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O Grande Conflito, páginas 189-191

antes, o protegerei. Se eu soubesse que Vossa Alteza poderia ou quereria proteger-me, não iria de maneira nenhuma a Wittenberg. Não há espada que possa favorecer esta causa. Deus somente deve fazer tudo sem o auxílio ou cooperação do homem. Aquele que tem a maior fé, é o que é mais capaz de proteger.” — D’Aubigné.

Em segunda carta, escrita em caminho para Wittenberg, Lutero acrescentou: “Estou pronto para incorrer no desagrado de Vossa Alteza e na ira do mundo inteiro. Não são os habitantes de Wittenberg minhas ovelhas? Não as confiou Deus a mim? E não deveria eu, sendo necessário, expor-me à morte por sua causa? Demais, temo ver um terrível levante na Alemanha, pelo qual Deus punirá nossa nação.” — D’Aubigné.

Com grande cautela e humildade, se bem que com decisão e firmeza, entrou em seu trabalho. “Pela Palavra”, disse ele, “devemos vencer e destruir o que foi estabelecido pela violência. Não farei uso da força contra os supersticiosos e incrédulos. ... Ninguém deve ser constrangido. A liberdade é a própria essência da fé.” — D’Aubigné.

Logo rumorejou em toda Wittenberg que Lutero voltara, e que deveria pregar. O povo congregou-se de todas as direções, e a igreja transbordou. Subindo ao púlpito, com grande sabedoria e mansidão, instruiu, exortou e reprovou. Abordando o procedimento de alguns que haviam recorrido a medidas violentas para abolir a missa, disse:

“A missa é coisa má; Deus Se opõe a ela; deve ser abolida; e eu gostaria que no mundo inteiro fosse substituída pela Ceia do evangelho. Mas que ninguém seja dela arrancado pela força. Devemos deixar o caso nas mãos de Deus. Sua Palavra deve agir, e não nós. E por que assim? perguntareis. Porque eu não retenho o coração dos homens em minhas mãos, como o oleiro retém o barro. Temos o direito de falar: não temos o direito de agir. Preguemos; o resto pertence a Deus. Devesse eu empregar a força e que ganharia? Momice, formalidade, arremedos, ordenanças humanas e hipocrisia. ... Mas não haveria

sinceridade de coração, nem fé, nem caridade. Onde faltam estas três, falta tudo, e eu nada daria por semelhante resultado. ... Deus faz mais por Sua Palavra só, do que vós e eu e o mundo inteiro por nossa força unida. Deus Se apodera do coração, e tomando o coração, tudo está ganho. ...

“Pregarei, discutirei, escreverei; mas não constrangerei a ninguém, pois a fé é ato voluntário. Vede o que fiz. Levantei-me contra o papa, seus partidários e as indulgências, mas sem violência nem tumulto. Apresentei a Palavra de Deus; preguei e escrevi — isto é tudo que fiz. E, no entanto, enquanto eu dormia, ... a Palavra que eu pregara subverteu o papado, de maneira tal que nunca um príncipe ou imperador lhe vibrou semelhante golpe. E, contudo, nada fiz; a Palavra só, fez tudo. Se eu houvesse querido apelar para a força, a Alemanha inteira teria sido talvez inundada de sangue. Mas qual seria o resultado? Ruína e desolação tanto para o corpo como para a alma. Portanto, conservei-me quieto e deixei a Palavra sozinha correr através do mundo.” — D’Aubigné.

Dia após dia, durante uma semana inteira, Lutero continuou a pregar a ávidas multidões. A Palavra de Deus quebrou o encanto da excitação fanática. O poder do evangelho trouxe de novo para o caminho da verdade o povo transviado.

Lutero não tinha desejo de encontrar-se com os fanáticos, cujo proceder fora a causa de tão grande mal. Sabia que eram homens de juízo deficiente e de indisciplinadas paixões, os quais conquanto pretendessem ser especialmente iluminados pelo Céu, não suportariam a mínima contradição, ou mesmo a mais benévola reprovação ou conselho. Arrogando-se autoridade suprema, exigiam que cada um, sem qualquer questão, reconhecesse o que pretendiam. Mas, ao pedirem uma entrevista com ele, concedeu-lha; e com tanto êxito expôs as pretensões deles que os impostores de pronto partiram de Wittenberg.

O fanatismo foi sustado por algum tempo; mas alguns anos mais tarde irrompeu com maior violência e mais terríveis resultados. Disse Lutero, com relação aos dirigentes desse

movimento: “Para eles as Escrituras Sagradas não eram senão letra morta, e todos eles começaram a clamar: ‘O Espírito! o Espírito!’ Mas, certamente não seguirei para onde seu espírito os conduz. Deus me guarde, pela Sua misericórdia, de uma igreja em que não há senão santos. Desejo associar-me aos humildes, fracos, doentes, que conhecem e sentem seus pecados, e que, do fundo do coração, gemem e clamam continuamente a Deus, para obter dEle consolação e apoio.” — D’Aubigné.

Tomaz Münzer, o mais ativo dos fanáticos, era homem de considerável habilidade, que, corretamente dirigida, o teria capacitado a fazer o bem; mas ele não aprendera os rudimentos da verdadeira religião. “Possuía-o o desejo de reformar o mundo e esquecia-se, como o fazem todos os entusiastas, de que a reforma deveria começar consigo mesmo.” — D’Aubigné. Ambicionava obter posição e influência, e não estava disposto a ficar em segundo lugar, mesmo em relação a Lutero. Declarava que os reformadores, substituindo pela autoridade das Escrituras a do papa, estavam apenas estabelecendo uma forma diversa de papado. Ele próprio pretendia haver sido divinamente incumbido de introduzir a verdadeira reforma. “Aquele que possui este espírito”, disse Münzer, “possui a verdadeira fé, ainda que em sua vida nunca visse as Escrituras.” — D’Aubigné.

Os ensinadores fanáticos entregaram-se à direção das impressões, considerando todo pensamento e impulso como sendo a voz de Deus; conseqüentemente iam a grandes extremos. Alguns queimaram mesmo a Bíblia, exclamando: “A letra mata, mas o Espírito vivifica.” O ensino de Münzer apelava para o desejo humano do maravilhoso, enquanto satisfazia seu orgulho colocando virtualmente as idéias e opiniões dos homens acima da Palavra de Deus. Suas doutrinas eram recebidas por milhares. Logo denunciou toda a ordem no culto público, e declarou que obedecer aos príncipes era tentar servir simultaneamente a Deus e a Belial.

O espírito do povo, começando já a arremessar o jugo do papado, estava-se também tornando impaciente sob as restrições da autoridade civil. Os ensinos revolucionários de

O Grande Conflito · Ellen G. White

Passagem bíblica

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