Cristo O Caminho

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O Desejado de Todas as Nações, páginas 85-87

real, para aplainar os lugares acidentados, encher as depressões, a fim de o rei poder viajar com segurança, e sem obstáculos. Esse costume é empregado pelo profeta para ilustrar a obra do evangelho. “Todo vale será exaltado, e todo o monte e todo outeiro serão abatidos”. Isaías 40:4. Quando o Espírito de Deus, com Seu maravilhoso poder vivificante, toca o coração, abate o orgulho humano. Prazeres, posições e poder mundanos aparecem como sem valor. “Os conselhos e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus” (2 Coríntios 10:5) são derribados; todo pensamento é levado cativo “à obediência de Cristo”. Então, a humildade e o abnegado amor, tão pouco apreciados entre os homens, são exaltados como as únicas coisas de valor. Esta é a obra do evangelho, do qual a de João era uma parte.

Os rabis continuaram suas interrogações: “Por que batizas pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?” João 1:25. As palavras “o profeta” referiam-se a Moisés. Os judeus inclinavam-se a crer que Moisés ressuscitaria, e seria levado para o Céu. Não sabiam que já fora ressuscitado. Quando o Batista começara o ministério, muitos pensaram que talvez fosse o profeta Moisés, ressuscitado; pois parecia possuir inteiro conhecimento das profecias e da história de Israel.

Acreditava-se também que, antes da vinda do Messias, Elias apareceria pessoalmente. Essa esperança enfrentou João em sua negativa; suas palavras tinham, porém, mais profundo sentido. Jesus disse posteriormente, referindo-Se a João: “Se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir”. Mateus 11:14. João veio no espírito e poder de Elias, para fazer uma obra idêntica à daquele profeta. Houvessem-no recebido os judeus, e ela teria sido realizada em favor deles. Mas não lhe receberam a mensagem. Para eles João não foi Elias. Não podia realizar em seu benefício a missão que viera cumprir.

Muitos dos que se achavam reunidos no Jordão, haviam estado presentes quando do batismo de Jesus; o sinal dado, porém, não fora manifesto senão a poucos dentre eles. Durante os precedentes meses do ministério do Batista, muitos se tinham recusado a atender ao chamado ao arrependimento. Haviam assim endurecido o coração e entenebrecido o entendimento. Quando o Céu deu testemunho de Jesus, no Seu batismo, não o perceberam. Os olhos que nunca se haviam volvido com fé para Aquele que é invisível, não contemplaram a revelação da glória de Deus; os ouvidos que lhe tinham escutado a voz, não ouviram as palavras de testemunho. O mesmo se dá agora. Freqüentemente a presença de Cristo e dos anjos ministradores se manifesta nas assembléias do povo e, no entanto, muitos há que o não sabem. Nada percebem de extraordinário. A alguns, porém, é revelada a presença do Salvador. Paz e alegria lhes animam o coração. São confortados, animados, abençoados.

Os emissários de Jerusalém haviam perguntado a João: “Por que batizas?”

(João 1:25) e esperavam a resposta. Subitamente, ao percorrer seu olhar a multidão, arderam-se-lhe os olhos, a fisionomia iluminou-se, o ser inteiro foi-lhe agitado de profunda emoção. Estendendo a mão, exclamou: “Eu batizo com água; mas no meio de vós está Alguém a quem vós não conheceis. Este é Aquele que vem após mim, que foi antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar a correia da alparca”. João 1:26, 27.

Era positiva e inequívoca a mensagem a ser levada de volta ao Sinédrio. As palavras de João não se podiam aplicar a nenhum outro senão ao longamente Prometido. O Messias Se achava entre eles! Sacerdotes e principais olharam em torno, com assombro, na esperança de descobrir Aquele de quem João falara. Ele, porém, não era distinguível entre a multidão.

Quando, por ocasião do batismo de Jesus, João O designara como o Cordeiro de Deus, nova luz foi projetada sobre a obra do Messias. O espírito do profeta foi dirigido às palavras de Isaías: “Como um cordeiro foi levado ao matadouro”. Isaías 53:7. Durante as semanas seguintes, João estudou, com novo interesse, as profecias e os ensinos quanto ao serviço sacrifical. Não distinguia claramente os dois aspectos da obra de Cristo — como vítima sofredora e vitorioso Rei — mas viu que Sua vinda tinha significação mais profunda do que lhe haviam percebido os sacerdotes ou o povo. Ao ver Cristo entre a multidão, de volta do deserto, esperou confiantemente que Ele desse ao povo um sinal de Seu verdadeiro caráter. Aguardava quase com impaciência ouvir o Salvador declarar Sua missão; no entanto nenhuma palavra foi proferida, não foi dado nenhum sinal. Jesus não correspondeu ao anúncio do Batista a Seu respeito, mas misturou-Se com os discípulos de João, não dando nenhum testemunho visível de Sua obra especial, nem tomando nenhuma providência para Se fazer notado.

No dia seguinte, João viu Jesus, que para ele Se dirigia. Com a glória de Deus a repousar sobre ele, João estende a mão, declarando: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Este é Aquele do qual eu disse: Após mim vem um Varão que foi antes de mim;... e eu não O conhecia; mas, para que fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água. [...] Vi o Espírito descer do céu como uma pomba, e repousar sobre Ele. E eu não O conhecia, mas O que me mandou a batizar com água, Esse me disse: Sobre Aquele que vires descer o Espírito, e sobre Ele repousar, Esse é O que batiza com o Espírito Santo. E eu vi, e tenho testificado que Este é o Filho de Deus”. João 1:29-34.

Era esse o Cristo? Com respeito e curiosidade olhou o povo Àquele de quem se acabava de declarar ser o Filho de Deus. Haviam sido profundamente comovidos pelas palavras de João. Ele lhes falara em nome de Deus. Tinham-no escutado dia a dia, ao reprovar-lhes os pecados, e de dia para dia neles se fortalecera a convicção de ser ele enviado pelo Céu. Mas quem era Esse, maior que João Batista? Não havia em Seu trajar

coisa alguma que indicasse posição. Era, na aparência, um personagem simples, vestido, como eles, nos humildes trajes dos pobres.

Havia entre a multidão alguns que, por ocasião do batismo de Cristo, tinham testemunhado a glória divina, e ouvido a voz de Deus. Desde então, porém, mudara grandemente a aparência do Salvador. Em Seu batismo, tinham-Lhe visto o semblante transfigurado à luz do Céu; agora, pálido, esgotado, emagrecido, ninguém O reconhecera senão o profeta João.

Ao olhar o povo para Ele, no entanto, viram uma fisionomia em que se uniam a divina compaixão e o poder consciente. Toda a expressão do olhar, todo traço do semblante, assinalava-se pela humildade, e exprimia indizível amor. Parecia circundado duma atmosfera de influência espiritual. Ao passo que Suas maneiras eram suaves e despretensiosas, imprimia nos homens um sentimento de poder que, embora oculto, não podia inteiramente velar. Era esse Aquele por quem Israel tão longamente esperava?

Jesus veio em pobreza e humildade, para que pudesse ser nosso exemplo, ao mesmo tempo que nosso Redentor. Houvesse aparecido com pompa real, e como poderia ter ensinado a humildade? como poderia haver apresentado tão incisivas verdades como as do sermão da montanha? Onde estaria a esperança dos humildes da vida, houvesse Jesus vindo habitar como rei entre os homens?

Para a multidão, no entanto, parecia impossível que Aquele que era designado por João Se pudesse relacionar com suas elevadas antecipações. Assim, muitos ficaram decepcionados e grandemente perplexos.

As palavras que os sacerdotes e rabis tanto desejavam ouvir, de que Jesus havia de restaurar então o reino a Israel, não foram proferidas. Por um rei assim haviam eles esperado ansiosamente; tal rei estavam prontos a receber. Mas um que buscasse estabelecer-lhes no coração um reino de justiça e paz, não aceitariam.

No dia seguinte, enquanto dois discípulos estavam ao seu lado, João viu novamente Jesus entre o povo. O rosto do profeta iluminou-se outra vez com a glória do Invisível, ao exclamar: “Eis aqui o Cordeiro de Deus”. Estas palavras fizeram pulsar o coração dos discípulos. Não as compreenderam plenamente. Que significaria o nome que João Lhe dera — “o Cordeiro de Deus”? O próprio João não as explicara.

Deixando João, foram em busca de Jesus. Um deles era André, o irmão de Simão; o outro, João evangelista. Foram estes os primeiros discípulos de Jesus. Movidos de irresistível impulso, seguiram a Jesus — ansiosos de falar-Lhe, todavia respeitosos e em silêncio, abismados na assombrosa significação da idéia: “É esse o Messias?”

Jesus sabia que os discípulos O estavam seguindo. Eram as primícias de Seu ministério, e o coração do divino Mestre alegrou-se ao corresponderem essas pessoas a Sua graça. No entanto, voltando-Se, perguntou apenas:

O Desejado de Todas as Nações · Ellen G. White

Passagem bíblica

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