Cristo Nossa Redenção

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Patriarcas e Profetas, páginas 459-460

norte do mesmo vale, em Micmas, estava acampada a força filistéia, ao mesmo tempo em que tropas destacadas saíam em diferentes direções a fim de devastar o país.

Deus permitira que as coisas fossem assim levadas a uma situação crítica, a fim de poder repreender a perversidade de Saul, e ensinar a Seu povo uma lição de humildade e fé. Por causa do pecado de Saul em sua oferta presunçosa, o Senhor não lhe daria a honra de vencer aos filisteus. Jônatas, o filho do rei, homem que temia o Senhor, foi escolhido como instrumento para libertar Israel. Movido por um impulso divino, propôs ao seu pajem de armas que fizessem um ataque secreto ao arraial do inimigo. “Porventura”, disse ele, “obrará o Senhor por nós, porque para com o Senhor nenhum impedimento há de livrar com muitos ou com poucos.”

O pajem de armas, que também era homem de fé e oração, incentivou este plano, e juntos retiraram-se do acampamento, secretamente, para que não acontecesse encontrar oposição o seu propósito. Com oração fervorosa ao Guia de seus pais, convieram em um sinal pelo qual poderiam determinar o que fazer. Descendo então para a garganta que separava os dois exércitos, silenciosamente seguiram seu caminho, à sombra do rochedo, e ocultos parcialmente pelas pedras e saliências do vale. Aproximando-se da fortaleza filistéia, ficaram à vista de seus inimigos, que, sarcasticamente, disseram: “Eis que já os hebreus saíram das cavernas em que se tinham escondido”; então os desafiaram: “Subi a nós, e nós vo-lo ensinaremos” (1 Samuel 14:11, 12), querendo dizer que puniriam os dois israelitas pela sua audácia. Este desafio era o sinal que Jônatas e seu companheiro tinham concordado aceitar como prova de que o Senhor favorecia seu empreendimento. Saindo agora das vistas dos filisteus, e escolhendo um caminho secreto e difícil, os guerreiros se dirigiram ao cume de uma rocha que tinha sido considerada inacessível, e não estava mui fortemente guarnecida. Assim penetraram no arraial do inimigo, e mataram as sentinelas, que, dominadas pela surpresa e temor, não ofereceram resistência.

Anjos celestiais escudavam a Jônatas e seu auxiliar, anjos combatiam ao seu lado, e os filisteus caíam diante deles. A terra tremia como se uma grande multidão com cavaleiros e carros se estivesse aproximando. Jônatas reconheceu os sinais do auxílio divino, e mesmo os filisteus viram que Deus estava agindo para o livramento de Israel. Grande temor apoderou-se do exército, tanto no campo como na guarnição. Na confusão, tomando seus próprios soldados por inimigos, os filisteus começaram a matar-se uns aos outros.

Logo se ouviu o rumor da batalha no acampamento de Israel. As sentinelas do rei referiram que havia grande confusão entre os filisteus, e que seu número estava decrescendo. Não se sabia, entretanto, que qualquer parte do exército hebreu houvesse deixado o acampamento. Feita a busca, verificou-se que ninguém estava ausente a não ser Jônatas e seu pajem

de armas. Mas, vendo que os filisteus estavam sendo repelidos, Saul levou seu exército a unir-se ao assalto. Os hebreus que tinham desertado para o inimigo voltaram agora contra eles; grande número também saiu de seus esconderijos; e, fugindo os filisteus, destroçados, o exército de Saul infligiu terrível estrago nos fugitivos.

Decidido a tirar para si as maiores vantagens, o rei temerariamente proibiu a seus soldados tomarem alimento durante o dia todo, impondo a ordem por meio de uma solene imprecação: “Maldito o homem que comer pão até à tarde, para que me vingue de meus inimigos”. 1 Samuel 14:24. A vitória já havia sido ganha, sem o conhecimento ou a cooperação de Saul; mas ele esperava distinguir-se pela completa destruição do exército vencido. A ordem para abstinência de alimento foi motivada pela ambição egoísta, e mostrou ser o rei indiferente às necessidades de seu povo quando estas estavam em conflito com seus desejos de exaltação própria. Confirmando esta proibição com um juramento solene, Saul se mostrou não somente temerário como também profano. As próprias palavras da imprecação dão prova de que o zelo de Saul era por si mesmo, e não pela honra de Deus. Ele declarou seu objetivo não ser que o Senhor fosse vingado de Seus inimigos, mas “que me vingue de meus inimigos”.

A proibição teve como resultado levar o povo a transgredir o mandado de Deus. Eles tinham estado empenhados em guerra o dia todo, e desfaleciam pela falta de alimento; e apenas se passaram as horas da restrição, caíram sobre o despojo, e devoraram a carne com sangue, violando desta maneira a lei que proibia comer sangue.

Durante o dia de batalha, Jônatas, que não tinha ouvido acerca da ordem do rei, ignorantemente transgrediu comendo um pouco de mel quando passava através de um bosque. Saul teve conhecimento disto à tarde. Havia declarado que a violação deste edito seria punida com a morte; e, embora Jônatas não tivesse sido culpado de pecado voluntário, embora Deus lhe tivesse miraculosamente preservado a vida, e houvesse operado por meio dele, o rei declarou que a sentença devia ser executada. Poupar a vida de seu filho teria sido um reconhecimento da parte de Saul de que ele pecara fazendo um voto tão precipitado. Isto seria humilhante ao seu orgulho. “Assim me faça Deus, e outro tanto”, foi a sua terrível sentença; “que com certeza morrerá, Jônatas.”

Saul não podia pretender a honra da vitória, mas esperava ser honrado pelo seu zelo ao manter a santidade de seu voto. Mesmo com sacrifício de seu filho, queria impressionar seus súditos com o fato de que a autoridade real tinha de ser mantida. Em Gilgal, pouco tempo antes, Saul tomara a ousadia de oficiar como sacerdote, contrariamente ao mandado de Deus. Sendo reprovado por Samuel, obstinadamente justificou-se. Agora, quando sua própria ordem foi desobedecida — embora esta ordem não fosse razoável, e tivesse sido violada por ignorância — o rei e pai sentenciou o filho à morte.

Patriarcas e Profetas · Ellen G. White

Passagem bíblica

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