Cristo O Caminho
Plano Encontro 1 Dia 287
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Leitura do livro
O Desejado de Todas as Nações, páginas 464-466
ver se nele se haveria abrigado um pensamento contra seu Mestre. Com a mais dolorosa emoção, um após outro indagou: “Porventura sou eu, Senhor?” Mas Judas guardava silêncio. Em profunda aflição, João indagou por fim: “Senhor, quem é?” E Jesus respondeu: “O que mete comigo a mão no prato, esse Me há de trair. Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dEle está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! bom seria para esse homem se não houvera nascido”. Mateus 26:21-24. Os discípulos haviam perscrutado atentamente o rosto uns dos outros, enquanto indagavam: “Porventura sou eu, Senhor?” E depois o silêncio de Judas atraiu para ele todos os olhares. Por entre a confusão de perguntas e expressões de espanto, Judas não ouvira as palavras de Jesus em resposta à pergunta de João. Mas então, para fugir à investigação dos discípulos, perguntou, como eles haviam feito: “Porventura sou eu, Rabi?” Jesus respondeu solenemente: “Tu o disseste”. Mateus 26:25.
Surpreendido e confuso ao ser exposto seu desígnio, Judas ergueu-se, apressado, para deixar a sala. “Disse pois Jesus: O que fazes, fá-lo depressa. [...] E tendo Judas tomado o bocado, saiu logo. E era já noite”. João 13:27, 30. Noite se fez para o traidor ao sair ele da presença de Cristo, para as trevas exteriores.
Até dar esse passo, Judas não passara os limites da possibilidade de arrependimento. Mas quando saiu da presença de seu Senhor e de seus condiscípulos, fora tomada a decisão final. Ultrapassara os termos.
Admirável fora a longanimidade de Jesus no trato para com essa alma tentada. Coisa alguma que pudesse salvar Judas, deixara de ser feita. Depois de ele haver por duas vezes tratado entregar seu Senhor, deu-lhe ainda Jesus oportunidade de arrependimento. Lendo o secreto intento do coração traidor, Cristo lhe deu a última, final prova de Sua divindade. Isto foi para o falso discípulo a última chamada ao arrependimento. Não se poupou nenhum apelo que o coração divino-humano de Cristo pudesse fazer. As ondas de misericórdia, repelidas pelo obstinado orgulho, volviam em mais poderoso volume de subjugante amor. Mas se bem que surpreendido e alarmado ante a descoberta de sua culpa, Judas apenas se tornou mais determinado. Da ceia sacramental saiu para completar sua obra de traição.
Ao proferir o ai sobre Judas, Cristo tinha também um desígnio misericordioso para com Seus discípulos. Deu-lhes assim a suprema demonstração de Sua messianidade. “Desde agora vo-lo digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer, acrediteis que Eu Sou”. João 13:19. Houvesse Jesus permanecido em silêncio, em aparente ignorância do que Lhe havia de sobrevir, os discípulos teriam podido pensar que seu Mestre não possuía divina previsão, e se teriam surpreendido, ficando entregues às mãos da turba assassina. Um ano antes Jesus dissera aos discípulos que Ele escolhera doze, e que um era diabo. Agora, as palavras a Judas, mostrando que sua traição era plenamente conhecida por seu Mestre, fortaleceria a fé dos verdadeiros seguidores de
Cristo durante Sua humilhação. E quando Judas chegasse ao seu terrível fim, lembrar-se-iam do ai que Jesus proferira sobre o traidor.
E o Salvador tinha ainda outro intuito. Não privara de Seu ministério àquele que sabia ser um traidor. Os discípulos não haviam entendido Suas palavras quando dissera, no lava-pés: “Vós estais limpos, mas não todos” (João 13:10), nem mesmo quando, à mesa, declarara: “O que come o pão comigo, levantou contra Mim o seu calcanhar”. João 13:11, 18. Mais tarde, porém, quando o sentido disso ficasse claro, eles teriam motivo para considerar a paciência e misericórdia de Deus para com o que mais gravemente pecara.
Se bem que Jesus conhecesse Judas desde o princípio, lavou-lhe os pés. E o traidor teve o privilégio de unir-se com Cristo na participação do sacramento. Um longânimo Salvador empregou todo incentivo para o pecador O receber, arrepender-se e ser purificado da contaminação do pecado. Esse exemplo nos é dado a nós. Quando supomos que alguém está em erro e pecado, não nos devemos apartar dele. Não devemos, por nenhuma indiferente separação deixá-lo presa da tentação, ou empurrá-lo para o terreno de Satanás. Esse não é método de Cristo. Foi porque os discípulos estavam em erro e falta que Ele lhes lavou os pés, e todos, com exceção de um dos doze, foram assim levados ao arrependimento.
O exemplo de Cristo proíbe exclusão da ceia do Senhor. Verdade é que o pecado aberto exclui o culpado. Isto ensina plenamente o Espírito Santo. 1 Coríntios 5:11. Além disso, porém, ninguém deve julgar. Deus não deixou aos homens dizer quem se apresentará nessas ocasiões. Pois quem pode ler o coração? Quem é capaz de distinguir o joio do trigo? “Examine-se pois o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice.” Pois “qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor”. “Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor”. 1 Coríntios 11:28, 27, 29.
Quando os crentes se reúnem para celebrar as ordenanças, acham-se presentes mensageiros invisíveis aos olhos humanos. Talvez haja um Judas no grupo, e se assim for, mensageiros do príncipe das trevas ali estão, pois acompanham a todo que recusa ser regido pelo Espírito Santo. Anjos celestes também ali se encontram. Esses invisíveis visitantes se acham presentes em toda ocasião como essa. Podem entrar pessoas que não são, no íntimo, servos da verdade e da santidade, mas que desejem tomar parte no serviço. Não devem ser proibidas. Acham-se ali testemunhas que estavam presentes quando Jesus lavou os pés dos discípulos e de Judas. Olhos mais que humanos contemplam a cena.
Por Seu Santo Espírito, Cristo ali está para pôr o selo a Sua ordenança. Está ali para convencer e abrandar o coração. Nem um olhar, nem um pensamento de arrependimento escapa a Sua observação. Pelo coração contrito, quebrantado
espera Ele. Tudo está preparado para a recepção daquela alma. Aquele que lavou os pés de Judas, anseia lavar todo coração da mancha do pecado.
Ninguém deve se excluir da comunhão por estar presente, talvez, alguém que seja indigno. Todo discípulo é chamado a participar publicamente, e dar assim testemunho de que aceita a Cristo como seu Salvador pessoal. É nessas ocasiões, indicadas por Ele mesmo, que Cristo Se encontra com Seu povo, e os revigora por Sua presença. Corações e mãos indignos podem mesmo dirigir a ordenança; todavia Cristo ali Se encontra para ministrar a Seus filhos. Todos quantos ali chegam com a fé baseada nEle, serão grandemente abençoados. Todos quantos negligenciam esses períodos de divino privilégio, sofrerão prejuízo. Deles se poderia quase dizer: “Nem todos estais limpos”. João 13:11.
Participando com os discípulos do pão e do vinho, Cristo Se empenhou para com eles, como seu Redentor. Confiou-lhes o novo concerto, pelo qual todos os que O recebem se tornam filhos de Deus, e co-herdeiros de Cristo. Por esse concerto pertencia-lhes toda bênção que o Céu podia conceder para esta vida e a futura. Esse ato de concerto devia ser ratificado com o sangue de Cristo. E a ministração do sacramento havia de conservar diante dos discípulos o infinito sacrifício feito por cada um deles individualmente, como parte do grande todo da caída humanidade.
Mas o momento da comunhão não deve ser um período de tristeza. Não é esse o seu desígnio. Ao reunirem-se os discípulos do Senhor em torno de Sua mesa, não devem lembrar e lamentar suas deficiências. Não se devem demorar em sua passada vida religiosa, seja ela de molde a elevar ou a deprimir. Não tragam à memória as diferenças existentes entre si e seus irmãos. A cerimônia preparatória abrangeu tudo isso. O exame próprio, a confissão do pecado, a reconciliação dos desentendimentos, tudo já foi feito. Agora, chegam para se encontrar com Cristo. Não devem permanecer à sombra da cruz, mas à sua luz salvadora. Abram a alma aos brilhantes raios do Sol da Justiça. Corações limpos pelo preciosíssimo sangue de Cristo, na plena consciência de Sua presença, se bem que invisível, devem-Lhe ouvir as palavras: “Deixo-vos a paz, a Minha paz vos dou: não vo-la dou como o mundo a dá”. João 14:27.
Nosso Senhor diz: Sob a convicção do pecado, lembrai-vos de que morri por vós. Quando opressos, perseguidos e aflitos, por Minha causa e a do evangelho, lembrai-vos de Meu amor, tão grande que por vós dei a Minha vida. Quando vossos deveres vos parecem duros e severos, e demasiado pesados os vossos encargos, lembrai-vos de que por amor de vós suportei a cruz, desprezando a vergonha. Quando vosso coração recua ante a dolorosa prova, lembrai-vos de que vosso Redentor vive para interceder por vós.
A santa ceia aponta à segunda vinda de Cristo. Foi destinada a conservar viva essa esperança na mente dos discípulos. Sempre que se
O Desejado de Todas as Nações · Ellen G. White