Cristo A Igreja
Plano Encontro 2 Dia 214
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Leitura do livro
O Grande Conflito, páginas 141-144
a menos que diligentemente trabalhem para explicar as Santas Escrituras, e gravá-las no coração dos jovens. Não aconselho ninguém a pôr seu filho onde as Escrituras não reinem supremas. Toda instituição em que os homens não se achem incessantemente ocupados com a Palavra de Deus, tem de tornar-se corrupta.” — D’Aubigné.
Esse apelo circulou rapidamente por toda a Alemanha e exerceu poderosa influência sobre o povo. A nação toda foi abalada, e multidões se animaram a arregimentar-se em redor do estandarte da Reforma. Os oponentes de Lutero, ardentes no desejo de vingança, insistiam em que o papa tomasse medidas decisivas contra ele. Decretou-se que suas doutrinas fossem imediatamente condenadas. Sessenta dias foram concedidos ao reformador e a seus adeptos, findos os quais, se não abjurassem, deveriam todos ser excomungados.
Foi uma crise terrível para a Reforma. Durante séculos, a sentença de excomunhão, de Roma, ferira de terror a poderosos monarcas; enchera fortes impérios de desgraça e desolação. Aqueles sobre quem caía sua condenação, eram universalmente considerados com espanto e horror; cortavam-se-lhes as relações com seus semelhantes, e eram tratados como proscritos que se deveriam perseguir até à exterminação. Lutero não tinha os olhos fechados à tempestade prestes a irromper sobre ele, mas permaneceu firme, confiando em que Cristo lhe seria apoio e escudo. Com fé e coragem de mártir escreveu: “O que está para acontecer não sei, nem cuido em sabê-lo. ... Caia onde cair o golpe, não tenho receio. Nem ao menos uma folha tomba ao solo sem a vontade de nosso Pai. Quanto mais não cuidará Ele de nós! Coisa fácil é morrer pela Palavra, visto que a própria Palavra ou o Verbo, que Se fez carne, morreu. Se morrermos com Ele, com Ele viveremos; e passando por aquilo por que Ele passou antes de nós, estaremos onde Ele está, e com Ele habitaremos para sempre.” — D’Aubigné.
Quando a bula papal chegou a Lutero, disse ele: “Desprezo-a e ataco-a como ímpia, falsa. ... É o próprio Cristo que
nela é condenado. ... Regozijo-me por ter de suportar tais males pela melhor das causas. Sinto já maior liberdade em meu coração; pois finalmente sei que o papa é o anticristo, e que o seu trono é o do próprio Satanás.” — D’Aubigné.
Todavia a ordem de Roma não foi sem efeito. A prisão, tortura e espada eram armas potentes para forçar à obediência. Os fracos e supersticiosos tremiam perante o decreto do papa; e, conquanto houvesse simpatia geral por Lutero, muitos sentiam que a vida era por demais preciosa para que fosse arriscada na causa da Reforma. Tudo parecia indicar que a obra do reformador estava a ponto de terminar.
Mas Lutero ainda era destemido. Roma tinha arremessado seus anátemas contra ele, e o mundo olhava, nada duvidando de que perecesse ou fosse obrigado a render-se. Mas com poder terrível ele rebateu contra ela a sentença de condenação, e publicamente declarou sua decisão de abandoná-la para sempre. Na presença de uma multidão de estudantes, doutores e cidadãos de todas as classes, Lutero queimou a bula papal, com as leis canônicas, decretos e certos escritos que sustentavam o poder papal. “Meus inimigos, queimando meus livros, foram capazes”, disse ele, “de prejudicar a causa da verdade no espírito do povo comum, e destruir-lhes a alma; por esse motivo consumo seus livros, em retribuição. Uma luta séria acaba de começar. Até aqui tenho estado apenas a brincar com o papa. Iniciei esta obra no nome de Deus; ela se concluirá sem mim, e pelo Seu poder.” — D’Aubigné.
Às acusações dos inimigos, que dele zombavam pela fraqueza de sua causa, Lutero respondia: “Quem sabe se Deus não me escolheu e chamou, e se eles não deverão temer que, ao desprezar-me, desprezem ao próprio Deus? Moisés esteve só, na partida do Egito; Elias esteve só, no reino do rei Acabe; Isaías só, em Jerusalém; Ezequiel só, em Babilônia. ... Deus nunca escolheu como profeta nem o sumo sacerdote, nem qualquer outra grande personagem; mas comumente escolhia homens humildes e desprezados, e uma vez mesmo o pastor
Amós. Em todas as épocas, os santos tiveram que reprovar os grandes, reis, príncipes, sacerdotes e sábios, com perigo de vida. ... Não me considero profeta; mas digo que eles devem temer precisamente porque estou só e eles são muitos. Disto estou certo: que a Palavra de Deus está comigo, e não com eles.” — D’Aubigné.
Entretanto, não foi sem terrível luta consigo mesmo que Lutero se decidiu a uma separação definitiva da igreja. Foi aproximadamente por esse tempo que escreveu: “Sinto cada dia mais e mais quão difícil é pôr de parte os escrúpulos que a gente absorveu na meninice. Oh! quanta dor me causou, posto que eu tivesse as Escrituras a meu lado, o justificar a mim mesmo que eu ousaria assumir atitude contra o papa, e tê-lo na conta de anticristo! Quais não foram as tribulações de meu coração! Quantas vezes não fiz a mim mesmo, com amargura, a pergunta que era tão freqüente nos lábios dos adeptos do papa: ‘Só tu és sábio? Poderão todos os mais estar errados? Como será se afinal de contas, és tu que te achas errado, e estás a envolver em teu erro tantas almas, que então serão eternamente condenadas?’ Era assim que eu lutava comigo mesmo e com Satanás, até que Cristo, por Sua própria e infalível Palavra, me fortaleceu o coração contra estas dúvidas.” — Vida e Tempos de Lutero, de Martyn.
O papa ameaçara Lutero de excomunhão se ele não se retratasse, e a ameaça agora se cumprira. Apareceu nova bula, declarando a separação final do reformador, da Igreja de Roma, denunciando-o como amaldiçoado do Céu e incluindo na mesma condenação todos os que recebessem suas doutrinas. Tinha-se entrado completamente na grande contenda.
A oposição é o quinhão de todos aqueles a quem Deus emprega para apresentar verdades especialmente aplicáveis a seu tempo. Havia uma verdade presente nos dias de Lutero — verdade de especial importância naquele tempo; há uma verdade presente para a igreja hoje. Aquele que todas as
coisas faz segundo o conselho de Sua vontade, foi servido colocar os homens em circunstâncias várias, e ordenar-lhes deveres peculiares aos tempos em que vivem e às condições sob as quais são postos. Se prezassem a luz a eles concedida, patentear-se-iam diante deles mais amplas perspectivas da verdade. Esta, porém, não é hoje desejada pela maioria, mais do que o foi pelos romanistas que se opunham a Lutero. Há, para aceitar teorias e tradições de homens em vez de a Palavra de Deus, a mesma disposição das eras passadas. Os que apresentam a verdade para este tempo não devem esperar ser recebidos com mais favor do que o foram os primeiros reformadores. O grande conflito entre a verdade e o erro, entre Cristo e Satanás, há de aumentar em intensidade até ao final da história deste mundo.
Disse Jesus a Seus discípulos: “Se vós fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes Eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos aborrece. Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a Mim Me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a Minha palavra, também guardarão a vossa.” João 15:19, 20. E, por outro lado, declarou nosso Senhor explicitamente: “Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas.” Lucas 6:26. O espírito do mundo não está hoje mais em harmonia com o espírito de Cristo do que nos primitivos tempos; e os que pregam a Palavra de Deus em sua pureza não serão recebidos agora com maior favor do que o foram naquele tempo. As maneiras de oposição à verdade podem mudar, a inimizade pode ser menos manifesta porque é mais arguta; mas o mesmo antagonismo ainda existe, e se manifestará até ao fim do tempo.
O Grande Conflito · Ellen G. White