Cristo A Igreja

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Leitura do livro

Atos dos Apóstolos, páginas 164-166

Paulo, “que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio” (1Co 9:24). Não importa com quanto entusiasmo e ardor tivessem corrido os competidores, o prêmio seria apenas de um. A mão de um apenas agarraria o cobiçado galardão. Alguns podiam dedicar supremo esforço para obter o prêmio, mas ao estenderem a mão para apanhá-lo, outro, um instante antes dele, poderia arrebatar-lhe o cobiçado tesouro.

Tal não é o caso na milícia cristã. Ninguém que se submete às condições ficará desapontado ao fim da carreira. Ninguém que seja fervoroso e perseverante deixará de alcançar sucesso. Não é dos ligeiros a carreira, nem dos valentes a peleja. O mais fraco dos santos, bem como o mais forte, podem alcançar a coroa de glória imortal. Podem vencer todos os que, pelo poder da divina graça, conduzem a vida em conformidade com a vontade de Cristo. A prática, nos pormenores da vida, dos princípios estabelecidos pela Palavra de Deus, é não raro olhada como coisa sem importância - assunto por demais trivial para que se lhe dê atenção. Mas considerando o que está em jogo, nada é pequeno quando ajuda ou estorva. Cada ato acrescenta seu peso na balança que determina a vitória ou fracasso na vida. E a recompensa dada aos que triunfam será proporcional à energia e fervor com que lutaram.

O apóstolo se compara a uma pessoa disputando uma carreira, esforçando cada nervo para alcançar o prêmio. “Pois eu assim corro”, diz ele, “não como a coisa incerta; assim combato, não como batendo no ar. Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado” (1Co 9:27). Para que não viesse a correr incertamente ou a esmo na carreira cristã, Paulo se submetia a severo exercício. As palavras “subjugo o meu corpo”, literalmente significam repelir por severa disciplina os desejos, os impulsos e as paixões.

Paulo temia que, tendo pregado a outros, viesse ele próprio a ficar reprovado. Ele compreendia que se não praticasse na vida os princípios em que cria e que pregava, seu trabalho em favor de outros em nada lhe aproveitaria. Sua conversação, sua influência, sua recusa de render-se à satisfação própria, deviam mostrar que sua religião não era mera profissão mas um viver diário em ligação com Deus. Um alvo mantinha ele sempre diante de si, e lutava fervorosamente por alcançá-lo - “a justiça que vem de Deus pela fé” (Fp 3:9).

Paulo sabia que sua batalha contra o mal não terminaria enquanto ele tivesse vida. Sempre sentia a necessidade de colocar estrita guarda sobre si mesmo, para que os desejos terrestres não lograssem minar seu zelo espiritual. Com todas as suas forças continuava a lutar contra as inclinações naturais. Sempre mantinha diante de si o ideal a ser alcançado, e esse ideal procurava ele alcançar mediante voluntária obediência à lei de Deus. Suas palavras, atos e paixões - tudo era posto sob o controle do Espírito de Deus.

Era esta inteireza de propósitos para vencer na carreira pela vida eterna que Paulo ansiava ver revelada na vida dos crentes coríntios. Ele sabia que para alcançarem o ideal de Cristo, tinham eles diante de si uma luta vitalícia na qual não haveria tréguas. Insistia com eles para que porfiassem lealmente, buscando dia a dia a piedade e a excelência moral. Suplicava-lhes para porem de lado todo embaraço, e a prosseguir rumo ao alvo da perfeição em Cristo.

Paulo apontava aos coríntios as experiências do antigo Israel, as bênçãos que lhes recompensaram a obediência e os juízos que seguiram suas transgressões. Recordava-lhes a miraculosa maneira por que os hebreus foram tirados do Egito, sob a proteção da nuvem de dia; e da coluna de fogo de noite. Assim foram conduzidos a salvo através do Mar Vermelho, enquanto os egípcios, procurando atravessá-lo da mesma maneira, foram todos submergidos. Por esses atos Deus havia reconhecido Israel como Sua igreja. “E todos comeram dum mesmo manjar espiritual. E beberam todos duma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia, e a pedra era Cristo” (1Co 10:3). Em todas as suas peregrinações, os hebreus tiveram a Cristo como seu guia. A rocha ferida tipificava Cristo, que devia ser ferido pelas transgressões dos homens, para que a fonte de salvação pudesse jorrar para todos.

Não obstante o favor mostrado por Deus aos hebreus, todavia por causa do seu desejo pelas comodidades deixadas no Egito, e por causa de seu pecado e rebelião, os juízos de Deus caíram sobre eles. O apóstolo ordenou aos crentes coríntios a atenderem às lições contidas na experiência de Israel. “Estas coisas foram-nos feitas em figuras, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram” (1Co 10:6). Ele mostrou como o amor ao conforto e aos prazeres tinha preparado o caminho para os pecados que atraíram a notável vingança de Deus. Foi quando os filhos de Israel se assentaram a comer e a beber, e se levantaram para folgar, que se afastaram do temor de Deus, o qual haviam experimentado quando presenciaram a entrega da lei; e, fazendo um bezerro de ouro para representar a Deus, o adoraram. E foi depois de haverem fruído um banquete licencioso relacionado com a adoração de Baal-Peor, que muitos dos filhos de Israel caíram por causa da licenciosidade. A ira de Deus se levantou e a Seu mando “vinte e três mil” (1Co 10:8) foram feridos pela praga num dia.

O apóstolo advertiu os coríntios: “Aquele pois que cuida estar em pé, olhe não caia” (1Co 10:12). Se eles se tornassem presunçosos e cheios de confiança própria, negligenciando vigiar e orar, cairiam em grave pecado, atraindo sobre si a ira de Deus. Todavia Paulo não queria que se entregassem ao desespero ou desalento. Ele lhes deu a segurança: “Fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar” (1Co 10:13).

Paulo instava com seus irmãos para que perguntassem a si mesmos que influência suas palavras e atos estavam exercendo sobre outros, e para que não fizessem coisa alguma, embora inocente em si mesma, que pudesse parecer sanção à idolatria, ou ofender os escrúpulos

dos que fossem fracos na fé. “Quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus. Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus” (1Co 10:31, 32).

As palavras de advertência do apóstolo à igreja de Corinto, são aplicáveis a todos os tempos, e especialmente adaptadas a nossos dias. Por idolatria entendia ele não apenas a adoração de ídolos, mas o egocentrismo, o amor das comodidades e a condescendência com o apetite e paixão. Uma mera profissão de fé em Cristo, um presumido conhecimento da verdade, não tornam um homem cristão. Uma religião que busca apenas

o deleite dos olhos, dos ouvidos, do paladar, ou que sanciona a condescendência própria, não é a religião de Cristo.

Pela comparação da igreja com o corpo humano, o apóstolo ilustrou habilmente a íntima e harmoniosa relação que deve existir entre todos os membros da igreja de Cristo. “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito formando um corpo”, escreveu ele, “quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito. Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; não será por isso do corpo? E se a orelha disser: Porque não sou olho não sou do corpo; não será por isso do corpo? Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis. E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Agora pois há muitos membros, mas um

corpo. E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós. ... Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela; para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros. De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele. Ora vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” (1Co 12:13-27).

E então, com palavras que desde aquele dia até ao presente têm sido uma fonte de inspiração e encorajamento a homens e mulheres, Paulo expôs a importância deste amor que deveria ser acariciado pelos seguidores de Cristo: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria” (1Co 13:1-3).

Não importa quão alta seja a profissão, aquele cujo coração não está cheio de amor a Deus e aos semelhantes, não é verdadeiro discípulo de Cristo. Embora possua grande fé, e tenha poder mesmo para operar milagres, todavia sem amor sua fé será de nenhuma valia. Poderá ostentar grande liberalidade; mas se ele por qualquer outro motivo que não o genuíno amor, entregar todos os seus bens para sustento dos pobres, o ato não o recomendará ao favor de Deus. Em seu zelo, poderia mesmo sofrer a morte de mártir, mas não sendo impulsionado por amor, seria considerado por Deus como iludido entusiasta, ou ambicioso hipócrita.

“A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece” (1Co 13:4). A mais pura alegria jorra da mais profunda humilhação. O caráter mais forte e mais nobre é construído sobre o fundamento da paciência, do amor e da submissão à vontade de Deus.

A caridade “não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal” (1Co 13:5). Amor igual ao de Cristo atribui a mais favorável das intenções aos motivos e atos dos outros. Não expõe desnecessariamente suas faltas; não ouve com avidez relatórios desfavoráveis, mas antes procura trazer à mente as boas qualidades de outros.

Atos dos Apóstolos · Ellen G. White

Passagem bíblica

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