Cristo Nossa Redenção
Plano Encontro 3 Dia 47
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Leitura do livro
Patriarcas e Profetas, páginas 99-101
sido perfeita. Mostrara falta de confiança em Deus, ocultando o fato de que Sara era sua esposa, e novamente com o seu casamento com Hagar. Para que atingisse a mais elevada norma, Deus o sujeitou a outra prova, a mais severa que o homem jamais foi chamado a suportar. Em uma visão da noite foi-lhe determinado que se dirigisse à terra de Moriá, e ali oferecesse seu filho em holocausto sobre um monte que lhe seria mostrado.
No tempo em que recebeu esta ordem, havia Abraão atingido a idade de cento e vinte anos. Era considerado como homem idoso, mesmo em sua geração. Em seus anos anteriores fora forte para suportar dificuldades e enfrentar o perigo; mas agora passara o ardor da juventude. Qualquer, no vigor da varonilidade, pode com coragem enfrentar dificuldades e aflições que lhe fariam desfalecer o coração em sua vida posterior, quando os pés estiverem vacilantes a caminhar para a sepultura. Mas Deus guardara Sua última e mais rigorosa prova a Abraão, até que o fardo dos anos fosse pesado sobre ele, e ele almejasse o repouso das ansiedades e trabalhos.
O patriarca estava morando em Berseba, rodeado de prosperidade e honra. Era muito rico, e acatado pelos governadores da Terra como príncipe poderoso. Milhares de ovelhas e cabeças de gado cobriam as planícies que se estendiam para além de seu acampamento. De todos os lados estavam as tendas de seus dependentes, os lares, de centenas de servos fiéis. O filho da promessa havia crescido até à idade adulta ao seu lado. O Céu parecia ter coroado com sua bênção uma vida de sacrifício, ao suportar pacientemente o adiamento das esperanças.
Na obediência da fé, Abraão havia abandonado o país natal: afastara-se dos túmulos de seus pais, e do lar de sua parentela. Vagueara como um estrangeiro na terra de sua herança. Tinha esperado por muito tempo pelo nascimento do herdeiro prometido. Por ordem de Deus despedira seu filho Ismael. E agora, quando o filho que fora desejado durante tanto tempo chegava à varonilidade, e o patriarca parecia poder divisar os frutos de suas esperanças, uma prova maior do que todas as outras estava diante dele.
A ordem foi expressa em palavras que deveriam ter contorcido angustiosamente aquele coração de pai: “Toma agora o teu filho, o teu único filho Isaque, a quem amas, [...] e oferece-o ali em holocausto”. Gênesis 22:2. Isaque era-lhe a luz do lar, a consolação da velhice, e acima de tudo o herdeiro da bênção prometida. A perda de tal filho por desastre, ou moléstia, teria despedaçado o coração do pai extremoso; teria curvado sua encanecida cabeça pela dor; entretanto, foi-lhe ordenado derramar o sangue daquele filho, com sua própria mão. Pareceu-lhe uma terrível impossibilidade.
Satanás estava a postos para sugerir que ele devia estar enganado, pois que a lei divina ordena: “Não matarás” (Êxodo 20:13), e Deus não exigiria o que uma vez proibira. Saindo ao lado de sua tenda, Abraão olhou para o calmo resplendor do céu sem nuvens, e lembrou-se da promessa feita
quase cinqüenta anos antes, de que sua semente seria numerosa como as estrelas. Se esta promessa devia cumprir-se por meio de Isaque, como poderia ele ser morto? Abraão foi tentado a crer que poderia estar iludido. Em sua dúvida e angústia prostrou-se em terra e orou, como nunca antes orara, pedindo alguma confirmação da ordem quanto a dever ele cumprir essa terrível incumbência. Lembrou-se dos anjos enviados para revelar-lhe o propósito de Deus de destruir Sodoma, e que lhe trouxeram a promessa deste mesmo filho Isaque, e foi para o lugar em que várias vezes encontrara os mensageiros celestiais, esperando encontrá-los outra vez, e receber algumas instruções mais; mas nenhum veio em seu socorro. As trevas pareciam envolvê-lo; mas a ordem de Deus estava a soar-lhe aos ouvidos: “Toma agora o teu filho, o teu único filho Isaque, a quem tu amas”. Gênesis 22:2. Aquela ordem devia ser obedecida, e não ousou demorar-se. O dia se aproximava, e ele devia estar a caminho.
Voltando à sua tenda, foi ao lugar em que Isaque, deitado, dormia o sono profundo, calmo, da juventude e inocência. Por um momento o pai olhou para o rosto querido do filho; voltou então a tremer. Foi ao lado de Sara, que também estava a dormir. Deveria despertá-la, para que mais uma vez pudesse abraçar o filho? Deveria falar-lhe do mandado de Deus? Anelava aliviar o coração, falando a ela, e partilhar juntamente com ela desta terrível responsabilidade; mas se conteve pelo temor de que o pudesse impedir. Isaque era a alegria e o orgulho dela; sua vida estava ligada a ele, e o amor de mãe poderia recusar-se ao sacrifício.
Finalmente Abraão chamou o filho, falando-lhe da ordem de oferecer sacrifício em uma montanha distante. Isaque tinha freqüentes vezes ido com o pai a adorar em algum dos vários altares que assinalavam suas peregrinações, e esta chamada não provocou surpresa. Fizeram-se rapidamente os preparativos para a viagem. Preparou-se a lenha, puseram-na sobre o jumento, e com dois servos partiram.
Lado a lado, pai e filho viajavam silenciosamente. O patriarca, ponderando seu cruel segredo, não tinha ânimo para falar. Seus pensamentos estavam naquela mãe ufana e extremosa, e considerava o dia em que sozinho deveria voltar a ela. Bem sabia que a faca lhe cortaria o coração, quando tirasse a vida de seu filho.
Aquele dia — o mais comprido que jamais Abraão experimentara — arrastava-se vagarosamente ao seu termo. Enquanto seu filho e os moços dormiam, passou ele a noite em oração, esperando ainda que algum mensageiro celestial pudesse vir dizer que a prova já era suficiente, que o jovem poderia voltar ileso para sua mãe. Nenhum alívio, porém, lhe veio à alma torturada. Outro longo dia, outra noite de humilhação e oração, enquanto a ordem que o deveria deixar desfilhado lhe repercutia sempre no ouvido. Perto estava Satanás para insinuar dúvidas e incredulidade; mas Abraão resistiu a suas sugestões. Quando estavam a ponto de iniciar
a viagem do terceiro dia, o patriarca, olhando para o Norte, viu o sinal prometido, uma nuvem de glória pairando sobre o Monte Moriá, e compreendeu que a voz que lhe falara era do Céu.
Mesmo agora não murmurou contra Deus, mas fortaleceu a alma pensando nas provas da bondade e fidelidade do Senhor. Este filho fora dado inesperadamente; e não tinha Aquele que conferira a preciosa dádiva o direito de reclamar o que era Seu? Então a fé repetiu a promessa: “Em Isaque será chamada a tua semente” (Gênesis 21:12) — semente numerosa como os grãos de areia na praia. Isaque fora filho de um milagre, e não poderia o poder que lhe dera vida restaurá-lo? Olhando para além daquilo que era visível, Abraão apreendeu a palavra divina, considerando “que Deus era poderoso para até dos mortos o ressuscitar”. Hebreus 11:19.
Todavia, ninguém senão Deus poderia compreender quão grande era o sacrifício do pai, ao entregar seu filho à morte; Abraão não quis que ninguém, a não ser Deus, testemunhasse a cena da separação. Mandou a seus servos que ficassem atrás, dizendo: “Eu e o moço iremos até ali; e, havendo adorado, tornaremos a vós”. Gênesis 22:5-8. A lenha foi posta sobre Isaque, aquele que seria oferecido; o pai tomou a faca e o fogo, e, juntos, subiram para o cume da montanha, considerando o jovem em silêncio de onde deveria vir a oferta, tão longe de apriscos e rebanhos. Finalmente falou: “Meu pai”, “eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” Oh, que prova foi esta! Quanto as carinhosas palavras — “meu pai”, feriram o coração de Abraão! Ele não lhe poderia dizer por enquanto. “Deus proverá para Si o cordeiro para o holocausto, meu filho” (Gênesis 22:8), disse ele.
No lugar indicado construíram o altar, e sobre o mesmo colocaram a lenha. Então, com voz trêmula, Abraão desvendou a seu filho a mensagem divina. Foi com terror e espanto que Isaque soube de sua sorte; mas não opôs resistência. Poderia escapar deste destino, se o houvesse preferido fazer; o ancião, ferido de pesares, exausto com as lutas daqueles três dias terríveis, não poderia ter-se oposto à vontade do vigoroso jovem. Isaque, porém, tinha sido educado desde a meninice a uma obediência pronta e confiante, e, ao ser o propósito de Deus manifesto perante ele, entregou-se com voluntária submissão. Era participante da fé de Abraão, e sentia-se honrado sendo chamado a dar a vida em oferta a Deus. Com ternura procurou aliviar a dor do pai, e auxiliou-lhe as mãos desfalecidas a amarrarem as cordas que o prendiam ao altar.
E agora as últimas palavras de amor são proferidas, as últimas lágrimas derramadas, o último abraço dado. O pai levanta o cutelo para matar o filho, quando o braço subitamente lhe é detido. Um anjo de Deus chama do Céu o patriarca: “Abraão, Abraão!” Ele rapidamente responde: “Eis-me aqui.” E de novo se ouve a voz: “Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não Me negaste o teu filho, o teu único”. Gênesis 22:11-18.
Patriarcas e Profetas · Ellen G. White