Cristo Nossa Redenção
Plano Encontro 3 Dia 330
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Leitura do livro
Patriarcas e Profetas, páginas 516-518
Finalmente a traição subverteu o trono que a malícia e a ambição estabeleceram. Abner, enchendo-se de ira contra o fraco e incompetente Isbosete, desertou para o lado de Davi, com o oferecimento de lhe trazer todas as tribos de Israel. Suas propostas foram aceitas pelo rei, e ele foi despedido com honra para cumprir o seu propósito. Mas a recepção favorável de tão valente e famoso guerreiro provocou a inveja de Joabe, o comandante-geral do exército de Davi. Havia uma dissensão mortal entre Abner e Joabe, tendo o primeiro morto a Asael, irmão de Joabe, durante a guerra entre Israel e Judá. Agora Joabe, vendo uma oportunidade para vingar a morte de seu irmão, e livrar-se de um que seria seu rival, aproveitou-se vilmente da ocasião para armar cilada a Abner e matá-lo.
Davi, ouvindo falar deste traiçoeiro assalto, exclamou: “Inocente sou eu, e o meu reino, para com o Senhor, para sempre, do sangue de Abner, filho de Ner. Fique-se sobre a cabeça de Joabe e sobre toda a casa de seu pai”. 2 Samuel 3:28, 29. Em vista da condição incerta do reino, e do poderio e cargo dos assassinos — pois que o irmão de Joabe, Abisai, estivera unido com ele — Davi não pôde punir o crime com o justo castigo; contudo, manifestou publicamente sua aversão àquela cena de sangue. O sepultamento de Abner foi acompanhado de honras públicas. Exigiu-se que o exército, com Joabe à sua frente, tomasse parte nos atos de lamentação, com vestes rotas e vestidos de saco. O rei manifestou sua dor, observando um jejum no dia do sepultamento; acompanhou o séquito fúnebre como o principal pranteador; e junto à sepultura pronunciou uma homenagem que era uma censura cortante aos assassinos. E o rei, pranteando a Abner, disse: “Não morreu Abner como morre o vilão? As tuas mãos não estavam atadas, nem os teus pés carregados de grilhões de bronze, mas caíste como os que caem diante dos filhos da maldade!” 2 Samuel 3:33, 34.
O magnânimo reconhecimento por parte de Davi, com relação a um que fora seu inimigo atroz, conquistou a confiança e a admiração de todo o Israel. “O que todo o povo entendendo, pareceu bem aos seus olhos, assim como tudo quanto o rei fez pareceu bem aos olhos de todo o povo. E todo o povo e todo Israel entenderam naquele mesmo dia que não procedera do rei que matassem a Abner, filho de Ner.”
No círculo particular dos conselheiros e assistentes que lhe mereciam confiança, o rei falou do crime, e reconhecendo sua própria incapacidade de punir os assassinos como o desejava, entregou-os à justiça de Deus: “Não sabeis que hoje caiu em Israel um príncipe e um grande? Que eu ainda sou tenro, ainda que ungido rei; estes homens, filhos de Zeruia, são mais duros do que eu. O Senhor pagará ao malfeitor conforme a sua maldade”. 2 Samuel 3:36-39.
Abner tinha sido sincero em seus oferecimentos e representações a Davi; todavia seus intuitos eram vis e egoístas. Opusera-se persistentemente ao rei por Deus designado, na expectativa de conseguir honra
para si. Era o ressentimento, o orgulho ferido, e a paixão o que o levou a abandonar a causa que durante tanto tempo havia servido; e, desertando para o lado de Davi, esperava receber a mais alta posição de honra ao seu serviço. Se ele tivesse sido bem-sucedido em seu propósito, seus talentos e ambição, sua grande influência e falta de piedade teriam feito perigar o trono de Davi e a paz e a prosperidade da nação.
“Ouvindo pois o filho de Saul que Abner morrera em Hebrom, as mãos se lhe afrouxaram; e todo o Israel pasmou”. 2 Samuel 4:1. Era evidente que o reino não poderia manter-se por muito tempo. Logo outro ato de traição completou a queda do poder decadente. Isbosete foi miseravelmente assassinado por dois de seus capitães, os quais, decepando-lhe a cabeça, levaram-na apressadamente ao rei de Judá, esperando assim captar o seu favor.
Compareceram perante Davi com a sangrenta testemunha de seu crime, dizendo: “Eis aqui a cabeça de Isbosete, filho de Saul, teu inimigo, que te procurava a morte; assim o Senhor vingou hoje ao rei meu senhor de Saul e da sua semente.” Mas Davi, cujo trono o próprio Deus estabelecera, e a quem Deus livrara de seus adversários, não desejava o auxílio da traição para estabelecer seu poderio. Contou aos assassinos a condenação que atingira aquele que se vangloriou de matar Saul. “Quanto mais”, acrescentou ele, “a ímpios homens, que mataram um homem justo em sua casa, sobre a sua cama; agora, pois, não requereria eu o seu sangue de vossas mãos, e não vos exterminaria da Terra? E deu Davi ordem aos seus mancebos que os matassem. [...] Tomaram, porém, a cabeça de Isbosete, e a sepultaram na sepultura de Abner, em Hebrom”. 2 Samuel 4:11, 12.
Depois da morte de Isbosete, houve um desejo geral entre os principais homens de Israel de que Davi fosse rei de todas as tribos. “Então todas as tribos de Israel vieram a Davi, a Hebrom, e falaram, dizendo: Eis-nos aqui, teus ossos e tua carne somos.” Declararam: “Eras tu o que saías e entravas com Israel; e também o Senhor te disse: Tu apascentarás o Meu povo de Israel, e tu serás chefe sobre Israel. Assim, pois, todos os anciãos de Israel vieram ao rei, a Hebrom; e o rei Davi fez com eles aliança em Hebrom, perante o Senhor”. 2 Samuel 5:1-3. Assim, pela providência de Deus, abrira-se-lhe o caminho para ir ao trono. Ele não tinha nenhuma ambição pessoal a satisfazer, pois não procurara a honra a que fora levado.
Mais de oito mil dos descendentes de Arão, e dos levitas, serviam a Davi. A mudança nos sentimentos do povo foi assinalada e decisiva. A revolução foi silenciosa e digna, adaptada à grande obra que estavam a fazer. Quase meio milhão de almas, os anteriores súditos de Saul, congregaram-se em Hebrom e arredores. As próprias colinas e vales pareciam vivas com as multidões. A hora da coroação foi designada; o homem que fora expulso da corte de Saul, que fugira às montanhas e colinas e às cavernas da terra, a fim de preservar a vida, estava prestes a receber a mais alta honra que ao homem pode ser conferida por seus semelhantes.
Sacerdotes e anciãos, vestidos nos trajes de seu ofício sagrado; oficiais e soldados com lanças e capacetes resplandecentes; e estrangeiros, de longas distâncias, ali se achavam para assistirem à coroação do rei eleito. Davi estava vestido com os trajes reais. O óleo sagrado foi-lhe posto sobre a fronte pelo sumo sacerdote; pois a unção feita por Samuel fora profética em relação ao que teria lugar no início das funções do rei. Chegado era o tempo, e Davi, mediante uma cerimônia solene, foi consagrado para o seu ofício como representante de Deus. O cetro foi-lhe posto nas mãos. O concerto de sua justa soberania foi escrito, e o povo apresentou seus compromissos de fidelidade. Colocou-se-lhe na fronte o diadema, e estava terminada a cerimônia da coroação. Israel tinha um rei de indicação divina. Aquele que tinha esperado pacientemente pelo Senhor, viu cumprida a promessa de Deus. “E Davi se ia cada vez mais aumentando e crescendo, porque o Senhor Deus dos exércitos era com ele”. 2 Samuel 5:10.
Patriarcas e Profetas · Ellen G. White