Cristo A Igreja
Plano Encontro 2 Dia 135
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Leitura do livro
Atos dos Apóstolos, páginas 219-221
que atentasse para suas palavras; que um dia eles estariam ou entre os puros e santos ao redor do grande trono branco, ou com aqueles a quem Cristo haveria de dizer: “Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mt 7:23). Ele sabia que teria de encontrar cada um de seus ouvintes diante do tribunal do Céu, e que aí teria de prestar contas, não apenas de tudo o que havia dito e feito, mas do motivo e espírito de suas palavras e ações.
Tão violenta e cruel havia sido a conduta de Félix, que poucos haviam alguma vez ousado dar-lhe a entender que seu caráter e conduta não estavam isentos de faltas. Paulo, porém, não tinha temor do homem. Expôs claramente sua fé em Cristo, e as razões dessa fé, e foi assim levado a falar particularmente das virtudes essenciais do caráter cristão, de que o arrogante par diante dele era tão sensivelmente destituído.
Ele exaltou perante Félix e Drusila o caráter de Deus - Sua retidão, justiça e eqüidade, e a natureza de Sua lei. Mostrou claramente que é dever do homem levar uma vida de sobriedade e temperança, mantendo as paixões sob o controle da razão, em conformidade com a lei de Deus, e preservando as faculdades físicas e mentais em condições sadias. Declarou que viria seguramente um dia de juízo, quando todos seriam recompensados de acordo com o que tivessem feito no corpo, e quando seria plenamente revelado que a riqueza, posição ou títulos são destituídos de poder para alcançar para o homem o favor de Deus, ou para livrá-lo dos resultados do pecado. Mostrou que esta vida é o tempo de preparo do homem para a vida futura. Negligenciassem eles os presentes privilégios e oportunidades, e sofreriam eterna perda; nenhuma nova oportunidade de graça lhes poderia ser dada.
Paulo frisou especialmente os profundos reclamos da lei de Deus. Mostrou como ela alcança os íntimos segredos da natureza moral do homem, derramando um dilúvio de luz sobre aquilo que tem estado oculto à vista e ao conhecimento dos seres humanos. O que as mãos podem fazer ou a língua proferir - isso que a vida exterior revela - mostra, imperfeitamente embora, o caráter moral do homem. A lei esquadrinha seus pensamentos, motivos e propósitos. As perigosas paixões que permanecem ocultas à vista dos homens, a inveja, o ódio, o sensualismo, a ambição, as propostas perversas nos profundos recessos do coração, ainda não executadas por falta de oportunidade - tudo isso a lei de Deus condena.
Paulo procurou dirigir a mente de seus ouvintes para o grande sacrifício pelo pecado. Apontou aos sacrifícios que constituíam sombra dos bens futuros, e apresentou então a Cristo como o antítipo de todas essas cerimônias - o objeto para o qual elas apontavam como a única fonte de vida e esperança para o homem caído. Santos homens do passado foram salvos pela fé no sangue de Cristo. Ao contemplarem as agonias de morte das vítimas sacrificais, olhavam através da voragem dos séculos para o Cordeiro de Deus que devia tirar o pecado do mundo.
Deus com justiça reclama o amor e obediência de todas as Suas criaturas. Deu-lhes em Sua lei uma perfeita norma de retidão. Muitos, porém, se esquecem de seu Criador, e escolhem seguir seus próprios caminhos, em oposição à vontade de Deus. Pagam com inimizade o amor que é tão alto quanto o Céu e tão amplo quanto o Universo. Deus não pode baixar os reclamos de Sua lei a fim de corresponder à norma de homens ímpios;
nem pode o homem em sua própria capacidade, cumprir as exigências da lei. Só pela fé em Cristo pode o pecador ser purificado da culpa e capacitado a prestar obediência à lei de seu Criador.
Assim Paulo, o prisioneiro, apresentou as exigências da lei divina tanto para judeus como para gentios, e apresentou a Jesus, o desprezado Nazareno, como o Filho de Deus, e Redentor do mundo.
A princesa judia bem compreendia o sagrado caráter daquela lei que tão desavergonhadamente transgredia; mas seu preconceito contra o Homem do Calvário endureceu-lhe o coração contra a palavra de vida. Mas Félix nunca ouvira antes a verdade; e à medida que o Espírito de Deus lhe imprimia convicção à alma, sentia-se profundamente agitado. A consciência, agora desperta, fez ouvir sua voz; e Félix sentiu que as palavras de Paulo eram verdadeiras. Sua memória retornou ao culposo passado. Com terrível clareza surgiram perante ele os segredos de seus primeiros tempos de homem sanguinário e perverso, e o relatório tenebroso de seus últimos anos. Viu-se licencioso, cruel, desonesto. Jamais havia sido a verdade assim levada ao íntimo de seu coração.
Nunca dantes sua alma assim se enchera de terror. O pensamento de que todos os segredos de sua carreira de crimes estavam abertos aos olhos de Deus, e que ele seria julgado conforme as suas obras fê-lo tremer de pavor.
Mas em vez de permitir que suas convicções o guiassem ao arrependimento, procurou livrar-se dessas reflexões indesejáveis. A entrevista com Paulo foi abreviada. “Por agora vai-te”, disse; “e em tendo oportunidade te chamarei.”
Quão amplo o contraste entre o procedimento de Félix e o do carcereiro de Filipos! Os servos do Senhor foram levados em cadeias ao carcereiro, como Paulo a Félix. A evidência que deram de estar sendo sustidos por um divino poder, seu regozijo sob o sofrimento e desventura, seu destemor quando a terra vacilou com o terremoto, e seu espírito de perdão semelhante ao de Cristo levaram a convicção ao coração do carcereiro, que tremente confessou seus pecados e encontrou perdão. Félix tremeu, mas não se arrependeu. O carcereiro jubiloso abriu ao Espírito de Deus o coração e o lar; Félix ordenou que o mensageiro divino partisse. Um escolhe tornar-se filho de Deus e herdeiro do Céu; o outro prefere os que praticam a iniqüidade.
Durante dois anos nenhuma outra atitude foi tomada contra Paulo, embora permanecesse prisioneiro. Félix visitou-o várias vezes e ouviu-lhe atentamente as palavras. Mas o motivo real dessa aparente benevolência era o desejo de ganho, e insinuou que mediante grande soma de dinheiro Paulo poderia assegurar sua liberdade. O apóstolo, entretanto, era de natureza demasiado nobre para libertar-se por meio de suborno. Não era culpado de crime algum, e não se aviltaria cometendo um mal para alcançar a liberdade. Demais era muito pobre para poder pagar esse resgate, caso a isso estivesse disposto, e não apelaria, em seu próprio benefício, para a simpatia e generosidade de seus conversos. Compreendia que estava nas mãos de Deus, e não poderia interferir no propósito divino a respeito de sua pessoa.
Félix foi finalmente chamado a Roma, por causa de graves males feitos aos judeus. Antes de deixar Cesaréia em resposta a esse chamado, desejou “comprazer aos judeus”
(At 24:27), deixando Paulo na prisão. Mas Félix não alcançou êxito em sua tentativa de readquirir a confiança dos judeus. Foi removido do cargo em desonra, e Pórcio Festo foi indicado para sucedê-lo, com sede em Cesaréia.
Havia sido permitido que um raio de luz do Céu brilhasse sobre Félix, quando Paulo arrazoou com ele a respeito da justiça, temperança e juízo vindouro. Esta foi a oportunidade que o Céu lhe enviara para que visse seus pecados e os abandonasse. Mas dissera ao mensageiro de Deus: “Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei” (At 24:25). Menosprezara a última oferta de misericórdia. Nunca mais deveria receber outro convite de Deus.
Atos dos Apóstolos · Ellen G. White