Cristo Nossa Redenção

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Patriarcas e Profetas, páginas 467-469

Mas Saul atreveu-se em sua exaltação, e desonrou a Deus pela incredulidade e desobediência. Embora quando a princípio chamado ao trono fosse humilde e não tivesse confiança em si mesmo, o êxito tornou-o confiante em si próprio. Mesmo a primeira vitória de seu reino suscitara aquele orgulho de coração que foi o seu maior perigo. O valor e a habilidade militar ostentados no livramento de Jabes-Gileade, despertaram o entusiasmo da nação inteira. O povo honrou a seu rei, esquecendo-se de que ele não era senão o agente pelo qual Deus operara; e, posto que a princípio Saul atribuísse a glória a Deus, tomou mais tarde a honra para si. Perdeu de vista sua dependência de Deus, e em seu coração afastou-se do Senhor. Assim se preparou o caminho para o seu pecado de arrogância e sacrifício em Gilgal. A mesma cega confiança levou-o a rejeitar a reprovação de Samuel. Saul reconhecia que Samuel era um profeta enviado de Deus; portanto deveria ter aceitado a reprovação, ainda que não pudesse ver que havia pecado. Se ele estivesse disposto a ver e confessar o seu erro, esta amarga experiência se teria demonstrado uma salvaguarda para o futuro.

Se o Senhor tivesse então Se separado inteiramente de Saul, não lhe teria de novo falado pelo Seu profeta, confiando-lhe uma obra definida para a realizar, a fim de que pudesse corrigir os erros do passado. Quando alguém que professa ser filho de Deus, se torna descuidado ao fazer a Sua vontade, influenciando deste modo a outros a serem irreverentes, e a se esquecerem das ordens expressas do Senhor, é possível ainda que seus fracassos se tornem em vitórias se tão-somente aceitar a reprovação com verdadeira contrição de alma, e voltar-se a Deus com humildade e fé. A humilhação da derrota demonstra-se muitas vezes uma bênção, mostrando-nos a nossa incapacidade para fazer a vontade de Deus sem o Seu auxílio.

Quando Saul se desviou da reprovação a ele enviada pelo Espírito Santo de Deus, e persistiu em sua contumaz justificação própria, rejeitou o único meio pelo qual Deus poderia agir a fim de o salvar de si mesmo. Voluntariosamente ele se separara de Deus. Não poderia receber auxílio ou guia divina, antes que voltasse a Deus pela confissão de seu pecado.

Em Gilgal, Saul tinha tido a aparência de ser muito consciencioso, achando-se perante o exército de Israel a oferecer um sacrifício a Deus. Sua piedade, porém, não era genuína. Uma cerimônia religiosa realizada em oposição direta à ordem de Deus, servia apenas para enfraquecer as mãos de Saul, colocando-o fora do auxílio que Deus estava tão disposto a conceder-lhe.

Na expedição contra Amaleque, Saul julgara ter feito tudo que era essencial daquilo que o Senhor lhe ordenara; mas o Senhor não Se agradara da obediência parcial, nem estava disposto a revelar o que fora negligenciado por um motivo tão aceitável. Deus não deu aos homens liberdade para se afastarem de Seus mandados. O Senhor declarou a Israel: “Não fareis [...] cada qual tudo o que bem parece aos seus olhos”; mas “guarda e ouve todas estas palavras que te ordeno”. Deuteronômio 12:8, 28. Ao resolver sobre

qualquer caminho a seguirmos em nossos atos, não devemos indagar se podemos ver que resultará mal do mesmo, mas se está de acordo com a vontade de Deus. “Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte”. Provérbios 14:12.

“O obedecer é melhor do que o sacrificar.” As ofertas sacrificais não tinham em si mesmas nenhum valor à vista de Deus. Destinavam-se a exprimir da parte do ofertante o arrependimento do pecado e a fé em Cristo, e o compromisso de futura obediência à lei de Deus. Mas sem arrependimento, fé e um coração obediente, as ofertas eram inúteis. Quando, em violação direta ao mando de Deus, Saul se propôs a oferecer sacrifício daquilo que Deus votara à destruição, mostrou franco desdém pela autoridade divina. Tal adoração teria sido um insulto ao Céu. No entanto, com o pecado de Saul e seu resultado diante de nós, quantos não estão adotando uma conduta semelhante! Enquanto se recusam a crer e obedecer a alguma ordem do Senhor, perseveram em apresentar a Deus sua formal adoração. Não há nenhuma simpatia da parte do Espírito de Deus a semelhante culto. Não importa quão zelosos os homens possam ser em sua observância de cerimônias religiosas, o Senhor não pode aceitá-los se persistirem em deliberada violação de um de Seus mandamentos.

“A rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria”. 1 Samuel 15:23. A rebelião originou-se com Satanás, e toda rebelião contra Deus é devida diretamente à influência satânica. Aqueles que se põem contra o governo de Deus entraram em aliança com o máximo apóstata, e este exercerá seu poder e engano para cativar os sentidos e desencaminhar o entendimento. Ele fará todas as coisas aparecerem sob uma luz falsa. Semelhantes aos nossos primeiros pais, os que se acham sob sua fascinação mágica vêem apenas os grandes benefícios a serem recebidos pela transgressão.

Não se pode dar prova maior do poder enganador de Satanás do que o fato de que muitos, que assim são levados por ele, enganam-se com a crença de que estão ao serviço de Deus. Quando Coré, Datã e Abirã se rebelaram contra a autoridade de Moisés, pensaram que apenas estavam se opondo a um dirigente humano, um homem como eles mesmos; e chegaram a crer que estavam em verdade a fazer o serviço de Deus. Mas, rejeitando o instrumento escolhido de Deus, rejeitaram a Cristo; insultaram o Espírito de Deus. Assim, nos dias de Cristo, os escribas e anciãos judeus, que professavam ter grande zelo pela honra de Deus, crucificaram a Seu filho. O mesmo espírito existe ainda nos corações daqueles que se põem a seguir sua própria vontade em oposição à de Deus.

Saul tivera a mais ampla prova de que Samuel era divinamente inspirado. O aventurar-se ele a desrespeitar a ordem de Deus dada por intermédio do profeta, era contra os ditames da razão e do são juízo. Sua fatal arrogância deve ser atribuída à feitiçaria satânica. Saul tinha manifestado grande zelo

ao suprimir a idolatria e a feitiçaria; no entanto, em sua desobediência à ordem divina fora movido pelo mesmo espírito de oposição a Deus, e inspirado por Satanás tão realmente como são os que praticam a feitiçaria; e, ao ser reprovado, acrescentou a teimosia à rebelião. Não poderia ter oferecido maior insulto ao Espírito de Deus, se abertamente se tivesse unido aos idólatras.

É um perigoso passo menosprezar as reprovações e advertências da Palavra de Deus ou de Seu Espírito. Muitos, como Saul, rendem-se à tentação até que se tornam cegos ao verdadeiro caráter do pecado. Lisonjeiam-se de que tiveram em vista algum bom objetivo, e não fizeram mal por se afastarem dos mandados do Senhor. Assim descontentam o Espírito da graça até que Sua voz não mais é ouvida, e são abandonados às ilusões que escolheram.

Na pessoa de Saul Deus dera a Israel um rei segundo o coração deles, conforme Samuel dissera quando o reino se confirmou a Saul, em Gilgal: “Vedes aí o rei que elegestes, e que pedistes”. 1 Samuel 12:13. Garboso em sua aparência pessoal, de nobre estatura e porte principesco, seu parecer estava de acordo com as concepções que tinham da dignidade real; e seu valor pessoal e sua habilidade para dirigir exércitos eram qualidades que consideravam mais bem calculadas para conseguirem o respeito e a honra de outras nações. Pouca solicitude experimentavam quanto a possuir o seu rei aquelas qualidades mais elevadas que unicamente poderiam habilitá-lo a governar com justiça e eqüidade. Não pediram alguém que tivesse a verdadeira nobreza de caráter, que possuísse o amor e o temor de Deus. Não procuraram o conselho de Deus quanto às qualidades que um governante deveria possuir, a fim de preservar o caráter distintivo e santo deles como Seu povo escolhido. Não estavam a procurar o caminho de Deus, mas o seu próprio caminho. Portanto Deus lhes deu um rei tal como desejavam — rei este cujo caráter era o reflexo do deles. Seus corações não estavam em submissão a Deus, e seu rei também não era dominado pela graça divina. Sob o governo deste rei, obteriam a experiência necessária para poderem ver seu erro, e voltarem à sua fidelidade para com Deus.

Contudo, tendo o Senhor posto sobre Saul a responsabilidade do reino, não o deixou entregue a si mesmo. Fez com que o Espírito Santo repousasse sobre Saul para revelar-lhe suas fraquezas, e sua necessidade de graça divina; e, se Saul tivesse depositado confiança em Deus, teria Deus estado com ele. Enquanto sua vontade foi dirigida pela vontade de Deus, enquanto se entregou à disciplina de Seu Espírito, Deus pôde coroar de êxito os seus esforços. Mas, quando Saul preferiu agir independentemente de Deus, o Senhor não mais pôde ser seu guia, e foi obrigado a pô-lo de parte. Então Ele chamou ao trono “um homem segundo o Seu coração” (1 Samuel 13:14); não um que fosse irrepreensível em seu caráter, mas que, em vez de confiar em si, confiaria em Deus, e seria guiado por Seu Espírito; que, ao pecar, sujeitar-se-ia à reprovação e correção.

Patriarcas e Profetas · Ellen G. White

Passagem bíblica

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