilo que muitos tinham considerado inconveniente que os próprios servos ouvissem, era com admiração ouvido pelos senhores e fidalgos do império. Reis e grandes homens constituíam o auditório; príncipes coroados eram os pregadores; e o sermão era a régia verdade de Deus. “Desde a era apostólica”, diz um escritor, “nunca houve obra maior nem mais magnificente Confissão.” — D’Aubigné.
“Tudo quanto os luteranos disseram é verdade; não o podemos negar”, declarou um bispo romano. “Podeis refutar por meio de sãs razões a Confissão feita pelo eleitor e seus aliados?” perguntou outro, ao Dr. Eck. “Com os escritos dos apóstolos e profetas, não!” foi a resposta; “mas com os dos pais da igreja e dos concílios, sim!” “Compreendo”, respondeu o inquiridor. “Os luteranos, segundo vós o dizeis, estão com as Escrituras, e nós nos achamos fora delas.” — D’Aubigné.
Alguns dos príncipes da Alemanha foram ganhos para a fé reformada. O próprio imperador declarou que os artigos protestantes não eram senão a verdade. A Confissão foi traduzida para muitas línguas, e circulou por toda a Europa; e tem sido, em sucessivas gerações, aceita por milhões como a expressão de sua fé.
Os fiéis servos de Deus não estavam labutando sós. Enquanto “principados”, “potestades” e “hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais” se coligavam contra eles, o Senhor não Se esquecia de Seu povo. Se pudessem seus olhos abrir-se, teriam visto uma prova da presença e auxílio divinos, tão assinalada como fora concedida aos profetas de outrora. Quando o servo de Eliseu mostrou a seu senhor o exército hostil que os cercava, excluindo toda possibilidade de escape, o profeta orou: “Senhor, peço-Te que lhe abras os olhos para que veja.” 2 Reis 6:17. E eis que a montanha estava cheia de carros e cavalos de fogo, o exército do Céu estacionado para proteger o homem de Deus. Desta maneira guardaram os anjos os obreiros na causa da Reforma.
Um dos princípios mais firmemente mantidos por Lutero era que não deveria haver recurso ao poder secular em apoio da Reforma, e, tampouco, apelo às armas para a sua defesa. Regozijava-se de que o evangelho fosse professado por príncipes do império; mas, quando se propusera unir-se em uma liga defensiva, declarou que “a doutrina do evangelho seria defendida por Deus somente. ... Quanto menos o homem se entremetesse na obra, mais surpreendente seria a intervenção de Deus em prol da mesma. Todas as precauções políticas sugeridas eram, em sua opinião, atribuíveis ao temor indigno e à pecaminosa desconfiança.” — D’Aubigné.
Quando poderosos adversários se estavam unindo para destruir a fé reformada, e milhares de espadas pareciam prestes a desembainhar-se contra ela, Lutero escreveu: “Satanás está exercendo a sua fúria; ímpios pontífices estão conspirando; e nós somos ameaçados de guerra. Exortai o povo a contender valorosamente perante o trono do Senhor, pela fé e oração, de modo que nossos inimigos, vencidos pelo Espírito de Deus, possam ser constrangidos à paz. Nossa principal necessidade, nosso trabalho principal, é a oração; saiba o povo que, no momento, se encontra exposto ao gume da espada e à cólera de Satanás, e ore.” — D’Aubigné.
Novamente, em data posterior, referindo-se à aliança sugerida pelos príncipes reformados, Lutero declarou que a única arma empregada nesta luta deveria ser “a espada do Espírito.” Escreveu ao eleitor da Saxônia: “Não podemos perante nossa consciência aprovar a aliança proposta. Morreríamos dez vezes de preferência a ver nosso evangelho fazer derramar uma gota de sangue. Nossa parte é sermos semelhantes a cordeiros no matadouro. Temos de tomar a cruz de Cristo. Seja Vossa Alteza sem temor. Faremos mais com as nossas orações do que todos os nossos inimigos com sua jactância. Tão-somente não sejam vossas mãos manchadas com o sangue de irmãos. Se o imperador exigir que sejamos entregues aos seus tribunais, estamos prontos a comparecer. Não podeis defender a nossa fé: cada um deve crer com seu próprio risco e perigo.” — D’Aubigné.
Do local secreto da oração proveio o poder que abalou o mundo na grande Reforma. Ali, com santa calma, os servos do Senhor colocaram os pés sobre a rocha de Suas promessas. Durante a luta em Augsburgo, Lutero “não passou um dia sem dedicar três horas pelo menos à oração, e eram horas escolhidas dentre as mais favoráveis ao estudo.” Na intimidade de sua recâmara era ele ouvido a derramar sua alma perante Deus em palavras “cheias de adoração, temor e esperança, como quando alguém fala a um amigo.” “Eu sei que Tu és nosso Pai e nosso Deus”, dizia ele, “e que dispersarás os perseguidores de Teus filhos; pois Tu mesmo corres perigo conosco. Toda esta causa é Tua, e é unicamente constrangidos por Ti que lançamos mãos à mesma. Defende-nos, pois, ó Pai!” — D’Aubigné.
A Melâncton, que se achava aniquilado sob o peso da ansiedade e temor, ele escreveu: “Graça e paz em Cristo — em Cristo, digo eu, e não no mundo. Amém. Odeio com ódio enorme esses extremos cuidados que vos consomem. Se a causa é injusta, abandonai-a; se a causa é justa, porque desmentiríamos as promessas dAquele que nos manda dormir sem temor?... Cristo não faltará à obra de justiça e verdade. Ele vive, Ele reina; que temor, pois, poderemos ter?” — D’Aubigné.
Deus ouviu os clamores de Seus servos. Deu aos príncipes e ministros graça e coragem para manterem a verdade contra os dominadores das trevas deste mundo. Diz o Senhor: “Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido.” 1 Pedro 2:6. Os reformadores protestantes haviam edificado sobre Cristo, e as por tas do inferno não prevaleceriam contra eles.
O Grande Conflito · Ellen G. White