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Atos dos Apóstolos, páginas 74-75

comer; e, enquanto lho preparavam, sobreveio-lhe um arrebatamento de sentidos” (At 11:5). Não era unicamente do pão material que Pedro tinha fome. Ao ver do terraço a cidade de Jope e o território circunvizinho, teve fome de salvação para os seus patrícios. Tinha intenso desejo de indicar-lhes as profecias das Escrituras relativas ao sofrimento e morte de Cristo.

Na visão, viu Pedro “o céu aberto, e que descia um vaso, como se fosse um grande lençol atado pelas quatro pontas, e vindo para a terra, no qual havia de todos os animais quadrúpedes e répteis da terra, e aves do céu. E foi-lhe dirigida uma voz: Levanta-te, Pedro, mata e come. Mas Pedro disse: De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum e imunda. E segunda vez lhe disse a voz: Não faças tu comum ao que Deus purificou. E aconteceu isto por três vezes; e o vaso tornou a recolher-se no céu” (At 10:11-16).

Esta visão tanto serviu para repreender a Pedro como para instruí-lo. Revelou-lhe o propósito divino - de que pela morte de Cristo os gentios deviam tornar-se co-herdeiros dos judeus nas bênçãos da salvação. Até então nenhum dos discípulos pregara o evangelho aos gentios. Em seu pensamento, o muro de separação posto abaixo pela morte de Cristo ainda existia, e seus trabalhos limitavam-se aos judeus, pois tinham considerado os gentios excluídos das bênçãos do evangelho. O Senhor buscava então ensinar a Pedro a extensão universal do plano divino.

Muitos dos gentios tinham sido ouvintes interessados da pregação de Pedro e dos outros apóstolos, e muitos dos judeus gregos se tinham tornado crentes em Cristo, mas a conversão de Cornélio seria a primeira de importância entre os gentios.

Era chegado o tempo para ser introduzida pela igreja de Cristo uma fase de trabalho inteiramente nova. A porta que muitos dos judeus conversos haviam fechado aos gentios devia agora ser aberta de par em par. E os gentios que aceitassem o evangelho deviam ser tidos no mesmo pé de igualdade com os discípulos judeus, sem a necessidade de observar o rito da circuncisão.

Quão cuidadosamente agiu o Senhor para vencer o preconceito contra os gentios, que tão firmemente se fixara na mente de Pedro pela sua educação judaica! Pela visão do lençol e seu conteúdo, procurou Ele despir o espírito do apóstolo deste preconceito, e ensinar a importante verdade de que no Céu não há acepção de pessoas; que judeus e gentios são igualmente preciosos à vista de Deus; que por meio de Cristo os pagãos podem ser participantes das bênçãos e privilégios do evangelho.

Enquanto Pedro meditava sobre o sentido da visão, os homens enviados da parte de Cornélio chegaram a Jope e pararam diante da porta da casa em que ele assistia. Então disse o Espírito: “Eis que três varões te

buscam. Levanta-te, pois, e desce, e vai com eles, não duvidando; porque Eu os enviei” (At 10:20).

Para Pedro esta era uma ordem probante, e foi com relutância em cada passo que assumiu o dever que lhe fora imposto; mas não ousou desobedecer. “Descendo Pedro para junto dos varões que foram enviados por Cornélio, disse: Sou eu a quem procurais; qual é a causa porque estais aqui?” (At 10:21). Eles lhe falaram a respeito de sua singular incumbência, dizendo: “Cornélio, o centurião, varão justo e temente a Deus, e que tem

bom testemunho de toda a nação dos judeus, foi avisado por um santo anjo para que te chamasse a sua casa, e ouvisse as tuas palavras” (At 10:22).

Em obediência às instruções que acabava de receber de Deus, o apóstolo prometeu ir com eles. Na manhã seguinte partiu para Cesaréia, acompanhado por seis de seus irmãos. Estes deveriam ser testemunhas de tudo o que ele dissesse ou fizesse enquanto em visita aos gentios; pois Pedro sabia que seria chamado a dar contas de uma violação tão direta dos ensinos judaicos.

Entrando Pedro na casa do gentio, Cornélio não o saudou como a um visitante comum, mas como a alguém honrado pelo Céu, a ele enviado por Deus. É costume oriental curvar-se perante um príncipe ou qualquer alto dignitário, e curvarem-se as crianças perante seus pais; mas Cornélio, tomado pela reverência por aquele que fora enviado por Deus para o ensinar, caiu aos pés do apóstolo e o adorou. Pedro foi presa de horror e levantou o centurião, dizendo: “Levanta-te, que eu também sou homem” (At 10:26).

Enquanto os mensageiros de Cornélio desempenhavam a sua incumbência, o centurião havia “já convidado seus parentes e amigos mais íntimos” (At 10:24), para que, como ele, pudessem ouvir a pregação do evangelho. Quando Pedro chegou, encontrou um grande grupo avidamente a espera para ouvir suas palavras.

Aos que estavam reunidos, Pedro falou em primeiro lugar do costume dos judeus, dizendo que lhes era considerado ilícito misturarem-se socialmente com os gentios, e que fazer isto implicava contaminação cerimonial. “Vós bem sabeis”, disse ele, “que não é lícito a um varão judeu ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas Deus mostrou-me que a nenhum homem chame comum ou imundo. Pelo que, sendo chamado, vim sem contradizer. Pergunto, pois, por que razão mandastes chamar-me?” (At 10:28, 29).

Cornélio então relatou sua experiência e as palavras do anjo, dizendo em conclusão: “Logo mandei chamar-te, e bem fizeste em vir. Agora, pois, estamos todos presentes diante de Deus, para ouvir tudo quanto por Deus te é mandado.”

Disse Pedro: “Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; mas que Lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, O teme e obra o que é justo” (At 10:34, 35).

Então àquele atento grupo de ouvintes o apóstolo pregou a Cristo - Sua vida, Seus milagres, Sua traição e crucificação, Sua ressurreição e ascensão, e Sua obra no Céu como representante e advogado do homem. Ao indicar Jesus aos presentes como a única esperança do pecador, Pedro, ele próprio, compreendeu mais perfeitamente o sentido da visão que tivera, e o coração ardeu-lhe com o espírito da verdade que estava apresentando.

Subitamente o discurso foi interrompido pela descida do Espírito Santo. “Dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. Porque os ouviam falar línguas, e magnificar a Deus.

“Respondeu então Pedro: Pode alguém porventura recusar a água, para que não sejam batizados estes, que também receberam como nós o Espírito Santo? E mandou que fossem batizados em nome do Senhor” (At 10:47, 48).

Atos dos Apóstolos · Ellen G. White

Passagem bíblica

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