Cristo Nossa Redenção

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Patriarcas e Profetas, páginas 141-143

violência. No seu secreto conselho não entre minha alma, com a sua congregação minha glória não se ajunte. [...] Maldito seja o seu furor, pois era forte, e a sua ira, pois era dura”. Gênesis 49:5-7.

Jacó entendeu que havia motivo para uma profunda humilhação. Crueldade e falsidade se manifestaram no caráter de seus filhos. Havia deuses falsos no acampamento, e a idolatria tinha até certo ponto ganho terreno mesmo em sua casa. Se o Senhor os tratasse de acordo com seus méritos, não os deixaria à vingança das nações circunvizinhas?

Enquanto Jacó estava assim prostrado com a angústia, o Senhor ordenou-lhe que viajasse para o sul, a Betel. A lembrança deste lugar recordava ao patriarca não somente a sua visão dos anjos, e as misericordiosas promessas de Deus, mas também o voto que ali fizera, de que o Senhor deveria ser o seu Deus. Decidiu que antes de ir a esse lugar sagrado, sua casa deveria estar livre da contaminação da idolatria. Deu, portanto, instruções a todos no acampamento: “Tirai os deuses estranhos, que há no meio de vós, e purificai-vos, e mudai os vossos vestidos. E levantemo-nos, e subamos a Betel; e ali farei um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia, e que foi comigo no caminho que tenho andado”. Gênesis 35:2, 3.

Com profunda emoção Jacó repetiu a história de sua primeira visita a Betel, quando deixou a tenda de seu pai como um errante solitário, fugindo para salvar a vida, e como o Senhor lhe apareceu na visão noturna. Revendo ele o trato maravilhoso de Deus para consigo, seu próprio coração se enterneceu, seus filhos também foram tocados por um poder que os constrangia; ele lançara mão do meio mais eficaz para os preparar a fim de tomarem parte no culto de Deus quando chegassem a Betel. “Então deram a Jacó todos os deuses estranhos, que tinham em suas mãos, e as arrecadas que estavam em suas orelhas; e Jacó os escondeu debaixo do carvalho que está junto a Siquém”. Gênesis 35:4.

Deus fizera com que um temor caísse sobre os habitantes da terra, de modo que não fizessem tentativa alguma para vingarem o morticínio de Siquém. Os viajantes chegaram a Betel sem serem molestados. Ali o Senhor apareceu de novo a Jacó, e renovou-lhe a promessa do concerto. “E Jacó pôs uma coluna no lugar onde falara com Ele, uma coluna de pedra”. Gênesis 35:14.

Em Betel, Jacó veio a chorar a perda de uma pessoa que durante muito tempo fora um membro honrado na família de seu pai — Débora, a ama de Rebeca, que havia acompanhado a sua senhora, da Mesopotâmia à terra de Canaã. A presença dessa mulher idosa fora para Jacó um laço precioso que o ligava à sua vida primitiva, e especialmente à mãe cujo amor para com ele havia sido tão forte e terno. Débora foi sepultada com expressões de tão grande tristeza que o carvalho, sob o qual sua sepultura foi feita, foi chamado “carvalho de pranto”. Não deveria passar despercebido que a memória de sua vida de fiel serviço, e do pranto por esta amiga da casa, foi tida por digna de ser preservada na Palavra de Deus.

De Betel havia apenas dois dias de viagem para Hebrom; mas esta viagem trouxe a Jacó uma severa dor pela morte de Raquel. Duas vezes o serviço de sete anos prestara ele por amor a ela, e seu amor tornara leve o trabalho. Quão profundo e constante foi aquele amor, revelou-se quando, muito mais tarde, achando-se Jacó no Egito, no leito, próximo de sua morte, José veio visitar o pai, e o idoso patriarca, lançando um olhar à sua vida passada, disse: “Vindo pois eu de Padã, me morreu Raquel na terra de Canaã, no caminho, quando ainda ficava um pequeno espaço de terra para vir a Efrata; e eu a sepultei ali, no caminho de Efrata”. Gênesis 48:7. Na história de sua longa e trabalhosa vida, em relação à sua família, unicamente a perda de Raquel foi lembrada.

Antes de sua morte, Raquel deu à luz um segundo filho. Com o último alento deu ela à criança o nome de Benoni, “filho de minha dor”. Mas seu pai chamou-o Benjamim, “filho da destra”, ou “minha força”. Raquel foi sepultada onde morreu, e uma coluna foi erguida no local para perpetuar sua memória.

No caminho para Efrata, outro crime tenebroso manchou a família de Jacó, fazendo com que a Rúben, o filho primogênito, fossem negados os privilégios e honras da primogenitura.

Finalmente Jacó chegou ao fim de sua viagem, “a seu pai Isaque, a Manre, [...] (que é Hebrom), onde peregrinaram Abraão e Isaque”. Ali ficou ele durante os anos finais da vida de seu pai. A Isaque, enfermo e cego, as bondosas atenções desse filho havia tanto tempo ausente, foram um conforto durante anos de solidão e privação de seus entes queridos.

Jacó e Esaú encontraram-se junto ao leito de morte de seu pai. Uma ocasião o irmão mais velho olhara antecipadamente para este acontecimento como uma oportunidade para vingança; seus sentimentos, porém, haviam-se mudado grandemente desde então. E Jacó, satisfeito com as bênçãos espirituais da primogenitura, resignou ao irmão mais velho a herança da riqueza de seu pai — a única herança que Esaú buscava ou apreciava. Não mais eram separados pela inveja ou ódio; todavia apartaram-se, mudando-se Esaú para o Monte Seir. Deus, que é rico em bênçãos, concedera a Jacó riquezas seculares, em acréscimo ao bem mais elevado que ele procurara. Os bens dos dois irmãos eram muitos “para habitarem juntos; e a terra de suas peregrinações não os podia sustentar por causa do seu gado”. Gênesis 36:7. Esta separação estava de acordo com o propósito divino relativo a Jacó. Desde que os dois irmãos diferiam tão grandemente com relação à fé religiosa, era melhor que morassem separados.

Esaú e Jacó tinham sido instruídos de modo semelhante no conhecimento de Deus, e ambos estavam em liberdade para andar em Seus mandamentos e receber Seu favor; porém, não preferiram ambos fazer isto. Os dois irmãos tinham andado em caminhos diferentes, e suas veredas continuariam a divergir mais e mais uma da outra.

Não houve uma preferência arbitrária da parte de Deus, pela qual ficassem excluídas de Esaú as bênçãos da salvação. Os dons de Sua graça por Cristo são gratuitos a todos. Não há eleição senão a própria, pela qual alguém possa perecer. Deus estabeleceu em Sua Palavra as condições pelas quais todos são candidatos à vida eterna: obediência aos Seus mandamentos, pela fé em Cristo. Deus elegeu um caráter de acordo com Sua lei, e qualquer que atinja a norma que Ele exige, terá entrada no reino de glória. O próprio Cristo diz: “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida”. João 3:36. “Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de Meu Pai, que está nos Céus”. Mateus 7:21. E no Apocalipse Ele declara: “Bem-aventurados aqueles que guardam os Seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas”. Apocalipse 22:14. Quanto ao que respeita à salvação final do homem, esta é a única eleição referida na Palavra de Deus.

Eleita é toda alma que opera a sua própria salvação com temor e tremor. É eleito aquele que cingir a armadura, e combater o bom combate da fé. É eleito quem vigiar e orar, quem examinar as Escrituras, e fugir da tentação. Eleito é aquele que continuamente tiver fé, e que for obediente a toda a palavra que sai da boca de Deus. As providências tomadas para a redenção, são franqueadas a todos; os resultados da redenção serão desfrutados por aqueles que satisfizeram as condições.

Esaú havia desprezado as bênçãos do concerto. Dera mais valor aos bens temporais do que aos espirituais, e recebera o que desejava. Foi pela sua própria e deliberada escolha que se separou do povo de Deus. Jacó escolhera a herança da fé. Esforçara-se por obtê-la pela astúcia, traição e falsidade; Deus, porém, permitira que seu pecado operasse a correção ao mesmo. Todavia, durante toda a amarga experiência de seus últimos anos, Jacó nunca se afastou de seu intuito nem renunciou a sua preferência. Aprendera que, recorrendo à habilidade e astúcia humana, para conseguir a bênção, estivera a guerrear contra Deus. Como homem diferente, saíra Jacó daquela noite de luta ao lado do Jaboque. Desarraigara-se a confiança própria. Dali em diante não mais se viu aquele primitivo artifício. Em lugar da astúcia e engano, sua vida assinalou-se pela simplicidade e verdade. Aprendera a lição de confiança singela no Braço todo-poderoso; e por entre provações e aflição curvava-se em humilde submissão à vontade de Deus. Os elementos inferiores de seu caráter foram consumidos na fornalha de fogo, o verdadeiro ouro foi refinado, até que a fé de Abraão e de Isaque apareceu aclarada em Jacó.

O pecado de Jacó e o séquito de acontecimentos que determinou, não deixaram de exercer influência para o mal, influência esta que revelou seu amargo fruto no caráter e vida de seus filhos. Chegando esses filhos à virilidade, desenvolveram graves defeitos. Os resultados da poligamia

Patriarcas e Profetas · Ellen G. White

Passagem bíblica

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