Cristo A Igreja
Plano Encontro 2 Dia 228
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Leitura do livro
O Grande Conflito, páginas 192-195
Münzer, pretendendo sanção divina, levaram-nos a romper com todo domínio e dar rédeas a seus preconceitos e paixões. Seguiram-se as mais terríveis cenas de sedição e contenda, e os campos da Alemanha embeberam-se de sangue.
A agonia d’alma que, havia tanto tempo antes, Lutero experimentara em Erfurt, oprimia-o agora com redobrada força, vendo ele os resultados do fanatismo imputados à Reforma. Os príncipes romanistas declaravam — e muitos estavam prontos a dar crédito à declaração — que a rebelião era o fruto legítimo das doutrinas de Lutero. Conquanto esta acusação não tivesse o mínimo fundamento, não poderia senão causar grande angústia ao reformador. Que a causa da verdade fosse assim infelicitada, sendo emparelhada com o mais ignóbil fanatismo, parecia mais do que ele poderia suportar. Por outro lado, os chefes da revolta odiavam a Lutero porque ele não somente se opusera a suas doutrinas e negara ser de inspiração divina o que pretendiam, mas declarara-os rebeldes à autoridade civil. Em represália, denunciaram-no como vil pretensioso. Parecia haver acarretado sobre si a inimizade tanto de príncipes como do povo.
Os romanistas exultavam, esperando testemunhar a rápida queda da Reforma; e culpavam a Lutero até dos erros que ele tão zelosamente se esforçara por corrigir. A facção fanática, pretendendo falsamente haver sido tratada com grande injustiça, conseguiu ganhar as simpatias de um grupo numeroso de pessoas e, conforme se dá freqüentemente com os que tomam o lado do erro, vieram a ser considerados mártires. Assim, aqueles que estavam exercendo toda energia em oposição à Reforma, eram lamentados e louvados como vítimas de crueldade e opressão. Esta era obra de Satanás, movido pelo mesmo espírito de rebelião que manifestara primeiramente no Céu.
Satanás está constantemente procurando enganar os homens e levá-los a chamar ao pecado justiça, e à justiça pecado. Quão bem-sucedido tem sido seu trabalho! Quantas vezes a censura e a exprobração são lançadas sobre os fiéis servos de Deus porque se mantêm destemidos em defesa da verdade! Os
homens que não passam de agentes de Satanás, são louvados e lisonjeados, e mesmo considerados mártires, enquanto os que deveriam ser respeitados e apoiados pela sua fidelidade a Deus, são deixados sós, sob suspeita e desconfiança.
A santidade falsificada, a santificação espúria, ainda está a fazer sua obra de engano. Sob várias formas exibe o mesmo espírito dos dias de Lutero, desviando das Escrituras os espíritos, e levando os homens a seguir seus próprios sentimentos e impressões, em vez de prestar obediência à lei de Deus. Este é um dos expedientes mais bem-sucedidos de Satanás, para lançar opróbrio sobre a pureza e a verdade.
Corajosamente Lutero defendeu o evangelho dos ataques que vinham de todos os lados. A Palavra de Deus se demonstrou uma arma poderosa em todo conflito. Com essa Palavra guerreou contra a usurpada autoridade do papa e a filosofia racionalista dos escolásticos, enquanto se mantinha firme como uma rocha contra o fanatismo que procurava aliar-se à Reforma.
Cada um desses elementos oponentes estava, a seu modo, pondo de parte as Escrituras Sagradas e exaltando a sabedoria humana como a fonte da verdade e conhecimento religioso. O racionalismo deifica a razão e dela faz o critério para a religião. O romanismo, pretendendo para seu soberano pontífice uma inspiração que descende ininterruptamente dos apóstolos, e que é imutável em todos os tempos, dá ampla oportunidade para que toda espécie de extravagâncias e corrupção se ocultem sob a santidade da comissão apostólica. A inspiração pretendida por Münzer e seus companheiros, não procedia de uma fonte mais elevada do que as divagações da imaginação, e sua influência era subversiva a toda autoridade humana ou divina. O verdadeiro cristianismo recebe a Palavra de Deus como o grande tesouro de verdade inspirada, e como a prova de toda inspiração.
De volta de Wartburgo, Lutero completou sua tradução do Novo Testamento, que foi logo depois entregue ao povo da Alemanha em sua própria língua. Essa tradução foi recebida
com grande alegria por todos os que amavam a verdade, mas rejeitaram-na escarnecedoramente os que preferiam tradições e preceitos de homens.
Os padres estavam alarmados com a idéia de que o povo comum agora seria capaz de discutir com eles sobre os preceitos da Palavra de Deus, e de que sua própria ignorância seria assim exposta. As armas de seu raciocínio carnal eram impotentes contra a espada do Espírito. Roma convocou toda a sua autoridade para impedir a disseminação das Escrituras; mas nulos foram decretos, anátemas e torturas. Quanto mais ela condenava e proibia a Bíblia, maior era a ansiedade do povo por saber o que a mesma realmente ensinava. Todos os que sabiam ler estavam ávidos por estudar por si mesmos a Palavra de Deus. Levavam-na consigo, liam-na e reliam-na, e não podiam satisfazer-se antes que confiassem à memória grandes porções. Vendo o favor com que o Novo Testamento fora recebido, Lutero imediatamente começou a tradução do Antigo, publicando-o em partes, tão depressa as completava.
Os escritos de Lutero eram bem aceitos, nas cidades como nas aldeias. “O que Lutero e seus amigos compunham, outros faziam circular. Monges, convictos do caráter ilícito das obrigações monásticas, desejosos de trocar uma longa vida de indolência por outra de ativo esforço, mas demasiado ignorantes para proclamar a Palavra de Deus, viajavam pelas províncias, visitando aldeias e cabanas, onde vendiam os livros de Lutero e de seus amigos. Logo enxameavam pela Alemanha aqueles ousados colportores.” — D’Aubigné.
Ricos e pobres, doutos e ignorantes estudavam com profundo interesse esses escritos. À noite os professores das escolas da aldeia liam-nos em voz alta a pequenos grupos reunidos junto à lareira. Com cada esforço, algumas almas eram convencidas da verdade e, recebendo a Palavra com alegria, por seu turno contavam as boas novas a outros.
Confirmou-se o que disse o cantor inspirado: “A exposição das Tuas palavras dá luz; dá entendimento aos símplices.” Salmos 119:130. O estudo das Escrituras estava operando poderosa mudança no espírito e coração do povo. O governo papal colocara sobre os seus súditos um jugo de ferro que os retinha em ignorância e degradação. Uma supersticiosa observância de formas fora escrupulosamente mantida; mas em todo o seu serviço, o coração e o intelecto haviam tido pequena parte. A pregação de Lutero, expondo as plenas verdades da Palavra de Deus, e depois a própria Palavra, posta nas mãos do povo comum, despertaram-lhes as capacidades adormecidas, não somente purificando e enobrecendo a natureza espiritual, mas comunicando nova força e vigor ao intelecto.
Podiam-se ver pessoas de todas as classes com a Bíblia nas mãos, defendendo as doutrinas da Reforma. Os romanistas que haviam deixado o estudo das Escrituras aos padres e monges, chamavam por eles agora para se apresentarem e refutarem os novos ensinos. Mas, ignorantes tanto a respeito das Escrituras como do poder de Deus, padres e frades eram totalmente derrotados pelos que haviam denunciado como indoutos e hereges. “Infelizmente”, disse um escritor católico, “Lutero persuadiu seus seguidores a não depositar fé em qualquer outro oráculo além das Escrituras Sagradas.” — D’Aubigné. Multidões se reuniam para ouvir a verdade advogada por homens de pouca instrução, e mesmo por eles discutida com ilustrados e eloqüentes teólogos. Patenteava-se a vergonhosa ignorância desses grandes homens, ao serem seus argumentos defrontados pelos singelos ensinos da Palavra de Deus. Operários, soldados, mulheres e mesmo crianças, estavam mais familiarizados com os ensinos da Bíblia do que o estavam os padres e ilustres doutores.
O contraste entre os discípulos do evangelho e os mantenedores da superstição romanista manifestava-se não menos nas classes eruditas do que entre o povo comum. “Opondo-se aos velhos defensores da hierarquia, que tinham negligenciado o
O Grande Conflito · Ellen G. White