Cristo A Igreja

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Leitura do livro

Atos dos Apóstolos, páginas 181-183

Capítulo 33 — Trabalhando Sob Dificuldades

Embora Paulo fosse cuidadoso em expor perante os conversos o claro ensino das Escrituras referentes ao legítimo sustento da obra de Deus, e embora reclamasse para si mesmo, como ministro do evangelho, o direito de “deixar de trabalhar” (1Co 9:6), em atividades seculares como meio de manutenção própria, todavia em várias ocasiões durante seu ministério nos grandes centros da civilização, dedicou-se a um trabalho manual para tirar sua própria manutenção.

Entre os judeus o trabalho físico não era considerado estranho ou degradante. Por intermédio de Moisés os hebreus haviam sido ensinados a instruir seus filhos em hábitos industriosos; e era considerado como um pecado permitir a um jovem crescer na ignorância do trabalho físico. Mesmo que uma criança devesse ser educada para o ofício divino, o conhecimento da vida prática era considerado essencial. A cada jovem, fossem seus pais ricos ou pobres, era ensinado algum ofício. Os pais que negligenciavam prover tal aprendizado a seus filhos eram olhados como se desviando da instrução do Senhor. De acordo com este costume, Paulo cedo aprendeu o ofício de fabricar tendas.

Antes de se tornar discípulo de Cristo, Paulo ocupava uma alta posição, e não dependia de trabalho manual para se manter. Mais tarde, porém, quando havia usado todas as suas posses na promoção da causa de Cristo, ele recorreu algumas vezes ao ofício para ganhar a manutenção. Este era especialmente o caso quando trabalhava em lugares onde seus motivos pudessem ser malcompreendidos.

É em Tessalônica que pela primeira vez lemos de Paulo trabalhando com suas próprias mãos para manter-se enquanto pregava a Palavra. Escrevendo ao grupo de crentes ali, ele lhes recorda que teria podido ser-lhes “pesado”, e acrescenta: “Porque bem vos lembrais, irmãos, do nosso trabalho e fadiga; pois, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, vos pregamos o evangelho de Deus” (1Ts 2:6, 9). E outra vez, em sua segunda epístola a eles, declara que ele e seus companheiros, enquanto permaneceram com eles, não comeram o pão de nenhum deles “de graça”. Noite e dia trabalhamos, escreveu “para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmo exemplo, para nos imitardes” (2Ts 3:8, 9).

Em Tessalônica Paulo havia encontrado os que se recusavam trabalhar com suas próprias mãos. Foi a respeito desta classe que ele escreveu mais tarde: “Alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que,

trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão.” Enquanto trabalhava em Tessalônica, Paulo havia tido o cuidado de dar a tais pessoas um bom exemplo. “Porque

quando ainda estávamos convosco”, escreveu, “vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também” (2Ts 3:11, 12, 10).

Em cada século Satanás tem procurado prejudicar os esforços dos servos de Deus pela intromissão na igreja do espírito de fanatismo. Assim foi nos dias de Paulo e assim foi também durante o tempo da Reforma. Séculos mais tarde, Wycliffe, Lutero e muitos outros que abençoaram o mundo por sua influência e fé, encontraram as astúcias pelas quais o inimigo busca levar ao fanatismo extremado mentes desequilibradas e não santificadas. Criaturas desorientadas têm ensinado que a conquista da verdadeira santidade coloca a mente acima de todos os pensamentos terrestres, e leva os homens a se absterem inteiramente do trabalho. Outros, interpretando com extremismo determinados textos das Escrituras, têm ensinado que é pecado trabalhar - que os cristãos não devem preocupar-se quanto aos seus interesses temporais e de sua família, mas dedicar sua vida inteiramente às coisas espirituais. Os ensinos e exemplos do apóstolo Paulo são uma reprovação a tais extremismos.

Paulo não dependeu inteiramente do trabalho de suas mãos, para manter-se enquanto esteve em Tessalônica. Referindo-se mais tarde a sua experiência nesta cidade, ele escreveu aos crentes filipenses em reconhecimento dos donativos que deles havia recebido enquanto esteve ali, dizendo: “Porque também uma e outra vez me mandastes o necessário a Tessalônica” (Fp 4:16). Não obstante o fato de haver recebido este auxílio, foi cuidadoso em dar aos tessalonicenses um exemplo de diligência, para que ninguém pudesse com razão acusá-lo de cobiça, e também para que os que mantinham pontos de vistas fanáticos referentes ao trabalho manual recebessem uma reprovação prática.

Quando Paulo visitou Corinto pela primeira vez, encontrou-se entre um povo que punha em suspeição as intenções dos estrangeiros. Os gregos do litoral eram negociantes perspicazes, e por tão longo tempo se haviam dedicado à prática de negócios sinuosos, que chegaram a crer que o ganho era piedade, e que fazer dinheiro, quer por meios lícitos ou ilícitos, era louvável. Paulo estava familiarizado com suas características, e não lhes desejava dar ocasião de dizer que ele pregava o evangelho para enriquecer. Ele podia com justiça reclamar manutenção da parte de seus ouvintes coríntios; mas deste direito se dispunha a abrir mão, com receio de que sua utilidade e sucesso como pastor fossem prejudicados pela suspeita injusta de estar ele pregando o evangelho por ganho. Ele procurava remover toda a oportunidade de mistificação, para que não se perdesse a força da sua mensagem.

Logo após sua chegada a Corinto, Paulo encontrou “um certo judeu por nome Áquila, natural do Ponto, que havia pouco tinha vindo da Itália, e Priscila, sua mulher”. Esses eram “do mesmo ofício” que ele. Banidos pelo decreto de Cláudio, que ordenara que todos os judeus deixassem Roma, Áquila e Priscila tinham vindo para Corinto, onde estabeleceram um negócio como fabricantes de tendas. Paulo fez uma pesquisa com respeito a eles, e ciente de que temiam a Deus e estavam procurando evitar as contaminadoras influências de que estavam cercados, “ficou com eles, e trabalhava... e todos os sábados disputava na sinagoga, e convencia a judeus e gregos” (At 18:2-4).

Mais tarde, Silas e Timóteo se reuniram a Paulo em Corinto. Esses irmãos levavam consigo fundos das igrejas da Macedônia para o sustento da obra.

Em sua segunda carta aos crentes de Corinto, escrita depois de haver erguido ali uma forte igreja, Paulo recordou sua maneira de proceder entre eles. “Pequei porventura”, perguntou ele, “humilhando-me a mim mesmo, para que vós fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei o evangelho de Deus? Outras igrejas despojei eu para vos servir, recebendo delas salário; e quando estava presente convosco, e tinha necessidade, a ninguém fui pesado. Porque os irmãos que vieram da Macedônia supriram a minha necessidade; e em tudo me guardei de vos ser pesado, e ainda me guardarei. Como a verdade de Cristo está em mim, esta glória não me será impedida nas regiões da Acaia” (2Co 11:7-10).

Paulo expõe porque havia assim procedido em Corinto. E que não desejava dar “ocasião aos que buscam ocasião” (2Co 11:12). Enquanto trabalhando na fabricação de tendas, fielmente havia também proclamado o evangelho. Ele próprio declara a respeito de seu trabalho: “Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas.” E acrescenta: “Porque, em que tendes vós sido inferiores às outras igrejas, a não ser que eu mesmo vos não fui pesado? Perdoai-me este agravo. Eis aqui estou pronto para pela terceira vez ir ter convosco, e não vos serei pesado, pois que não busco o que é vosso, mas sim a vós. ... Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas” (2Co 12:12-15).

Durante o longo período de seu ministério em Éfeso, onde promoveu durante três anos uma intensiva campanha evangelística através daquela região, Paulo retornou ao seu ofício. Em Éfeso, como em Corinto, o apóstolo se rejubilou pela presença de Áquila e Priscila, os quais o haviam acompanhado em seu retorno à Ásia ao fim de sua segunda viagem missionária.

Havia alguns que faziam restrição a estar Paulo trabalhando num ofício, sob a alegação de que era incoerente com a obra de um ministro evangélico. Por que deveria Paulo, um ministro da mais alta categoria, assim aliar uma atividade braçal com a pregação da Palavra? Não é o obreiro digno do seu salário? Por que deveria ser gasto na fabricação de tendas o tempo, que, segundo tudo indicava, podia ser empregado com melhor proveito?

Mas Paulo não considerava perdido o tempo assim gasto. Enquanto trabalhava com Áquila, mantinha-se em contato com o grande Mestre, não perdendo oportunidade de dar testemunho do Salvador e de auxiliar a tantos quantos necessitassem de auxílio. Sua mente estava sempre à procura de conhecimento espiritual. A seus coobreiros deu instrução sobre coisas espirituais, e também exemplo de operosidade e inteireza. Era um obreiro hábil e ativo, diligente nos negócios, fervoroso “no espírito, servindo ao Senhor” (Rm 12:11). Enquanto trabalhava em seu ofício, o apóstolo tinha acesso a uma classe de pessoas que de outra maneira não teria podido alcançar. Mostrava aos que a ele estavam unidos que a habilidade nas artes comuns é um dom de Deus, o qual provê tanto o dom como a sabedoria para usá-lo retamente. Ensinava que mesmo nas atividades diárias Deus deve ser honrado.

Atos dos Apóstolos · Ellen G. White

Passagem bíblica

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