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Leitura do livro

Atos dos Apóstolos, páginas 237-238

O apóstolo pedia a Filemom, que em vista da conversão de Onésimo, recebesse o arrependido escravo como a seu próprio filho, mostrando-lhe tal afeição que ele escolhesse permanecer com seu senhor de outrora, “não já como servo, antes, mais do que servo, como irmão amado” (Fm 16). Expressava seu desejo de reter Onésimo como alguém que poderia servi-lo em suas prisões, como o próprio Filemom teria feito, todavia, ele não desejava os seus serviços a menos que Filemom de própria vontade libertasse o escravo.

O apóstolo bem conhecia a severidade que os senhores usavam para com os seus escravos, e sabia também que Filemom estava grandemente indignado pela conduta de seu servo. Procurou escrever-lhe de maneira a despertar seus mais profundos e ternos sentimentos como cristão. A conversão de Onésimo o tornara um irmão na fé, e qualquer punição aplicada a seu novo converso seria considerada por Paulo como aplicada a si próprio.

Paulo se propôs voluntariamente assumir o débito de Onésimo para que ao criminoso fosse poupado o sofrimento da punição, e pudesse ele de novo se regozijar nos privilégios que tinha rejeitado. “Se me tens por companheiro”, escreveu a Filemom, “recebe-o como a mim mesmo. E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta. Eu, Paulo, de minha própria mão o escrevi; eu o pagarei” (Fm 17-19).

Quão apropriadamente isto ilustra o amor de Cristo pelo pecador arrependido! O servo que defraudara a seu senhor não tinha com que fazer a restituição. O pecador que tem roubado a Deus de anos de serviço não tem meios de cancelar o débito. Jesus Se interpõe entre o pecador e Deus, dizendo: Eu pagarei o débito. Poupa o pecador; Eu sofrerei em seu lugar.

Depois de oferecer-se para assumir o débito de Onésimo, Paulo recordou a Filemom o quanto ele próprio era devedor ao apóstolo. Devia-lhe seu próprio ser, uma vez que Deus tinha feito Paulo o instrumento de sua conversão. Então, num apelo fervente e terno, suplicou a Filemom que assim como ele havia por sua liberalidade vivificado os santos, também vivificaria o espírito do apóstolo concedendo-lhe esta causa de regozijo. “Escrevi-te”, ele acrescentou, “confiado na tua obediência, sabendo que ainda farás mais do que digo” (Fm 21).

A carta de Paulo a Filemom mostra a influência do evangelho nas relações entre senhores e servos. A escravidão era instituição estabelecida em todo o império romano, e tanto senhores como escravos eram encontrados na maioria das igrejas pelas quais Paulo trabalhou. Nas cidades, onde os escravos eram muitas vezes muito mais numerosos do que a população livre, leis de terrível severidade eram consideradas necessárias para mantê-los em sujeição. Um romano rico possuía não raro centenas de escravos de toda categoria, de todas as nações e de toda habilidade. Com pleno controle sobre a alma e o corpo dessas desajudadas criaturas, podiam infligir-lhes castigo a escolha. Se um deles por vingança ou autodefesa ousasse levantar a mão para seu proprietário, toda a família do ofensor poderia ser cruelmente sacrificada. O mais leve erro, acidente ou descuido eram muitas vezes punidos sem misericórdia.

Alguns senhores, mais humanos que outros, eram mais indulgentes para com seus servos; mas a grande maioria dos ricos e nobres, procedendo sem restrição à luxúria,

paixão e apetite, tornavam seus escravos miseráveis vítimas do capricho e tirania. A tendência de todo o sistema era desesperançadamente degradante.

Não era obra do apóstolo subverter arbitrária ou subitamente a ordem estabelecida da sociedade. Tentar isto seria impedir o sucesso do evangelho. Mas ele ensinava os princípios que atingiam o próprio fundamento da escravatura, os quais, se postos em execução, minariam seguramente todo o sistema. “Onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade”, declarou ele. 2Co 3:17. Quando convertido, o escravo tornava-se membro do corpo de Cristo, e como tal, devia ser amado e tratado como irmão, co-herdeiro com seu senhor das bênçãos de Deus e dos privilégios do evangelho. Por outro lado, os servos deviam cumprir seus deveres, “não servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus” (Ef 6:6).

O cristianismo cria um forte laço de união entre o senhor e o servo, o rei e o súdito, o ministro do evangelho e o degradado pecador que encontrou em Cristo a purificação do pecado. Foram lavados no mesmo sangue, vivificados pelo mesmo Espírito; e são feitos um em Cristo Jesus.

Atos dos Apóstolos · Ellen G. White

Passagem bíblica

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