Cristo O Caminho

Plano Encontro 1 Dia 79

Dia 79 ▾
Aa
Tamanho Fonte Tema

Leitura do livro

O Desejado de Todas as Nações, páginas 148-151

Jesus continuou: “Sim, que fostes ver? um homem ricamente vestido? Os que trajam ricamente estão na casa dos reis”. Mateus 11:8. João fora chamado a reprovar os pecados e excessos de seu tempo, e seu singelo vestuário e vida abnegada estavam em harmonia com seu caráter e missão. Ricos trajes e os luxos da vida não constituem a porção dos servos de Deus, mas dos que residem “nas casas dos reis”, os dominadores deste mundo, aos quais pertencem seu poder e riquezas. Jesus desejava chamar a atenção para o contraste existente entre o vestuário de João, e o que era usado pelos sacerdotes e líderes. Esses oficiais paramentavam-se com ricas vestimentas e dispendiosos ornamentos. Amavam a ostentação, e esperavam deslumbrar o povo, impondo assim mais consideração. Estavam mais ansiosos de conquistar a admiração dos homens, do que de obter a pureza íntima, que tem a aprovação de Deus. Mostravam assim que sua lealdade não era para com Deus, mas com o reino deste mundo.

“Mas então que fostes ver?” disse Jesus; “um profeta? sim, vos digo Eu, e muito mais do que profeta; porque é este de quem está escrito: “Eis que diante da Tua face envio o Meu anjo, que preparará diante de Ti o Teu caminho. Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista”. Mateus 11:9-11. No anúncio feito a Zacarias, antes do nascimento de João, o anjo declarara: “Será grande diante do Senhor”. Lucas 1:15. Que, em face da maneira de avaliar do Céu, constitui a grandeza? Não o que o mundo considera como tal; não riqueza, nem posição, nem nobreza de linhagem, nem dons intelectuais considerados em si mesmos. Se grandeza intelectual, à parte de qualquer consideração mais elevada, é digna de honra, então Satanás merece nossa homenagem, que suas faculdades intelectuais nenhum homem já igualou. Mas, quando pervertido para o serviço do próprio eu, quanto maior o dom, tanto maior maldição se torna. Valor moral, eis o que é estimado por Deus. Amor e pureza são os atributos que mais aprecia. João era grande aos olhos do Senhor quando, em presença dos emissários do Sinédrio, diante do povo e perante seus próprios discípulos, se absteve de buscar honra para si, mas encaminhou todos para Jesus como o Prometido. Sua desinteressada alegria no ministério de Cristo, apresenta o mais elevado tipo de nobreza já revelado em homem.

O testemunho dado a seu respeito, depois de morto, pelos que o ouviram testificar de Jesus, foi: “João não fez sinal algum, mas tudo quanto João disse dEste era verdade”. João 10:41. Não foi concedido ao Batista fazer cair fogo do Céu, ou ressuscitar um morto, como fizera Elias, ou empunhar a vara do poder de Moisés em nome de Deus. Foi enviado para anunciar o advento do Salvador, e chamar o povo a preparar-se para Sua vinda. Tão fielmente cumpriu ele sua missão, que, ao recordar o povo o que lhes ensinara a respeito de Jesus, podiam dizer: “Tudo quanto

João disse dEste era verdade.” Um testemunho assim todo discípulo de Cristo é chamado a dar de seu Mestre.

Como precursor do Messias, João era “muito mais do que profeta”. Pois ao passo que os profetas haviam visto de longe o advento de Cristo, a João foi dado contemplá-Lo, ouvir do Céu o testemunho de Sua messianidade, e apresentá-Lo a Israel como o Enviado de Deus. Todavia, Jesus disse: “Aquele que é o menor no reino dos Céus é maior do que ele”. Mateus 11:11.

O profeta João foi o elo que ligou as duas dispensações. Como representante de Deus, apresentou-se para mostrar a relação da lei e dos profetas para com a dispensação cristã. Era a luz menor, que havia de ser seguida por outra maior. A mente de João era iluminada pelo Espírito Santo, a fim de que projetasse luz sobre seu povo; nenhuma outra luz, porém, nunca brilhou nem jamais brilhará tão claramente sobre os caídos homens, como a que emanou dos ensinos e exemplos de Jesus. Cristo e Sua missão, segundo eram tipificados nos sacrifícios simbólicos, não foram compreendidos senão muito vagamente. O próprio João não entendera plenamente a vida futura e imortal mediante o Salvador.

Exceto a alegria que João encontrara em sua missão, sua existência foi de dores. Raras vezes fora sua voz ouvida a não ser no deserto. O isolamento foi a sorte que lhe coube. E não lhe foi dado ver os frutos de seus labores. Não teve o privilégio de estar com Cristo, e testemunhar a manifestação de poder divino que acompanhava a maior luz. Não lhe foi concedido ver o cego utilizando a visão, o enfermo restabelecido e o morto ressuscitado. Não contemplou a luz que irradiava de cada palavra de Cristo, derramando glória sobre as promessas da profecia. O menor discípulo que viu as poderosas obras de Cristo, e Lhe ouviu as palavras, foi, nesse sentido, mais altamente privilegiado que João Batista e, portanto, diz-se ter sido maior do que ele.

Através das vastas multidões que haviam escutado as pregações de João, sua fama espalhara-se pela terra. Profundo era o interesse sentido quanto ao resultado de sua prisão. Mas sua vida irrepreensível, e o forte sentimento público em seu favor levavam a crer que nenhuma medida violenta seria tomada contra ele.

Herodes acreditava que João era profeta de Deus, e tinha toda a intenção de o pôr em liberdade. Adiava, porém, seu desígnio, por temor de Herodias.

Herodias sabia que, por meios diretos, nunca poderia obter o consentimento de Herodes para a morte de João, e resolveu realizar seu intento por meio de estratagema. No dia do aniversário do rei, devia ser oferecida uma festa aos funcionários do Estado e aos nobres da corte. Haveria banquete e bebedice. Herodes ficaria assim sem o natural controle, podendo ser então influenciado segundo a vontade dela.

Ao chegar o grande dia, e estar o rei se banqueteando e bebendo com seus grandes, Herodias mandou sua filha à sala do banquete para dançar a fim de entreter os convivas. Salomé estava no viço da juventude, e sua voluptuosa beleza cativou os sentidos dos nobres comensais. Não era costume que as senhoras da corte aparecessem nessas festividades, e foi prestada a Herodes lisonjeira homenagem, quando essa filha de sacerdotes e príncipes de Israel dançou para entretenimento de seus convidados.

O rei estava perturbado pelo vinho. A razão foi destronada e a paixão tomou o comando. Viu unicamente a sala de prazer, com os divertidos hóspedes, a mesa do banquete, o vinho cintilante, o brilho das luzes e a jovem que dançava diante dele. No impulso do momento, desejou fazer qualquer exibição que o exaltasse diante dos grandes do reino. Com juramento, prometeu dar à filha de Herodias fosse o que fosse que ela pedisse, até mesmo a metade do reino.

Salomé correu para a mãe, a fim de saber o que devia pedir. A resposta estava pronta — a cabeça de João Batista. Salomé desconhecia a sede de vingança que havia no coração da mãe, e recuou ante a idéia de apresentar esse pedido; a decisão de Herodias prevaleceu, porém. A menina voltou com a terrível petição: “Dá-me aqui num prato a cabeça de João Batista”. Mateus 14:8.

Herodes ficou atônito e confundido. Cessou a ruidosa festa, e um sinistro silêncio baixou sobre a cena de orgia. O rei sentiu-se tomado de horror ante a idéia de tirar a vida de João. No entanto, sua palavra estava empenhada, e não queria parecer inconstante ou precipitado. O juramento fora feito em honra dos hóspedes, e se um deles houvesse proferido uma palavra contra o cumprimento da promessa, de boa vontade teria poupado o profeta. Deu-lhes oportunidade de falar em favor do preso. Eles haviam caminhado longas distâncias para ouvir a pregação de João, e sabiam ser ele homem isento de crime, e servo de Deus. Mas, conquanto chocados com o pedido da jovem, estavam demasiado embrutecidos para fazer qualquer objeção. Voz alguma se ergueu para salvar a vida do mensageiro do Céu. Estes homens ocupavam altas posições de confiança na nação, e sobre eles pesavam sérias responsabilidades; tinham-se, no entanto, entregue a comer e a beber até que os sentidos lhes ficaram embotados. Transtornou-se-lhes o cérebro com a estonteante cena de música e dança, e a consciência jazia adormecida. Com seu silêncio, proferiram a sentença de morte contra o profeta de Deus, para satisfazer a vingança de uma mulher depravada.

Herodes em vão esperou para ser libertado do juramento; então, relutantemente, ordenou a execução do profeta. Em breve a cabeça do Batista foi levada perante o rei e os hóspedes. Selados estavam para sempre aqueles lábios que fielmente advertiram Herodes para se desviar da vida de pecado. Nunca mais se ouviria aquela voz, chamando os homens

ao arrependimento. A orgia de uma noite custaria a vida de um dos maiores profetas.

Oh! quantas vezes tem a vida de um inocente sido sacrificada em razão da intemperança dos que deviam ter sido os guardas da justiça! Aquele que leva aos lábios a taça intoxicante, torna-se responsável por toda injustiça que possa cometer sob sua embrutecedora influência. Entorpecendo os sentidos, torna a si mesmo impossível julgar serenamente ou ter clara percepção do direito e do erro. Abre a Satanás o caminho para operar por meio dele em oprimir e destruir o inocente. “O vinho é escarnecedor, e a bebida forte alvoroçadora; e todo aquele que neles errar nunca será sábio”. Provérbios 20:1. É por isso que “o juízo se tornou atrás, [...] e quem se desvia do mal arrisca-se a ser despojado”. Isaías 59:14, 15. Aqueles que têm jurisdição sobre a vida de seus semelhantes, deveriam ser considerados culpados de um crime quando se entregam à intemperança. Todos quantos executam as leis, devem ser observadores das mesmas. Cumpre-lhes ser homens de domínio próprio. Precisam ter inteiro controle sobre suas faculdades físicas, mentais e morais, a fim de possuírem vigor intelectual e elevado senso de justiça.

A cabeça de João Batista foi levada a Herodias, que a recebeu com infernal satisfação. Exultou em sua vingança, e lisonjeou-se de que não mais a consciência de Herodes seria perturbada. Nenhuma felicidade, porém, lhe adveio de seu pecado. Seu nome tornou-se notório e aborrecido, ao passo que Herodes foi mais atormentado pelo remorso do que o havia sido pelas advertências do profeta. A influência dos ensinos de João não emudeceu; ela se devia estender a cada geração até ao fim dos séculos.

O pecado de Herodes estava sempre diante dele. Buscava constantemente alívio às acusações da consciência culpada. Sua confiança em João ficou inabalável. Ao recordar-lhe a vida de abnegação, seus solenes e fervorosos apelos, seu são juízo no conselho, e lembrar então de como morrera, Herodes não podia encontrar sossego. Empenhado nos negócios do Estado, recebendo honras dos homens, apresentava rosto sorridente e aspecto de dignidade, ao passo que ocultava o coração ansioso, sempre oprimido pelo temor de que pesava sobre ele uma maldição.

Herodes ficara profundamente impressionado pelas palavras de João, de que não se pode ocultar coisa alguma a Deus. Estava convencido de que Ele Se acha presente em todo lugar, que testemunhara a orgia na sala do banquete, ouvira a ordem de degolar a João, e vira Herodias exultante, e os insultos que proferira para a decapitada cabeça de seu reprovador. E muitas coisas que Herodes ouvira dos lábios do profeta falavam-lhe agora à consciência mais distintamente do que fizera a pregação no deserto.

Quando Herodes ouviu falar das obras de Cristo, sentiu-se imensamente perturbado. Pensou que Deus ressuscitara a João, e o enviara ainda com mais poder para condenar o pecado. Vivia em constante temor de

O Desejado de Todas as Nações · Ellen G. White

Passagem bíblica

Abrir em sua própria página