Cristo Nossa Redenção

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Patriarcas e Profetas, páginas 539-540

será até certo ponto removido, das forças do mal, de modo que surgirá um séquito de circunstâncias que castigará o pecado com o pecado.

Os maus resultados da injusta condescendência de Davi para com Amnom não estavam terminados; pois agora é que começou o afastamento de Absalão, de seu pai. Depois que ele fugiu a Gesur, Davi, compreendendo que o crime de seu filho exigia algum castigo, recusou-lhe permissão para voltar. E isto teve como resultado aumentar em vez de diminuir o emaranhado de males em que o rei viera a ficar envolto. Absalão, enérgico, ambicioso e sem escrúpulos, excluído pelo seu exílio da participação nos negócios do reino, logo se deu a formular planos perigosos.

No fim de dois anos, Joabe resolveu efetuar a reconciliação entre o pai e o filho. E com este objetivo em vista conseguiu os serviços de uma mulher de Tecoa, afamada pela sua sabedoria. Instruída por Joabe, a mulher se fez passar a Davi por uma viúva, cujos dois filhos tinham sido sua única consolação e apoio. Em uma rixa, um destes matou o outro, e agora todos os parentes da família exigiam que o sobrevivente fosse entregue ao vingador do sangue. “Assim”, disse a mãe, “apagarão a brasa que me ficou, de sorte que não deixam a meu marido nome, nem resto sobre a Terra”. 2 Samuel 14:7. Os sentimentos do rei foram tocados com esse apelo, e ele assegurou à mulher a proteção real para seu filho.

Depois de arrancar dele repetidas promessas pela segurança do jovem, impetrou a clemência do rei, declarando que ele falara como alguém em falta, por não ter mandado buscar de volta para casa o seu exilado. “Porque”, disse ela, “certamente morreremos, e seremos como águas derramadas na terra, que não se ajuntam mais: Deus, pois, lhe não tirará a vida, mas ideará pensamentos, para que se não desterre dEle o Seu desterrado”. 2 Samuel 14:14. Este quadro terno e tocante do amor de Deus para com o pecador, vindo, como veio, de Joabe, o rude soldado, é uma prova notável da familiaridade dos israelitas com as grandes verdades da redenção. O rei, sentindo sua própria necessidade da misericórdia de Deus, não pôde resistir a este apelo. A Joabe foi dada a ordem: “Vai, pois, e torna a trazer o mancebo Absalão.”

A Absalão foi permitido voltar a Jerusalém, mas não para comparecer à corte, ou encontrar seu pai. Davi tinha começado a ver os maus efeitos de sua condescendência para com os filhos; e embora amasse com ternura esse belo e prendado filho, achou necessário que, como uma lição tanto a Absalão como ao povo, fosse manifesta aversão por esse crime. Absalão viveu dois anos em sua própria casa, mas banido da corte. Sua irmã morava com ele, e sua presença conservava viva a lembrança do mal irreparável que sofrera. Na apreciação popular, o príncipe era um herói, em vez de um transgressor. E, tendo esta vantagem, pôs-se a conquistar o coração do povo. Sua aparência pessoal era de tal maneira que captava a admiração de todos os que o viam. “Não havia, porém, em todo o Israel

homem tão belo e tão aprazível como Absalão; desde a planta do pé até à cabeça não havia nele defeito algum”. 2 Samuel 14:21, 25. Não era prudente, da parte do rei, deixar um homem do caráter de Absalão — ambicioso, impulsivo e apaixonado — a acalentar durante dois anos supostas ofensas. E o ato de Davi, permitindo-lhe voltar a Jerusalém e contudo recusando-se a admiti-lo em sua presença, alistou as simpatias do povo a seu favor.

Tendo sempre diante de si a lembrança de sua própria transgressão à lei de Deus, Davi parecia moralmente paralisado; era fraco e irresoluto, quando antes de seu pecado era corajoso e decidido. Sua influência junto ao povo se havia enfraquecido. E tudo isto favorecia os planos de seu filho desnaturado.

Mediante a influência de Joabe, Absalão foi de novo admitido à presença de seu pai; mas, embora houvesse uma reconciliação externa, continuou ele com seus projetos ambiciosos. Assumiu agora uma condição quase régia, tendo carros e cavalos, e cinqüenta homens para correrem diante dele. E, enquanto o rei mais e mais se inclinava a desejar o retiro e a solidão, Absalão cortejava assiduamente o favor popular.

A influência da indiferença e irresolução de Davi estendeu-se a seus subordinados; a negligência e a demora caracterizavam a administração da justiça. Absalão ardilosamente mudava cada causa de descontentamento em proveito próprio. Dia após dia este homem de semblante nobre podia ser visto à porta da cidade, onde uma multidão de suplicantes esperava a fim de apresentar suas queixas e receber justiça. Absalão misturava-se com eles, e escutava seus agravos, exprimindo simpatia pelos seus sofrimentos, e pesar pela ineficiência do governo. Tendo assim ouvido a história de um homem de Israel, o príncipe replicava: “Os teus negócios são bons e retos, porém não tens quem te ouça da parte do rei”; e acrescentava: “Ah, quem me dera ser juiz na Terra! para que viesse a mim todo homem que tivesse demanda ou questão, para que lhe fizesse justiça. Sucedia também que, quando alguém se achegava a ele para se inclinar diante dele, ele estendia a sua mão, e pegava dele, e o beijava.”

Fomentado pelas artificiosas insinuações do príncipe, o descontentamento com o governo estava-se espalhando rapidamente. O elogio a Absalão estava nos lábios de todos. Era geralmente considerado como herdeiro do reino; o povo olhava para ele com orgulho, como sendo digno deste elevado cargo, e acendeu-se o desejo de que ele ocupasse o trono.

“Assim furtava Absalão o coração dos homens de Israel”. 2 Samuel 15:4-6. No entanto, o rei, cego pelo afeto para com seu filho, de nada suspeitava. A condição principesca que Absalão havia assumido, era considerada por Davi como tendo em vista honrar a sua corte, ou seja, como uma expressão de alegria pela reconciliação.

Estando preparada a mente do povo para o que havia de seguir-se, Absalão secretamente enviou homens escolhidos por todas as tribos, a

Patriarcas e Profetas · Ellen G. White

Passagem bíblica

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