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O Grande Conflito, páginas 136-139

prontidão em responder a todas as objeções ao que ele havia ensinado, e em submeter suas doutrinas à decisão de algumas das principais universidades. Mas ao mesmo tempo protestava contra a maneira de agir do cardeal, exigindo-lhe retratar-se sem ter provado estar ele em erro.

A única resposta foi: “Retrate-se, retrate-se!” O reformador mostrou que sua atitude era apoiada pelas Escrituras, e declarou com firmeza que não poderia renunciar à verdade. O legado, incapaz de responder ao argumento de Lutero, cumulou-o com uma tempestade de acusações, zombarias, escárnios e lisonjas, entremeados de citações da tradição e dos dizeres dos pais da igreja, sem proporcionar ao reformador oportunidade de falar. Vendo que a conferência, assim continuando, seria completamente vã, Lutero obteve, por fim, relutante permissão para apresentar sua resposta por escrito.

“Assim fazendo”, disse ele, escrevendo a um amigo, “os oprimidos encontram duplo proveito; primeiro, aquilo que escrevi pode ser submetido ao juízo de outrem; segundo, tem-se melhor oportunidade de trabalhar com os temores, se é que não com a consciência, de um déspota arrogante e palrador, que do contrário dominaria pela sua linguagem imperiosa.” — Vida e Tempos de Lutero, de Martyn.

Na próxima entrevista, Lutero apresentou uma exposição clara, concisa e poderosa, de suas opiniões, amplamente apoiadas por muitas citações das Escrituras. Este documento, depois de o ter lido em voz alta, entregou ao cardeal que, entretanto, o lançou desdenhosamente ao lado, declarando ser ele um acervo de palavras ociosas e citações que nada provavam. Lutero, assim estimulado, defronta então o altivo prelado em seu próprio terreno — as tradições e ensinos da igreja — e literalmente derrota suas afirmações.

Quando o prelado viu que o raciocínio de Lutero era irrespondível, perdeu todo o domínio de si mesmo e, colérico, exclamou: “Retrate-se! ou mandá-lo-ei a Roma, para ali comparecer perante os juízes comissionados para tomarem conhecimento de sua causa. Excomungá-lo-ei e a todos os seus

partidários, e a todos os que em qualquer ocasião o favorecerem, e os lançarei fora da igreja.” E finalmente declarou, em tom altivo e irado: “Retrate-se, ou não volte mais!” — D’Aubigné.

O reformador de pronto se retirou com os amigos, declarando assim plenamente que nenhuma retratação se deveria esperar dele. Isto não era o que o cardeal se propusera. Ele se havia lisonjeado de poder pela violência forçar Lutero a submeter-se. Agora, deixado só com os que o apoiavam, olhava para um e para outro, em completo desgosto pelo inesperado fracasso de seus planos.

Os esforços de Lutero nesta ocasião não ficaram sem bons resultados. A grande assembléia presente tivera oportunidade de comparar os dois homens, e julgar por si do espírito manifestado por eles, bem como da força e verdade de suas posições. Quão assinalado era o contraste! O reformador, simples, humilde, firme, permanecia na força de Deus, tendo ao seu lado a verdade; o representante do papa, importante a seus próprios olhos, despótico, altivo e desarrazoado, achava-se sem um único argumento das Escrituras, exclamando, no entanto, veementemente: “Retrate-se, ou será enviado a Roma para o castigo!”

Se bem que Lutero se houvesse munido de salvo-conduto, os romanistas estavam conspirando para apanhá-lo e aprisioná-lo. Seus amigos insistiam em que, como lhe era inútil prolongar sua permanência, deveria sem demora voltar a Wittenberg, e que a máxima cautela se deveria ter no sentido de ocultar suas intenções. De acordo com isto, ele deixou Augsburgo antes do raiar do dia, a cavalo, acompanhado apenas de um guia a ele fornecido pelo magistrado. Com muitos pressentimentos atravessou sem ser percebido as ruas escuras e silenciosas da cidade. Inimigos, vigilantes e cruéis, estavam a conspirar para a sua destruição. Escaparia das ciladas que lhe preparavam? Eram momentos de ansiedade e fervorosas orações. Atingiu uma pequena porta no muro da cidade. Abriu-se-lhe e, com o guia, por ela passou sem impedimento. Uma vez livres do lado de fora, os fugitivos apressaram a fuga e, antes que o

legado soubesse da partida de Lutero, achava-se ele além do alcance de seus perseguidores. Satanás e seus emissários estavam derrotados. O homem que haviam pensado estar em seu poder, tinha-se ido, escapara-se, como um pássaro da armadilha do caçador.

Com as notícias da fuga de Lutero, o legado ficou opresso de surpresa e cólera. Esperara ele receber grande honra por seu tino e firmeza ao tratar com o perturbador da igreja; mas frustrara-se-lhe a esperança. Deu expressão à sua raiva em carta a Frederico, o eleitor da Saxônia, denunciando com amargura a Lutero, e reclamando que Frederico enviasse o reformador a Roma ou que o banisse da Saxônia.

Em sua defesa, Lutero insistia em que o legado do papa lhe mostrasse seus erros pelas Escrituras, e comprometia-se da maneira mais solene a renunciar a suas doutrinas se se pudesse mostrar estarem em desacordo com a Palavra divina. E exprimia sua gratidão a Deus por haver sido considerado digno de sofrer por uma causa tão santa.

O eleitor possuía ainda pouco conhecimento das doutrinas reformadas, mas estava fundamente impressionado pela sinceridade, força e clareza das palavras de Lutero; e, até que se provasse estar o reformador em erro, resolveu Frederico permanecer como seu protetor. Em resposta ao pedido do legado, escreveu: “‘Visto que o Dr. Martinho compareceu perante vós, em Augsburgo, deveríeis estar satisfeito. Não esperávamos que vos esforçásseis por fazê-lo retratar-se sem o haver convencido de seus erros. Nenhum dos homens doutos de nosso principado me informou de que a doutrina de Martinho seja ímpia, anticristã ou herética.’ O príncipe recusou-se, além disso, a enviar Lutero a Roma, ou expulsá-lo de seus domínios.” — D’Aubigné.

O eleitor notara uma ruína geral das restrições morais na sociedade. Era indispensável grande obra de reforma. As complicadas e dispendiosas medidas para restringir e punir o crime seriam desnecessárias se os homens tão-somente reconhecessem e obedecessem à lei de Deus e aos ditames de uma

consciência esclarecida. O eleitor via que Lutero trabalhava para conseguir este objetivo, e secretamente se regozijava de que uma influência melhor se estivesse fazendo sentir na igreja.

Via também que, como professor na Universidade, Lutero tivera extraordinário êxito. Um ano apenas se passara desde que o reformador afixara as teses na igreja do castelo, e no entanto, já havia grande baixa no número de peregrinos que visitavam a igreja na festa de Todos os Santos. Roma fora privada de adoradores e ofertas, mas seu lugar se preenchera por outra classe que agora vinha a Wittenberg, não como peregrinos para adorar suas relíquias, mas como estudantes para encher as suas salas de estudo. Os escritos de Lutero haviam suscitado por toda parte novo interesse nas Escrituras Sagradas, e não somente de todos os recantos da Alemanha, mas de outros países, que congregavam estudantes na Universidade. Moços, chegando à vista de Wittenberg pela primeira vez, “erguiam as mãos ao Céu e louvavam a Deus por ter feito com que desta cidade a luz da verdade resplandecesse como de Sião, nos tempos antigos, e dali se espalhasse mesmo aos mais longínquos países.” — D’Aubigné.

Lutero ainda não estava de todo convertido dos erros do romanismo. Enquanto, porém, comparava as Santas Escrituras com os decretos e constituições papais, enchia-se de espanto. “Estou lendo”, escreveu ele, “os decretos dos pontífices, e ... não sei se o papa é o próprio anticristo, ou seu apóstolo, em tão grande maneira Cristo é neles representado falsamente e crucificado.” — D’Aubigné. No entanto, Lutero nessa ocasião era ainda adepto da Igreja de Roma, e não tinha o pensamento de que em algum tempo se separaria de sua comunhão.

Os escritos e doutrinas do reformador estendiam-se a todas as nações da cristandade. A obra espalhou-se à Suíça e Holanda. Exemplares de seus escritos tiveram ingresso na França e Espanha. Na Inglaterra, seus ensinos eram recebidos como palavras de vida. À Bélgica e Itália também se estendeu a verdade. Milhares estavam a despertar do torpor mortal para a alegria e esperança de uma vida de fé.

O Grande Conflito · Ellen G. White

Passagem bíblica

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