Cristo Nossa Redenção

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Patriarcas e Profetas, páginas 501-505

por isso, o Senhor te fez hoje isso. E o Senhor entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus”. 1 Samuel 28:16-19.

Em toda a sua conduta de rebelião, Saul fora lisonjeado e iludido por Satanás. É a obra do tentador fazer do pecado coisa insignificante, tornar o caminho da transgressão fácil e convidativo, cegar a mente às advertências e ameaças do Senhor. Satanás, pelo seu poder sedutor, levara Saul a justificar-se em desafio às reprovações e advertências de Samuel. Mas agora, em sua situação extrema, voltou-se a ele, apresentando a enormidade de seu pecado e a desesperança de perdão, para que o oprimisse até o ponto de chegar ao desespero. Nada poderia ter sido melhor escolhido para lhe destruir o ânimo e confundir o juízo, ou para o impelir ao desespero e destruição de si mesmo.

Saul estava debilitado pelo cansaço e jejum; estava aterrorizado e com a consciência ferida. Caindo a terrível predição aos seus ouvidos, o corpo cambaleou como um carvalho diante da tempestade, e caiu prostrado por terra.

A bruxa encheu-se de espanto. O rei de Israel jazia perante ela como morto. Caso ele perecesse em seu retiro, quais seriam as conseqüências para ela? Suplicou-lhe que se levantasse e tomasse alimento, insistindo que, visto haver corrido perigo de vida para lhe satisfazer o desejo, deveria ele ceder ao seu pedido, para a preservação de sua própria vida. Rogando-lhe o mesmo os seus servos, Saul cedeu finalmente e a mulher pôs diante dele a bezerra cevada, e bolos asmos preparados à pressa. Que cena! Na rústica caverna da feiticeira, em que poucos momentos antes haviam ecoado palavras de condenação, na presença do mensageiro de Satanás, aquele que fora ungido por ordem de Deus como rei sobre Israel sentava-se para comer, preparando-se para a luta mortífera do dia.

Antes do romper do dia voltou com seus auxiliares ao acampamento de Israel, para dispor-se ao conflito. Consultando aquele espírito das trevas, Saul destruíra a si mesmo. Opresso pelo terror do desespero, ser-lhe-ia impossível inspirar coragem ao seu exército. Separado da Fonte de força, não poderia guiar as mentes de Israel a olharem a Deus como seu auxiliador. Assim a predição de males operaria o seu próprio cumprimento.

Na planície de Suném e nas encostas do Monte Gilboa, os exércitos de Israel e as hostes dos filisteus empenharam-se em combate mortal. Embora a cena terrível na caverna de En-Dor lhe tivesse repelido do coração toda a esperança, Saul combateu com arrojada bravura em favor de seu trono e de seu reino. Mas foi em vão. “Os homens de Israel fugiram de diante dos filisteus, e caíram atravessados na montanha de Gilboa.” Três bravos filhos do rei morreram ao seu lado. Os flecheiros apertaram Saul. Tinha visto seus soldados caírem em redor de si, e seus filhos príncipes cortados pela espada. Ele próprio, estando ferido, não podia nem combater nem fugir. Escapar era impossível; e, resolvido a não ser tomado vivo pelos filisteus, ordenou a seu pajem de armas: “Arranca a tua

espada, e atravessa-me com ela”. 1 Samuel 31:1, 4. Recusando-se o homem a erguer a mão contra o ungido do Senhor, Saul tirou sua própria vida, lançando-se sobre a espada.

Assim pereceu o primeiro rei de Israel, com o crime de suicídio em sua alma. A vida fora-lhe um fracasso, e sucumbira com desonra e em desespero, porque pusera sua vontade própria e perversa contra a vontade de Deus.

A notícia da derrota espalhou-se larga e extensamente, levando o terror a todo o Israel. O povo fugia das cidades, e os filisteus tomavam posse destas, sem serem incomodados nisso. O reino de Saul, independente de Deus, se tinha quase mostrado a ruína de seu povo.

No dia seguinte ao da luta, os filisteus, examinando o campo da batalha para roubar aos mortos, descobriram os corpos de Saul e de seus três filhos. Para completarem seu triunfo, deceparam a cabeça de Saul e o despojaram de suas armas; então a cabeça e a armadura, exalando o cheiro de sangue, foram enviadas ao país dos filisteus como troféu de vitória, “a anunciá-lo no templo dos seus ídolos e entre o povo”. A armadura finalmente foi posta no “templo de Astarote”, enquanto a cabeça foi fixa no templo de Dagom. Assim a glória da vitória foi atribuída ao poder desses falsos deuses, e o nome de Jeová foi desonrado.

Os cadáveres de Saul e seus filhos foram arrastados a Bete-Seã, cidade não distante de Gilboa, e próxima do rio Jordão. Ali foram suspensos com correntes, para serem devorados pelas aves de rapina. Mas os bravos homens de Jabes-Gileade, lembrando-se do livramento de sua cidade por Saul, em seus primeiros e felizes anos, manifestaram agora sua gratidão, retirando os corpos do rei e dos príncipes, e dando-lhes honrosa sepultura. Atravessando o Jordão à noite, “tiraram o corpo de Saul e os corpos de seus filhos do muro de Bete-Se e, vindo a Jabes os queimaram e tomaram os seus ossos, e os sepultaram debaixo de um arvoredo, em Jabes, e jejuaram sete dias”. 1 Samuel 31:9-13. Assim a nobre ação, praticada quarenta anos antes, assegurou a Saul e seus filhos o sepultamento por mãos ternas e piedosas, na hora tenebrosa da derrota e desonra.

Capítulo 67 — Feitiçaria antiga e moderna

O relato escriturístico da visita de Saul à mulher de En-Dor, tem sido uma fonte de perplexidade a muitos estudiosos da Bíblia. Há alguns que assumem a posição de que Samuel estava efetivamente presente na entrevista com Saul; mas a própria Bíblia oferece base suficiente para uma conclusão contrária. Se, como alguns pretendem, Samuel estava no Céu, ele deveria ter sido chamado dali, ou pelo poder de Deus, ou pelo de Satanás. Ninguém poderá crer por um momento sequer que Satanás tivesse poder para chamar do Céu o santo profeta de Deus para honrar os enganos de uma mulher perdida. Tampouco podemos concluir que Deus o chamasse à caverna da feiticeira; pois o Senhor já Se havia recusado a comunicar-Se com Saul, por meio de sonhos, por Urim, ou por profetas. 1 Samuel 28:6. Tais eram os meios indicados por Deus para a comunicação, e Ele os não preteriria para transmitir a mensagem pela operação de Satanás.

A própria mensagem traz prova suficiente de sua origem. Seu objetivo não foi levar Saul ao arrependimento, mas impeli-lo à ruína; e isto não é a obra de Deus, mas a de Satanás. Ademais, o ato de Saul ao consultar uma pitonisa é citado nas Escrituras como um motivo por que ele foi rejeitado por Deus e abandonado à destruição: “Morreu Saul por causa da sua transgressão com que transgrediu contra o Senhor, por causa da palavra do Senhor, a qual não havia guardado; e também porque buscou a adivinhadora para a consultar. E não buscou ao Senhor, pelo que o matou, e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé”. 1 Crônicas 10:13, 14. Aqui declara-se distintamente que Saul consultou o espírito de adivinhação, e não ao Senhor. Ele não se comunicou com Samuel, o profeta de Deus; mas, mediante a feiticeira, entreteve comunicação com Satanás. Este não podia apresentar o verdadeiro Samuel, mas apresentou um falsificado, que serviu ao seu objetivo de enganar.

Quase todas as formas da antiga feitiçaria e encantamentos baseavam-se na crença da comunicação com os mortos. Aqueles que praticavam as artes da necromancia pretendiam ter relações com os espíritos dos mortos, e obter por meio deles conhecimento de acontecimentos futuros. A este costume de consultar os mortos se faz referência na profecia de Isaías: “Quando vos disserem: Consultai os que têm espíritos familiares e

os adivinhos, que chilreiam e murmuram entre dentes; — não recorrerá um povo ao seu Deus? a favor dos vivos interrogar-se-ão os mortos?” Isaías 8:19.

Essa mesma crença na comunicação com os mortos formou a pedra fundamental da idolatria gentílica. Os deuses dos gentios acreditava-se que eram os espíritos deificados dos heróis mortos. Assim a religião dos gentios era um culto aos mortos. Isto se evidencia pelas Escrituras. No relato do pecado de Israel em Bete-Peor, declara-se: “E Israel deteve-se em Sitim, e o povo começou a prostituir-se com as filhas dos moabitas. E convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu, e inclinou-se aos seus deuses. Juntando-se pois Israel a Baal-Peor”. Números 25:1-3. O salmista nos diz a que espécie de deuses estes sacrifícios eram oferecidos. Falando da mesma apostasia dos israelitas, diz ele: “Juntaram-se com Baal-Peor, e comeram os sacrifícios dos mortos“, isto é, sacrifícios que tinham sido oferecidos aos mortos. Salmos 106:28.

A deificação dos mortos tem tido lugar preeminente em quase todo sistema de paganismo, como também tem a suposta comunicação com os mortos. Acreditava-se que os deuses comunicavam sua vontade aos homens, e davam-lhes também conselhos, quando consultados. Desta natureza eram os famosos oráculos da Grécia e de Roma.

A crença na comunicação com os mortos é ainda mantida, mesmo nos países professos cristãos. Sob o nome de Espiritismo, a prática de comunicar-se com os seres que pretendem ser os espíritos dos mortos, tem-se espalhado largamente. É ela calculada a ganhar as simpatias daqueles que depuseram seus queridos na sepultura. Seres espirituais algumas vezes aparecem a pessoas sob a forma de seus amigos falecidos, e relatam incidentes ligados com sua vida, e efetuam atos que realizavam quando vivos. Deste modo levam os homens a crerem que seus amigos mortos são anjos que pairam sobre eles, e com eles se comunicam. Aqueles que assim pretendem ser espíritos dos mortos, são considerados com certa idolatria, e para muitos sua palavra tem maior valor do que a Palavra de Deus.

Muitos há contudo, que consideram o espiritismo como um simples engano. As manifestações pelas quais ele apóia suas pretensões a um caráter sobrenatural, são atribuídas à fraude por parte do médium. Mas, conquanto seja verdade que os resultados da velhacaria tenham sido muitas vezes apresentados como manifestações genuínas, tem havido também provas notáveis de poder sobrenatural. E muitos que rejeitam o espiritismo como resultado da esperteza ou astúcia humana, quando defrontados com manifestações que não possam explicar sob este ponto de vista, serão levados a reconhecer suas pretensões.

O espiritismo moderno, e as formas da antiga feitiçaria e adoração de ídolos — tendo todos a comunicação com os mortos como seu princípio vital — fundam-se naquela primeira mentira pela qual Satanás seduziu Eva no Éden: “Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em

que dele comerdes [...] sereis como Deus”. Gênesis 3:4, 5. Baseados na falsidade e perpetuando esta, são semelhantemente oriundos do pai da mentira.

Aos hebreus era expressamente proibido empenhar-se, sob qualquer forma, em pretensa comunicação com os mortos. Deus fechou eficazmente esta porta quando disse: “Os mortos não sabem coisa nenhuma. [...] E já não têm parte alguma neste século, em coisa alguma do que se faz debaixo do Sol”. Eclesiastes 9:5, 6. “Sai-lhes o espírito, e eles tornam-se em sua terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos”. Salmos 146:4. E o Senhor declarou a Israel: “Quando uma alma se virar para os adivinhadores e encantadores, para se prostituir após deles, Eu porei a Minha face contra aquela alma, e a extirparei do meio do seu povo”. Levítico 20:6.

Os “espíritos familiares” não eram espíritos dos mortos, mas anjos maus, mensageiros de Satanás. A antiga idolatria, que, como vimos, compreende tanto o culto aos mortos como a pretensa comunicação com eles, declara-se na Bíblia ter sido culto aos demônios. O apóstolo Paulo advertindo seus irmãos contra o participarem de qualquer maneira da idolatria de seus vizinhos pagãos, diz: “As coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quero que sejais participantes com os demônios”. 1 Coríntios 10:20. O salmista, falando de Israel, diz que “sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demônios”; e no versículo seguinte explica que os sacrificaram “aos ídolos de Canaã”. Salmos 106:37, 38. Em seu suposto culto aos mortos, estavam na realidade adorando demônios.

O espiritismo moderno, repousando sobre a mesma base, não é senão um reavivamento, sob uma nova forma, da feitiçaria e culto aos demônios que Deus condenou e proibiu na antiguidade. Acha-se ele predito nas Escrituras, que declaram que “nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios”. 1 Timóteo 4:1. Paulo, em segunda carta aos tessalonicenses, indica a operação especial de Satanás pelo espiritismo, como um acontecimento a ocorrer imediatamente antes do segundo advento de Cristo. Falando da segunda vinda de Cristo, declara que ela é “segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira”. 2 Tessalonicenses 2:9. E Pedro, descrevendo os perigos a que a igreja estaria exposta nos últimos dias, diz que, assim como houve falsos profetas que levaram Israel ao pecado, haverá falsos ensinadores “que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou. [...] E muitos seguirão as suas dissoluções”. 2 Pedro 2:1, 2. Aqui o apóstolo indicou uma das mais assinaladas características dos ensinadores espíritas. Eles se recusam a reconhecer a Cristo como o Filho de Deus. Com relação a tais instrutores o amado João declara: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho. Qualquer que nega o Filho, também não tem o Pai”. 1 João 2:22, 23. O espiritismo, negando a Cristo, nega tanto ao Pai como ao Filho, e a Bíblia denuncia-o como manifestações do anticristo.

Patriarcas e Profetas · Ellen G. White

Passagem bíblica

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