Cristo Nossa Redenção
Plano Encontro 3 Dia 59
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Leitura do livro
Patriarcas e Profetas, páginas 123-125
herança que o próprio Deus prometera a seus pais. Todo o seu interesse estava no presente. Estava pronto para sacrificar as coisas celestes pelas terrestres, para trocar um bem futuro por uma satisfação momentânea. “Assim desprezou Esaú a sua primogenitura”. Gênesis 25:34. Dispondo dela, experimentou uma sensação de alívio. Agora seu caminho estava desimpedido; podia fazer como quisesse. Por este prazer desenfreado, erroneamente chamado liberdade, quantos ainda estão a vender o seu direito de primogenitura a uma herança pura e incontaminada, eterna, nos Céus!
Sempre sujeito às meras aparências e atrações terrenas, Esaú tomou duas mulheres das filhas de Hete. Eram adoradoras de deuses falsos, e sua idolatria acarretava uma dor amargurada para Isaque e Rebeca. Esaú tinha violado uma das condições do concerto, que proibia o casamento misto entre o povo escolhido e os gentios; Isaque, todavia, ainda estava inabalável em sua intenção de conferir-lhe a primogenitura. O raciocínio de Rebeca, o desejo veemente de Jacó pela bênção, e a indiferença de Esaú pelas obrigações da mesma bênção, não tiveram o efeito de modificar o intuito do pai.
Passaram-se anos, até que Isaque, velho e cego, e esperando logo morrer, resolveu não mais demorar a concessão da bênção a seu filho mais velho. Mas, sabendo da oposição de Rebeca e Jacó, decidiu-se a realizar a solene cerimônia em segredo. De acordo com o costume de fazer um banquete em tais ocasiões, o patriarca deu ordem a Esaú: “Sai ao campo, e apanha para mim alguma caça, e faze-me um guisado saboroso, [...] para que minha alma te abençoe, antes que morra”. Gênesis 27:3, 4.
Rebeca adivinhou o seu propósito. Ela estava certa de que isto era contrário ao que Deus revelara como Sua vontade. Isaque estava no perigo de incorrer no desagrado divino, e de privar seu filho mais moço da posição para a qual Deus o chamara. Em vão, ela tentou argumentar com Isaque; e decidiu recorrer à sutileza.
Mal partira Esaú em sua incumbência, Rebeca entregou-se à realização de seu intuito. Contou a Jacó o que acontecera, insistindo na necessidade de ação imediata para impedir a concessão da bênção, de maneira final e irrevogável, a Esaú. E afirmou a seu filho que, se seguisse suas instruções, poderia obtê-la, conforme Deus prometera. Jacó não consentiu facilmente no plano que ela propunha. O pensamento de enganar a seu pai causava-lhe grande angústia. Sentia que tal pecado traria maldição em vez de bênção. Mas seus escrúpulos foram vencidos, e começou a pôr em execução as sugestões de sua mãe. Não era sua intenção proferir uma falsidade direta; mas, uma vez na presença de seu pai, pareceu-lhe ter ido demasiado longe para voltar, e obteve pela fraude a cobiçada bênção.
Jacó e Rebeca foram bem-sucedidos em seu propósito, mas ganharam apenas inquietações e tristeza por seu engano. Deus declarara que Jacó receberia a primogenitura, e Sua palavra ter-se-ia cumprido ao tempo que Lhe aprouvesse, se tivessem pela fé esperado por Ele a fim de operar em
favor deles. Mas, semelhantes a muitos que hoje professam ser filhos de Deus, não estiveram dispostos a deixar esta questão em Suas mãos. Rebeca arrependera-se amargamente do mau conselho que dera a seu filho; tal fora o meio de separá-lo dela, e nunca mais lhe viu o rosto. Desde a hora em que recebeu a primogenitura, Jacó sentiu sobre si o peso da condenação própria. Tinha pecado contra o pai, o irmão, a própria alma, e contra Deus. Em uma rápida hora, efetuara uma ação para o arrependimento de uma vida. Vívida se achava esta cena diante dele nos anos posteriores, quando o procedimento ímpio de seus próprios filhos lhe oprimia a alma.
Apenas saíra Jacó da tenda de seu pai, entrou Esaú. Posto que ele houvesse vendido sua primogenitura, e confirmado esta transferência por meio de um juramento solene, estava agora resolvido a obter as bênçãos da mesma, sem tomar em consideração o direito de seu irmão. Com a primogenitura espiritual estava ligada a temporal, a qual lhe proporcionaria a chefia da família, e a posse de uma porção da riqueza de seu pai. Tais eram as bênçãos a que ele dava apreço. “Levanta-te, meu pai, e come da caça de teu filho”, disse ele, “para que me abençoe a tua alma”. Gênesis 27:19.
A tremer de espanto e angústia, o velho pai cego soube do engano que havia sido praticado contra ele. Suas esperanças, prolongada e ternamente acalentadas, tinham-se frustrado, e sentiu profundamente o desapontamento que deveria sobrevir a seu filho mais velho. Contudo, subitamente passou-lhe pela mente a convicção de que fora a providência de Deus que frustrara seu propósito e fazendo acontecer o que ele havia resolvido impedir. Lembrou-se das palavras do anjo a Rebeca, e, apesar do pecado de que Jacó era agora culpado, viu nele o que em melhores condições estava para cumprir os propósitos de Deus. Enquanto as palavras de bênçãos estavam em seus lábios, havia ele sentido sobre si o Espírito de inspiração; e agora, conhecendo todas as circunstâncias, ratificou a bênção involuntariamente pronunciada sobre Jacó: “Abençoei-o; também será bendito”. Gênesis 27:33.
Esaú havia tido em pouca conta a bênção enquanto esta parecia ao seu alcance, mas desejava possuí-la agora que a mesma se havia dele retirado para sempre. Toda a força de sua natureza impulsiva e apaixonada despertou-se, e sua dor e raiva foram terríveis. Clamou com um brado excessivamente amargo: “Abençoa-me também a mim, meu pai.” “Não reservaste pois para mim bênção alguma?” Gênesis 27:38, 36. Mas a promessa dada não devia ser revogada. A primogenitura que ele tão descuidadamente dera em troca, não a poderia readquirir agora. “Por um manjar”, ou seja, por uma satisfação momentânea do apetite, o qual nunca fora restringido, Esaú vendeu sua herança; mas, quando viu sua loucura, era demasiado tarde para recuperar a bênção. “Não achou lugar de arrependimento, ainda que com lágrimas o buscou”. Hebreus 12:16, 17. A Esaú não foi excluído o privilégio de buscar o favor de Deus pelo arrependimento; mas não podia encontrar meios para recuperar a primogenitura.
Sua mágoa não se originava da convicção do pecado; não desejava reconciliar-se com Deus. Entristecia-se por causa dos resultados de seu pecado, mas não pelo próprio pecado.
Devido à sua indiferença para com as bênçãos e preceitos divinos, Esaú é nas Escrituras chamado “profano”. Hebreus 12:16. Representa aqueles que têm em pouco valor a redenção a eles comprada por Cristo, e estão prontos para sacrificar sua herança no Céu por amor às coisas perecíveis da Terra. Multidões vivem para o presente, sem qualquer pensamento ou cuidado pelo futuro. Como Esaú, clamam: “Comamos e bebamos que amanhã morreremos”. 1 Coríntios 15:32. São governados pela inclinação; e de preferência a praticar a abnegação renunciam às mais valiosas considerações. No caso em que uma destas coisas deva ser abandonada — ou a satisfação de um apetite depravado, ou as bênçãos celestiais prometidas somente ao abnegado e temente a Deus — prevalecem as exigências do apetite, e Deus e o Céu são virtualmente desprezados. Quantos, mesmo dos professos cristãos, aderem a certas satisfações que são prejudiciais à saúde, e que embotam as sensibilidades da alma! Quando se apresenta o dever de se purificarem de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus, escandalizam-se. Vêem que não podem reter estas nocivas satisfações e ao mesmo tempo alcançar o Céu; e concluem que, visto ser o caminho da vida eterna tão estreito, não mais andarão nele.
Multidões estão a vender seu direito de primogenitura pela satisfação sensual. A saúde é sacrificada, as faculdades mentais enfraquecidas, e perdido o Céu; e tudo por um simples prazer temporário — condescendência que debilita e avilta ao mesmo tempo. Assim como Esaú despertou-se para ver a loucura de sua permuta precipitada quando era demasiado tarde para recuperar sua perda, assim será no dia de Deus para aqueles que houverem trocado sua herança no Céu pela satisfação egoísta.
Patriarcas e Profetas · Ellen G. White