Cristo Nossa Redenção
Plano Encontro 3 Dia 308
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Leitura do livro
Patriarcas e Profetas, páginas 483-485
resolveu ir ele próprio, pois que sua atroz inimizade se tornara ingovernável. Decidiu-se a não esperar outra oportunidade para matar a Davi; logo que ele estivesse ao seu alcance tencionava matá-lo com sua própria mão, quaisquer que fossem as conseqüências.
Mas um anjo de Deus encontrou-o no caminho, e tomou domínio dele. O Espírito de Deus continha-o em Seu poder, e ele prosseguiu a dizer orações a Deus, entremeadas de predições e melodias sagradas. Profetizava a respeito do Messias vindouro, como o Redentor do mundo. Quando chegou à casa do profeta em Ramá, tirou as vestes de cima, que indicavam a sua posição social, e todo o dia e toda a noite manteve-se diante de Samuel e seus discípulos, sob a influência do Espírito divino. O povo juntou-se para ver esta cena estranha, e a experiência do rei foi relatada por toda parte. Assim, de novo, perto do final de seu reino, tornou-se um provérbio em Israel que Saul também estava entre os profetas.
Novamente fracassou o perseguidor em seus intuitos. Afirmou a Davi que estava em paz com ele; mas Davi tinha pouca confiança no arrependimento do rei. Aproveitou esta oportunidade para escapar, receoso de que a disposição de ânimo do rei mudasse, como anteriormente. Seu coração estava ferido dentro de si, e anelava ver mais uma vez seu amigo Jônatas. Cônscio de sua inocência, procurou o filho do rei, e fez um apelo muitíssimo tocante. “Que fiz eu?” perguntou ele; “qual é o meu crime? e qual é o meu pecado diante de teu pai, que procura tirar-me a vida?” Jônatas acreditava que seu pai tinha mudado de propósito, e não mais tencionava tirar a vida de Davi. E lhe disse: “Tal não seja; não morrerás. Eis que meu pai não faz coisa nenhuma grande, nem pequena, sem primeiro me dar parte; por que pois meu pai me encobriria este negócio? não é assim.” Jônatas não podia crer que, depois da notável exibição do poder de Deus, seu pai ainda faria mal a Davi, visto que tal ato seria manifesta rebelião contra Deus. Mas Davi não estava convencido. Com grande veemência declarou a Jônatas: “Vive o Senhor, e vive a tua alma, que apenas há um passo entre mim e a morte”. 1 Samuel 20:1, 2.
Por ocasião da lua nova, celebrava-se uma festividade sagrada em Israel. Esta festa ocorreu no dia seguinte ao da entrevista de Davi e Jônatas. Esperava-se que neste festim ambos os moços comparecessem à mesa do rei; mas Davi receou estar presente, e tomaram-se disposições para que ele fosse visitar seus irmãos em Belém. À sua volta devia esconder-se em um campo não longe da sala do banquete, ausentando-se durante três dias da presença do rei; e Jônatas notaria o efeito disto sobre Saul. Se este perguntasse sobre o paradeiro do filho de Jessé, Jônatas devia dizer que ele tinha ido à sua casa a fim de assistir ao sacrifício oferecido pela casa de seu pai. Se nenhuma demonstração de ira fosse dada pelo rei, mas respondesse ele: “Está bem”, não haveria então perigo a Davi em voltar à corte. Mas, se ficasse irado com sua ausência, isto resolveria a questão da fuga de Davi.
No primeiro dia da festa o rei não fez pergunta alguma quanto à ausência de Davi; mas, quando seu lugar se achou vago no segundo dia, perguntou: “Por que não veio o filho de Jessé nem ontem nem hoje a comer pão? E respondeu Jônatas a Saul: Davi me pediu encarecidamente que o deixasse ir a Belém, dizendo: Peço-te que me deixes ir, porquanto a nossa linhagem tem um sacrifício na cidade, e meu irmão mesmo me mandou ir; se pois agora tenho achado graça em teus olhos, peço-te que me deixes partir, para que veja meus irmãos. Por isso não veio à mesa do rei”. 1 Samuel 20:7, 27-29. Quando Saul ouviu estas palavras, sua ira foi indomável. Declarou que, enquanto Davi vivesse, Jônatas não poderia subir ao trono de Israel, e exigiu que imediatamente se mandasse buscar a Davi a fim de que fosse morto. Jônatas de novo intercedeu por seu amigo, rogando: “Por que há de ele morrer? Que tem feito?” Este apelo ao rei apenas o tornou mais satânico em seu furor, e a lança que ele destinava a Davi arremessou-a contra seu filho.
O príncipe ficou magoado e indignado, e deixando a presença do rei, não mais foi conviva no festim. Sua alma estava abatida de tristeza, quando, na ocasião aprazada, compareceu ao local em que Davi saberia das intenções do rei em relação a ele. Caíram ao pescoço um do outro, e choraram amarguradamente. A negra paixão do rei lançava sombra à vida dos jovens, e seu pesar era por demais intenso para que se pudesse exprimir. As últimas palavras de Jônatas caíram aos ouvidos de Davi, ao separarem-se eles para seguirem seus caminhos diferentes: “Vai-te em paz. O que nós temos jurado ambos em nome do Senhor, dizendo: O Senhor seja entre mim e ti, e entre a minha semente e a tua semente, seja perpetuamente”. 1 Samuel 20:32, 42.
O filho do rei voltou a Gibeá, e Davi apressou-se a chegar em Nobe, cidade poucos quilômetros distante, e também pertencente à tribo de Benjamim. O tabernáculo tinha sido levado de Siló a este lugar, e ali ministrava Aimeleque, sumo sacerdote. Davi não sabia para onde fugir em busca de refúgio, a não ser para o servo de Deus. O sacerdote olhou para ele com espanto, ao chegar à pressa, e aparentemente só, com o rosto assinalado pela ansiedade e tristeza. Indagou o que o levava ali. O moço estava com receio constante de ser descoberto, e em sua perplexidade recorreu ao engano. Davi disse ao sacerdote que fora enviado pelo rei com uma incumbência secreta, a qual exigia a máxima diligência. Nisto manifestou falta de fé em Deus, e seu pecado resultou em ocasionar a morte do sumo sacerdote. Tivesse declarado plenamente os fatos, e teria Aimeleque sabido o que fazer para lhe preservar a vida. Deus exige que a veracidade distinga Seu povo, mesmo no maior perigo. Davi pediu ao sacerdote cinco pães. Nada havia senão pão consagrado em poder do homem de Deus; mas Davi conseguiu remover seus escrúpulos e obteve os pães para matar a fome.
Um novo perigo apresentava-se agora. Doegue, o principal do pastores de Saul, que professara a fé dos hebreus, estava agora a pagar seus votos no lugar do culto. À vista deste homem, Davi resolveu arranjar à pressa outro lugar de refúgio, e obter alguma arma com que defender-se, caso se tornasse necessária a defesa. Pediu a Aimeleque uma espada, e foi-lhe dito não ter ele nenhuma, a não ser a de Golias, a qual fora guardada como uma relíquia no tabernáculo. Davi respondeu: “Não há outra semelhante; dá-ma”. 1 Samuel 21:9. Sua coragem reviveu quando tomou a espada que uma ocasião usara para destruir o campeão dos filisteus.
Davi fugiu para Aquis, rei de Gate; pois achava que havia mais segurança no meio dos inimigos de seu povo do que nos domínios de Saul. Mas, referiu-se a Aquis que Davi era o homem que matara o campeão filisteu anos antes; e agora aquele que procurara refúgio entre os adversários de Israel, achou-se em grande perigo. Fingindo, porém, loucura, enganou seus inimigos, e assim escapou.
O primeiro erro de Davi foi sua falta de confiança em Deus, em Nobe, e o segundo seu engano diante de Aquis. Davi havia ostentado nobres traços de caráter, e seu valor moral conquistara-lhe favor entre o povo; mas, quando lhe sobreveio a provação, sua fé se abalou, e apareceu a fraqueza humana. Via em cada homem um espião e traidor. Em uma difícil emergência Davi olhara a Deus, com os olhos perseverantes da fé, e vencera o gigante filisteu. Acreditava em Deus, e avançou em Seu nome. Mas, ao ser perseguido, a perplexidade e angústia quase lhe esconderam da vista o Pai celestial.
Contudo, esta experiência estava servindo para ensinar sabedoria a Davi; pois levava-o a compenetrar-se de sua fraqueza, e da necessidade de constante dependência de Deus. Oh! quão preciosa é a doce influência do Espírito de Deus vindo ela às almas deprimidas e desesperançadas, encorajando os desfalecidos, fortalecendo os fracos, e comunicando coragem e auxílio aos provados servos do Senhor! Oh! que Deus é nosso Deus, o qual trata mansamente com os que erram, e manifesta Sua paciência e ternura na adversidade e quando somos vencidos por alguma grande tristeza!
Todo o fracasso por parte dos filhos de Deus é devido à sua falta de fé. Quando sombras rodeiam a alma, quando precisamos de luz e guia, devemos olhar para cima; há luz além das trevas. Davi não devia ter perdido a confiança em Deus por um momento sequer. Tinha motivos para confiar nEle: era o ungido do Senhor, e em meio de perigo havia sido protegido pelos anjos de Deus; fora armado de coragem para fazer coisas maravilhosas; e, se tão-somente afastasse seu espírito da situação angustiosa em que se achava colocado, e tivesse a lembrança do poder e majestade de Deus, teria estado em paz mesmo em meio das sombras da morte; podia com confiança ter repetido a promessa do Senhor: “As montanhas se desviarão, e os outeiros tremerão; mas a Minha benignidade não se desviará de ti, e o concerto da Minha paz não mudará”. Isaías 54:10.
Patriarcas e Profetas · Ellen G. White