Cristo A Igreja

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Atos dos Apóstolos, páginas 209-210

homens que, embora contados entre os que tinham o encargo da obra em Jerusalém, tinham insistido em que se adotassem arbitrárias medidas de controle, viram o ministério de Paulo sob nova luz, e ficaram convencidos de que seu próprio procedimento tinha sido errado, que haviam estado escravizados pelas tradições e costumes judaicos, e que a obra do evangelho tinha sido grandemente embaraçada por não haverem reconhecido que o muro de separação entre judeus e gentios tinha sido derribado pela morte de Cristo.

Foi esta uma áurea oportunidade para todos os irmãos dirigentes francamente confessarem que Deus operara por Paulo, e que haviam por vezes errado, permitindo que os boatos dos inimigos despertassem neles inveja e preconceito. Mas em vez de se unirem num esforço a fim de fazer justiça àquele que fora ofendido, deram-lhe um conselho que revelava nutrirem ainda a idéia de que Paulo devesse ser em grande parte responsabilizado pelos preconceitos existentes. Não se puseram nobremente ao lado dele para defendê-lo, esforçando-se por mostrar aos desgostosos irmãos onde eles próprios estiveram errados, mas procuraram criar um compromisso aconselhando-o a seguir um caminho que na opinião deles removeria toda causa de equívoco.

“Bem vês, irmão”, disseram em resposta a seu testemunho, “quantos milhares de judeus há que crêem, e todos são zeladores da lei. E já acerca de ti foram informados de que ensinas todos os judeus que estão entre os gentios a apartarem-se de Moisés, dizendo que não devem circuncidar seus filhos nem andar segundo o costume da lei. Que faremos pois? Em todo o caso é necessário que a multidão se ajunte; porque terão ouvido que já és vindo. Faze pois isto que te dizemos: Temos quatro varões que fizeram voto. Toma estes contigo, e santifica-te com eles, e faze por eles os gastos para que rapem a cabeça, e todos ficarão sabendo que nada há naquilo de que foram informados acerca de ti, mas que também tu mesmo andas guardando a lei. Todavia, quanto aos que crêem dos gentios, já nós havemos escrito, e achado por bem, que nada disto observem; mas que só se guardem do que se sacrifica aos ídolos, e do sangue, e do sufocado e da prostituição” (At 21:20-25).

Os irmãos esperavam que, seguindo Paulo o procedimento sugerido, pudesse contrariar de maneira decisiva as falsas notícias concernentes a ele. Asseguraram-lhe que a decisão do concílio anterior no tocante aos conversos gentios e à lei cerimonial, ainda vigorava. Mas o conselho agora dado não estava em harmonia com aquela decisão. O Espírito de Deus não ratificou esta instrução; foi ela fruto da covardia. Os líderes da igreja em Jerusalém sabiam que por se não conformarem com a lei cerimonial, os cristãos atrairiam sobre si o ódio dos judeus, e se exporiam à perseguição. O Sinédrio estava fazendo o máximo para deter o progresso do evangelho. Por ele foram escolhidos homens para seguirem os apóstolos, especialmente Paulo, e por toda a maneira possível opor-se a sua obra. Se os crentes em Cristo fossem condenados pelo Sinédrio como quebrantadores da lei, seriam levados a sofrer imediata e severa punição como apóstatas da fé judaica.

Muitos dos judeus que haviam aceito o evangelho acariciavam ainda certa deferência pela lei cerimonial, e estavam demasiado dispostos a fazer desavisadas concessões, esperando assim ganhar a confiança de seus concidadãos, remover seus preconceitos e ganhá-los para a fé em Cristo como o Redentor do mundo. Paulo compreendeu que por

todo o tempo em que muitos dos principais membros da igreja em Jerusalém continuassem a manter o preconceito contra ele, procurariam constantemente prejudicar sua influência. Acreditava que se por alguma concessão razoável pudesse ganhá-los para a verdade, removeria um grande obstáculo ao êxito do evangelho em outros lugares. Não se achava, porém, autorizado por Deus para ceder tanto quanto pediam.

Quando pensamos no grande desejo de Paulo em harmonizar-se com seus irmãos, sua bondade para com os fracos na fé, sua reverência pelos apóstolos que haviam estado com Cristo, e por Tiago, o irmão do Senhor, e seu propósito de tornar-se tanto quanto possível tudo para com todos sem sacrificar princípios - quando pensamos em tudo isto, surpreende menos que ele tenha sido constrangido a se desviar do caminho firme e decidido que até aí seguira. Mas em vez de alcançar o objetivo desejado, seus esforços pela conciliação apenas precipitaram a crise, apressaram os sofrimentos que lhe estavam preditos, e resultaram em separá-lo de seus irmãos, privando a igreja de uma de suas mais fortes colunas, e levando a tristeza aos corações cristãos em toda parte.

No dia seguinte Paulo começou a executar o conselho dos anciãos. Os quatro homens que haviam feito o voto de nazireus (Nm 6), cujo termo estava quase cumprido, foram levados por Paulo ao templo, “anunciando serem já cumpridos os dias da purificação; e ficou ali até se oferecer por cada um deles a oferta” (At 21:26). Certos dispendiosos sacrifícios para a purificação ainda deveriam ser oferecidos.

Os que aconselharam Paulo a dar esse passo não haviam considerado bem o grande perigo a que estaria assim exposto. Jerusalém estava nessa época regurgitando de adoradores vindos de muitas terras. Quando, em cumprimento da comissão que lhe fora imposta por Deus, Paulo anunciara o evangelho aos gentios, visitara muitas das maiores cidades do mundo, e era bem conhecido de milhares que, de terras estrangeiras, tinham vindo a Jerusalém para assistir à festa. Entre esses havia homens cujo coração se enchera de amargo ódio contra Paulo; e sua entrada no templo numa tal ocasião pública significava arriscar a vida. Por vários dias entrou e saiu entre os adoradores, aparentemente despercebido; mas antes do fim do tempo especificado, ao estar falando com um sacerdote a respeito dos sacrifícios a serem oferecidos, foi reconhecido por alguns dos judeus da Ásia.

Com fúria de demônios precipitaram-se sobre ele, clamando: “Varões israelitas, acudi; este é o homem que por todas as partes ensina a todos, contra o povo e contra a lei, e contra este lugar.” E como o povo correspondesse ao pedido de auxílio, outra acusação foi acrescentada: “E, demais disto, introduziu também no templo os gregos, e profanou este santo lugar” (At 21:27, 28).

Pela lei judaica era crime punível com a morte entrar uma pessoa incircuncisa nos pátios internos do edifício sagrado. Paulo tinha sido visto na cidade em companhia de Trófimo, um efésio, e conjeturou-se que o houvesse trazido ao templo. Isto ele não fizera; e, sendo ele mesmo judeu, seu ato de entrar no templo não era violação da lei. Mas, embora a acusação fosse inteiramente falsa, serviu para despertar o preconceito popular. E como o clamor se levantasse e fosse levado aos pátios do templo, as multidões ali

Atos dos Apóstolos · Ellen G. White

Passagem bíblica

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