Cristo A Igreja
Plano Encontro 2 Dia 233
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Leitura do livro
O Grande Conflito, páginas 211-214
Capítulo 12 — Os nobres da França
O protesto de Espira e a Confissão de Augsburgo, que assinalaram a vitória da Reforma na Alemanha, foram seguidos de anos de conflitos e trevas. Enfraquecido por divisões entre seus mantenedores, atacado por poderosos inimigos, o protestantismo parecia destinado a ser totalmente destruído. Milhares selaram seu testemunho com o próprio sangue. Irrompeu a guerra civil; a causa protestante foi traída por um de seus principais adeptos; os mais nobres dos príncipes reformados caíram nas mãos do imperador e foram, de cidade em cidade, arrastados como cativos. Mas, no momento de seu triunfo aparente, foi o imperador afligido com a derrota. Viu a presa arrancada ao seu poder, sendo, por fim, obrigado a conceder tolerância às doutrinas cuja destruição fora o anelo de sua vida. Pusera em risco o reino, seus tesouros e a própria vida, no intuito de esmagar a heresia. Via agora os exércitos assolados pelas batalhas, os tesouros exauridos, seus muitos reinos ameaçados de revolta, enquanto, por toda parte, a fé que em vão se esforçara por suprimir, estava a estender-se. Carlos V estivera a batalhar contra o Poder onipotente. Deus dissera: “Haja luz”, mas o imperador havia procurado perpetuar as trevas. Falhara o seu propósito; e, prematuramente envelhecido e consumido pela longa luta, abdicou o trono e sepultou-se em um claustro.
Na Suíça, como na Alemanha, houve para a Reforma dias tenebrosos. Ao mesmo tempo em que muitos cantões
aceitaram a fé reformada, outros se apegaram com cega persistência ao credo de Roma. Sua perseguição aos que desejavam receber a verdade, deu finalmente origem à guerra civil. Zwínglio, e muitos que a ele se haviam unido na Reforma, caíram no campo de sangue de Cappel. Oecolampadius, vencido por estes terríveis desastres, morreu logo depois. Roma estava triunfante, e em muitos lugares parecia prestes a recobrar tudo o que perdera. Mas Aquele cujos conselhos são desde a eternidade, não abandonara Sua causa nem Seu povo. Sua mão lhes traria o livramento. Suscitara, em outros países, obreiros para levar avante a Reforma.
Em França, antes que o nome de Lutero fosse ouvido como reformador, já o dia começara a raiar. Um dos primeiros a receber a luz foi o idoso Lefèvre, homem de extenso saber, professor na Universidade de Paris e sincero e zeloso romanista. Em suas pesquisas da literatura antiga, sua atenção foi dirigida para a Escritura, e introduziu o estudo desta entre os seus alunos.
Lefèvre era entusiasta adorador dos santos, e empreendera a preparação de uma história dos santos e mártires, como a apresentam as lendas da igreja. Era esta uma obra que implicava grande trabalho; entretanto, ia ele bem adiantado na obra, quando, julgando que poderia obter proveitoso auxílio da Escritura Sagrada, começou o estudo desta com esse objetivo. Ali encontrou, na verdade, referência a santos, mas não idênticas às que figuravam no calendário romano. Um caudal de luz divina irrompeu-lhe no espírito. Com espanto e desgosto abandonou a tarefa a que se propusera, e dedicou-se à Palavra de Deus. Pôs-se logo a ensinar as preciosas verdades que nela descobrira.
Em 1512, antes que Lutero ou Zwínglio houvessem iniciado a obra da Reforma, Lefèvre, escreveu: “É Deus que dá, pela fé, a justiça que, somente pela graça, justifica para a vida eterna.” — Wylie. Tratando dos mistérios da redenção, exclamou: “Oh! que indizível grandeza a daquela permuta — é condenado Aquele que não tem pecado, e o que é culpado fica
livre; o Bem-aventurado suporta a maldição, e o maldito recebe a bênção; a Vida morre, e os mortos vivem; a Glória é submersa em trevas, e é revestido de glória aquele que nada conhecia além da confusão de rosto!” — D’Aubigné.
E ao mesmo tempo em que ensinava pertencer unicamente a Deus a glória da salvação, declarava também que pertence ao homem o dever de obediência. “Se és membro da igreja de Cristo”, dizia ele, “és membro de Seu corpo; se és de Seu corpo, então estás cheio da natureza divina. ... Oh! se tão-somente pudessem os homens chegar à compreensão deste privilégio, quão pura, casta e santamente viveriam, e quão desprezível considerariam toda a glória deste mundo, quando comparada com a glória interior, glória que o olho carnal não pode ver!” — D’Aubigné.
Houve entre os discípulos de Lefèvre alguns que avidamente lhe ouviam as palavras, e que, muito tempo depois que a voz do mestre silenciasse, deveriam continuar a anunciar a verdade. Um destes foi Guilherme Farel. Filho de pais piedosos e ensinado a aceitar com fé implícita os ensinos da igreja, poderia, com o apóstolo Paulo, ter declarado com respeito a si mesmo: “Conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu.” Atos 26:5. Como devoto romanista, ardia em zelo para destruir a todos os que ousassem opor-se à igreja. “Eu rangia os dentes qual lobo furioso”, declarou ele mais tarde referindo-se a esse período de sua vida, “quando ouvia alguém falar contra o papa.” — Wylie. Fora incansável na adoração dos santos, percorrendo em companhia de Lefèvre as igrejas de Paris, adorando nos altares, e com dádivas adornando os santos relicários. Mas estas observâncias não podiam trazer paz à alma. Fortalecia-se nele a convicção do pecado, a qual todos os atos de penitência que praticava não conseguiam banir. Como se fora voz do Céu, escutou as palavras do reformador: “A salvação é de graça.” “O inocente é condenado, e o criminoso absolvido.” “É unicamente a cruz de Cristo que abre as portas do Céu e fecha as do inferno.” — Wylie.
Farel aceitou alegremente a verdade. Por uma conversão semelhante à de Paulo, tornou do cativeiro da tradição à liberdade dos filhos de Deus. “Em vez de ter o coração assassino de um lobo devorador, voltou tranqüilamente, qual cordeiro manso e inofensivo, tendo o coração de todo desviado do papa, e entregue a Jesus Cristo.” — D’Aubigné.
Enquanto Lefèvre continuava a propagar a luz entre seus discípulos, Farel, tão zeloso na causa de Cristo como fora na do papa, saiu para anunciar a verdade em público. Um dignitário da igreja, o bispo de Meaux, logo depois a ele se uniu. Outros ensinadores, notáveis por sua habilidade e saber, uniram-se à proclamação do evangelho, conquistando adeptos entre todas as classes, desde os lares dos artífices e camponeses até ao palácio real. A irmã de Francisco I, o monarca reinante de então, aceitou a fé reformada. O próprio rei e a rainha-mãe pareceram por algum tempo considerá-la com benevolência, e com grandes esperanças os reformadores aguardaram o futuro em que a França seria ganha para o evangelho.
Suas esperanças, porém, não deveriam realizar-se. Provações e perseguições estavam reservadas aos discípulos de Cristo. Isto, entretanto, foi misericordiosamente velado a seus olhos. Houve um tempo de paz, para que pudessem ganhar forças a fim de enfrentar a tempestade; e a Reforma fez rápidos progressos. O bispo de Meaux trabalhou zelosamente em sua própria diocese para instruir tanto o clero como o povo. Removiam-se padres ignorantes e imorais e, tanto quanto possível, eram substituídos por homens de saber e piedade. O bispo desejava grandemente que seu povo, por si mesmo, tivesse acesso à Palavra de Deus, e isto foi logo cumprido. Lefèvre empreendeu a tradução do Novo Testamento; e, ao mesmo tempo em que a Bíblia alemã de Lutero saía do prelo em Wittenberg, era publicado o Novo Testamento em francês, em Meaux. O bispo não poupou esforços ou gastos a fim de disseminá-la em suas paróquias, e breve os camponeses de Meaux estavam de posse das Santas Escrituras.
O Grande Conflito · Ellen G. White