Cristo Nossa Redenção

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Patriarcas e Profetas, páginas 119-123

entretidas naquela ímpia cidade, tê-lo-iam levado a apostatar de Deus, se não tivesse sido a instrução fiel que cedo recebera de Abraão. O casamento de Ló e sua escolha de Sodoma como residência, foram os primeiros elos em uma cadeia de acontecimentos repletos de males para o mundo durante muitas gerações.

Pessoa alguma que tema a Deus, pode, sem perigo, ligar-se a outra que O não tema. “Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?” Amós 3:3. A felicidade e prosperidade da relação matrimonial depende da unidade dos cônjuges; mas entre o crente e o incrédulo há uma diferença radical de gostos, inclinações e propósitos. Estão a servir dois senhores, entre os quais não pode haver concórdia. Por mais puros e corretos que sejam os princípios de um, a influência de um companheiro ou companheira incrédula terá uma tendência para afastar de Deus.

A pessoa que entrou para a relação matrimonial quando ainda não convertida, coloca-se pela sua conversão sob uma obrigação maior de ser fiel ao consorte, por mais que difiram com respeito à fé religiosa; todavia, as reivindicações de Deus devem ser postas acima de toda a relação terrena, mesmo que provas e perseguições possam ser o resultado. Com espírito de amor e mansidão, esta fidelidade pode ter influência no sentido de ganhar o descrente. Mas o casamento de cristãos com ímpios é proibido na Bíblia. A instrução do Senhor é: “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis”. 2 Coríntios 6:14.

Isaque foi altamente honrado por Deus, sendo feito herdeiro das promessas pelas quais o mundo deveria ser bendito; entretanto, aos quarenta anos de idade, sujeitou-se ao ensino de seu pai ao designar seu servo experimentado e temente a Deus, a fim de escolher-lhe uma esposa. E o resultado daquele casamento, conforme é apresentado nas Escrituras, é um quadro terno e belo, de felicidade doméstica: “E Isaque trouxe-a para a tenda de sua mãe Sara, e tomou a Rebeca, e foi-lhe por mulher, e amou-a. Assim, Isaque foi consolado depois da morte de sua mãe”. Gênesis 24:67.

Que contraste entre o procedimento de Isaque e o que é praticado pelos jovens de nossos tempos, mesmo entre os professos cristãos! Os jovens mui freqüentemente acham que a entrega de suas afeições é uma questão na qual o eu apenas deveria ser consultado, questão esta que nem Deus nem os pais de qualquer modo deveriam dirigir. Muito antes de atingirem a idade de homens ou mulheres feitos, julgam-se competentes para fazer sua escolha, sem o auxílio de seus pais. Alguns anos de vida conjugal são usualmente bastantes para mostrar-lhes seu erro, mas muitas vezes demasiado tarde para impedir seus resultados funestos. Pela mesma falta de prudência e domínio próprio que determinaram a escolha precipitada, dá-se ocasião a que o mal se agrave, até que a relação matrimonial se torne um jugo mortificante. Muitos assim fizeram naufragar sua felicidade nesta vida, e sua esperança da vida futura.

Se há um assunto que deve ser cuidadosamente considerado, e no qual se deve procurar o conselho de pessoas mais velhas e experientes, é o do casamento; se a Bíblia já foi necessária como conselheira, se a direção divina em algum tempo deveria ser procurada em oração, é antes de dar um passo que liga pessoas entre si para toda a vida. Os pais nunca devem perder de vista sua responsabilidade pela felicidade futura de seus filhos. O respeito de Isaque aos conselhos de seu pai foi o resultado do ensino que o habilitou a amar uma vida de obediência. Ao mesmo tempo em que Abraão exigia de seus filhos que respeitassem a autoridade paterna, sua vida diária testificava que essa autoridade não era um domínio egoísta ou arbitrário, mas que se fundava no amor, e tinha em vista o bem-estar e felicidade deles.

Pais e mães devem sentir que se lhes impõe o dever de guiar as afeições dos jovens, a fim de que possam ser colocadas naqueles que hajam de ser companheiros convenientes. Devem sentir como seu dever, pelo seu próprio ensino e exemplo, com a graça auxiliadora de Deus, modelar de tal maneira o caráter de seus filhos desde os seus mais tenros anos, que sejam puros e nobres, e sejam atraídos para o bem e para o verdadeiro. Os semelhantes atraem os semelhantes; os semelhantes apreciam os semelhantes. Que o amor pela verdade, pureza e bondade seja cedo implantado na alma, e o jovem procurará a companhia daqueles que possuem essas características.

Procurem os pais, em seu próprio caráter e vida doméstica, exemplificar o amor e a beneficência do Pai celestial. Que no lar prevaleça uma atmosfera prazenteira. Isto será de muito mais valor para vossos filhos do que terras ou dinheiro. Que o amor doméstico se conserve vivo em seus corações, para que possam volver o olhar ao lar de sua meninice como um lugar de paz e felicidade, abaixo do Céu. Os membros da família não têm todos o mesmo cunho de caráter, e haverá freqüentes ocasiões para o exercício da paciência e longanimidade; mas, pelo amor e disciplina própria, todos poderão estar ligados na mais íntima união.

O verdadeiro amor é um princípio elevado e santo, inteiramente diferente em seu caráter daquele amor que se desperta por um impulso e que subitamente morre quando severamente provado. É pela fidelidade para com o dever na casa paterna que os jovens devem preparar-se para os próprios lares. Pratiquem eles aqui a abnegação, e manifestem bondade, cortesia e simpatia cristã. Desse modo o amor será mantido cálido em seu coração, e aquele que parte de um lar assim, para se colocar como chefe da própria família, saberá como promover a felicidade daquela que escolheu para companheira de toda a vida. O casamento, em vez de ser o final do amor, será tão-somente seu começo.

Capítulo 16 — Jacó e Esaú

Este capítulo é baseado em Gênesis 25:19-24; 27.

Jacó e Esaú, os filhos gêmeos de Isaque, apresentam um notável contraste, tanto no caráter como na vida. Esta dessemelhança foi predita pelo anjo de Deus antes de seu nascimento. Quando em resposta à aflita oração de Rebeca, Ele declarou que dois filhos lhe seriam dados, revelou-lhe a história futura dos mesmos, de que cada um se tornaria a cabeça de uma poderosa nação, mas que um seria maior do que o outro, e que o mais moço teria preeminência.

Esaú cresceu amando a satisfação própria, e centralizando todo o seu interesse no presente. Não tolerando restrições, deleitava-se na liberdade selvagem da caça, e cedo escolhera a vida de caçador. Contudo, era o favorito do pai. O pastor silencioso e amante da paz era atraído pela ousadia e vigor desse filho mais velho, que destemidamente percorria montanhas e desertos, voltando para casa com caça para seu pai, e com narrativas sensacionais de sua vida aventurosa. Jacó, ponderado, diligente e cuidadoso, pensando sempre mais no futuro do que no presente, contentava-se com permanecer em casa, ocupado no cuidado dos rebanhos e no cultivo do solo. Sua paciente perseverança, economia e previsão eram apreciadas pela mãe. Suas afeições eram profundas e fortes, e suas atenções gentis e incansáveis contribuíam muito mais para a felicidade dela do que o fazia a amabilidade turbulenta e ocasional de Esaú. Para Rebeca, Jacó era o filho mais querido.

As promessas feitas a Abraão e confirmadas a seu filho, eram tidas por Isaque e Rebeca como o grande objetivo de seus desejos e esperanças. Com estas promessas Esaú e Jacó estavam familiarizados. Foram ensinados a considerar a primogenitura como coisa de grande importância, pois que incluía não somente a herança das riquezas terrestres, mas a preeminência espiritual. Aquele que a recebia devia ser o sacerdote de sua família; e na linhagem de sua posteridade viria o Redentor do mundo. De outro lado, havia obrigações que repousavam sobre o possuidor da primogenitura. Aquele que herdasse suas bênçãos devia dedicar a vida ao serviço de Deus. Como Abraão, devia ser obediente aos mandos divinos. Em seu casamento, nas relações familiares, na vida pública, devia consultar a vontade de Deus.

Isaque fez saber a seus filhos esses privilégios e condições, e claramente declarou que Esaú, como o mais velho, era o que tinha direito à primogenitura. Esaú, porém, não tinha amor à devoção nem inclinação

para uma vida religiosa. Os requisitos que acompanhavam a primogenitura espiritual eram para ele uma restrição importuna e mesmo odiosa. A lei de Deus, que era a condição do concerto divino com Abraão, era considerada por Esaú como um jugo de escravidão. Propenso à satisfação própria, nada desejava tanto como a liberdade para fazer conforme lhe agradasse. Para ele, poderio e riquezas, festas e orgias, eram felicidade. Ele se gloriava na liberdade sem restrições de sua vida selvagem e errante. Rebeca lembrava-se das palavras do anjo, e lia com mais clara penetração do que o fazia seu marido, o caráter de seus filhos. Estava convicta de que a herança da promessa divina destinava-se a Jacó. Ela repetia a Isaque as palavras do anjo; mas as afeições do pai centralizavam-se no filho mais velho, e ele era inabalável em seu propósito.

Jacó soubera por sua mãe da indicação divina de que a primogenitura lhe recairia, e encheu-se de um indescritível desejo de obter os privilégios que a mesma conferia. Não era a posse da riqueza de seu pai o que ele desejava ansiosamente; a primogenitura espiritual era o objeto de seu anelo. Ter comunhão com Deus, como fizera o justo Abraão, oferecer o sacrifício expiatório por sua família, ser o pai do povo escolhido, e do Messias prometido, e herdar a posse imortal que estava compreendida nas bênçãos do concerto — eis aí os privilégios e honras que acendiam os seus mais ardentes desejos. Seu espírito estava sempre a penetrar o futuro, e procurava apreender suas bênçãos invisíveis.

Com um anelo secreto escutava tudo que seu pai dizia com relação à primogenitura espiritual; entesourava cuidadosamente o que aprendera de sua mãe. Dia e noite o assunto lhe ocupava os pensamentos, até que se tornou o interesse absorvente de sua vida. Mas, conquanto Jacó assim estimasse as bênçãos eternas mais do que as temporais, não tinha um conhecimento experimental do Deus a quem ele venerava. Seu coração não se havia renovado pela graça divina. Acreditava que a promessa relativa a si não se poderia cumprir enquanto Esaú retivesse os direitos de primogênito, e procurava constantemente descobrir um meio pelo qual pudesse conseguir a bênção que em tão pouca conta era tida por seu irmão, mas que para ele era tão preciosa.

Quando Esaú, um dia, voltando da caça desfalecido e cansado, pediu o alimento que Jacó estava preparando, este, para quem um pensamento era sempre preeminente, aproveitou-se da situação, e ofereceu-se para matar a fome de seu irmão pelo preço da primogenitura. “Eis que estou a ponto de morrer”, exclamou o caçador descuidado e condescendente consigo mesmo, “e para que me servirá logo a primogenitura?” Gênesis 25:32. E por um prato de guisado vermelho desfez-se de sua primogenitura, e confirmou a transação por meio de um juramento. Um pouco de tempo, quando muito, ter-lhe-ia assegurado alimento nas tendas de seu pai; mas para satisfazer o desejo do momento, indiferente fez permuta da gloriosa

herança que o próprio Deus prometera a seus pais. Todo o seu interesse estava no presente. Estava pronto para sacrificar as coisas celestes pelas terrestres, para trocar um bem futuro por uma satisfação momentânea. “Assim desprezou Esaú a sua primogenitura”. Gênesis 25:34. Dispondo dela, experimentou uma sensação de alívio. Agora seu caminho estava desimpedido; podia fazer como quisesse. Por este prazer desenfreado, erroneamente chamado liberdade, quantos ainda estão a vender o seu direito de primogenitura a uma herança pura e incontaminada, eterna, nos Céus!

Sempre sujeito às meras aparências e atrações terrenas, Esaú tomou duas mulheres das filhas de Hete. Eram adoradoras de deuses falsos, e sua idolatria acarretava uma dor amargurada para Isaque e Rebeca. Esaú tinha violado uma das condições do concerto, que proibia o casamento misto entre o povo escolhido e os gentios; Isaque, todavia, ainda estava inabalável em sua intenção de conferir-lhe a primogenitura. O raciocínio de Rebeca, o desejo veemente de Jacó pela bênção, e a indiferença de Esaú pelas obrigações da mesma bênção, não tiveram o efeito de modificar o intuito do pai.

Passaram-se anos, até que Isaque, velho e cego, e esperando logo morrer, resolveu não mais demorar a concessão da bênção a seu filho mais velho. Mas, sabendo da oposição de Rebeca e Jacó, decidiu-se a realizar a solene cerimônia em segredo. De acordo com o costume de fazer um banquete em tais ocasiões, o patriarca deu ordem a Esaú: “Sai ao campo, e apanha para mim alguma caça, e faze-me um guisado saboroso, [...] para que minha alma te abençoe, antes que morra”. Gênesis 27:3, 4.

Rebeca adivinhou o seu propósito. Ela estava certa de que isto era contrário ao que Deus revelara como Sua vontade. Isaque estava no perigo de incorrer no desagrado divino, e de privar seu filho mais moço da posição para a qual Deus o chamara. Em vão, ela tentou argumentar com Isaque; e decidiu recorrer à sutileza.

Mal partira Esaú em sua incumbência, Rebeca entregou-se à realização de seu intuito. Contou a Jacó o que acontecera, insistindo na necessidade de ação imediata para impedir a concessão da bênção, de maneira final e irrevogável, a Esaú. E afirmou a seu filho que, se seguisse suas instruções, poderia obtê-la, conforme Deus prometera. Jacó não consentiu facilmente no plano que ela propunha. O pensamento de enganar a seu pai causava-lhe grande angústia. Sentia que tal pecado traria maldição em vez de bênção. Mas seus escrúpulos foram vencidos, e começou a pôr em execução as sugestões de sua mãe. Não era sua intenção proferir uma falsidade direta; mas, uma vez na presença de seu pai, pareceu-lhe ter ido demasiado longe para voltar, e obteve pela fraude a cobiçada bênção.

Jacó e Rebeca foram bem-sucedidos em seu propósito, mas ganharam apenas inquietações e tristeza por seu engano. Deus declarara que Jacó receberia a primogenitura, e Sua palavra ter-se-ia cumprido ao tempo que Lhe aprouvesse, se tivessem pela fé esperado por Ele a fim de operar em

Patriarcas e Profetas · Ellen G. White

Passagem bíblica

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