Cristo O Caminho

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O Desejado de Todas as Nações, páginas 500-502

inimiga. Enquanto Ele suportava, perante Caifás, a farsa de um julgamento, fora negado por um dos discípulos.

Depois de abandonarem o Mestre no horto, dois dos discípulos ousaram seguir, a distância, a turba que levara Jesus preso. Esses discípulos eram Pedro e João. Os sacerdotes reconheceram João como bem conhecido discípulo de Jesus, e deram-lhe entrada na sala, esperando que, ao testemunhar a humilhação de seu guia, desdenharia ele a idéia de ser uma pessoa assim o Filho de Deus. João falou em favor de Pedro, conseguindo entrada para ele também.

No pátio fora feito um fogo; pois era a hora mais fria da noite, mesmo antes do amanhecer. Um grupo estava reunido perto do fogo, e Pedro tomou presunçosamente lugar no mesmo. Não desejava ser reconhecido como discípulo de Cristo. Misturando-se descuidosamente com a multidão, esperava ser tomado por algum dos que levaram Jesus para a sala.

Ao incidir, porém, a luz no rosto de Pedro, a porteira lançou-lhe um penetrante olhar. Notara que ele tinha entrado com João, observara-lhe na fisionomia o abatimento e pensou que poderia ser um discípulo de Cristo. Ela era uma das servas da casa de Caifás, e estava curiosa. Disse a Pedro: “Não és também um dos Seus discípulos?” Pedro sobressaltou-se e ficou confuso; instantaneamente se fixaram nele os olhares do grupo. Fingiu não a compreender, mas ela insistiu e disse aos que a rodeavam que esse homem estava com Jesus. Pedro sentiu-se forçado a replicar e disse, zangado: “Mulher, não O conheço”. Lucas 22:57. Foi a primeira negação, e imediatamente o galo cantou.

Ó! Pedro tão depressa envergonhado de teu Mestre! tão pronto a negar a teu Senhor!

O discípulo João, entrando na sala do julgamento, não buscou ocultar ser seguidor de Jesus. Não se misturou com o rude grupo que estava injuriando o Mestre. Não foi interrogado; pois não assumiu um falso caráter, tornando-se assim objeto de suspeita. Procurou um canto retirado, ao abrigo dos olhares da multidão, mas o mais próximo possível de Jesus. Ali podia ver e ouvir tudo que ocorresse no julgamento de seu Senhor.

Pedro não pretendia dar a conhecer sua verdadeira identidade. Ao assumir ar de indiferença, colocara-se no terreno do inimigo, tornando-se fácil presa da tentação. Houvesse ele sido chamado a combater por seu Mestre, e teria sido um corajoso soldado; ao ser, porém, apontado pelo dedo do escárnio, demonstrou-se covarde. Muitos que não recuam diante da luta ativa por seu Senhor, são, em face do ridículo, levados a negar sua fé. Associando-se com aqueles a quem deviam evitar, colocam-se no caminho da tentação. Convidam o inimigo a tentá-los, e são levados a dizer e fazer coisas de que, sob outras circunstâncias, nunca se tornariam culpados. O discípulo de Cristo que, em nossos dias, disfarça sua fé por

temor de sofrimento ou ignomínia, nega a seu Senhor tão realmente como o fez Pedro na sala do julgamento.

Pedro procurou não manifestar interesse no julgamento do Mestre, mas tinha o coração confrangido de dor ao ouvir as cruéis zombarias e ver os maus-tratos que Ele estava sofrendo. Mais ainda, estava surpreendido e irritado de que Jesus assim Se humilhasse a Si e a Seus seguidores, submetendo-Se a esse tratamento. A fim de ocultar o que na verdade sentia, procurou unir-se aos perseguidores de Jesus em seus intempestivos gracejos. Seu aspecto, no entanto, não era natural. Estava representando uma mentira, e conquanto procurasse falar despreocupadamente, não podia suster expressões de indignação ante os abusos acumulados contra o Mestre.

Pela segunda vez foi a atenção chamada para ele, sendo novamente acusado de ser seguidor de Jesus. Declarou então, com juramento: “Não conheço tal homem.” Outra oportunidade lhe foi dada ainda. Passara-se uma hora, quando um dos servos do sumo sacerdote, sendo parente próximo do homem cuja orelha Pedro cortara, lhe perguntou: “Não te vi eu no horto com Ele?” “Também este verdadeiramente estava com Ele, pois também é galileu.” “Tua fala te denuncia.” Diante disso Pedro se exaltou. Os discípulos de Jesus eram notados pela pureza da linguagem, e para enganar bem a seus interlocutores e justificar o aspecto que assumira, Pedro negou então ao Mestre com imprecação e juramento. Novamente o galo cantou. Pedro o ouviu então e lembrou as palavras de Jesus: “Antes que o galo cante duas vezes, três vezes Me negarás”. Marcos 14:30.

Quando os degradantes juramentos acabavam de sair dos lábios de Pedro e o penetrante canto do galo lhe ressoava ainda no ouvido, o Salvador voltou-Se dos severos juízes, olhando em cheio ao pobre discípulo. Ao mesmo tempo os olhos de Pedro eram atraídos para o Mestre. Naquele suave semblante leu ele profunda piedade e tristeza; nenhuma irritação, porém, se via ali.

A vista daquele rosto pálido e sofredor, daqueles trêmulos lábios, daquele olhar compassivo e cheio de perdão, penetrou-lhe a alma como uma seta. Despertou-se a consciência. Ativou-se a memória. Pedro recordou sua promessa de poucas horas antes, de que havia de ir com seu Senhor à prisão e à morte. Lembrou-se de seu desgosto quando, no cenáculo, Ele lhe dissera que havia de negar seu Senhor três vezes naquela noite. Pedro acabava mesmo de declarar que não conhecia a Jesus, mas compreendia agora com amarga dor quão bem o Senhor o conhecia e quão exatamente lhe lera o coração, cuja falsidade nem ele próprio conhecia.

Acudiram-lhe recordações em tropel. A terna misericórdia do Salvador, Sua bondade e longanimidade, Sua brandura e paciência para com os errantes discípulos — tudo lhe veio à memória. Lembrou a advertência: “Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça”. Lucas 23:31, 32.

Refletiu com horror em sua própria ingratidão, falsidade, perjúrio. Olhou uma vez mais para o Mestre, e viu sacrílega mão levantada para Lhe bater na face. Incapaz de suportar por mais tempo a cena, precipitou-se, coração quebrantado, para fora da sala.

E avançou, pela solidão e a treva, sem saber nem cuidar para onde. Encontrou-se, enfim, no Getsêmani. A cena de poucas horas antes acudiu-lhe vivamente à memória. O rosto sofredor de Jesus, manchado de sanguinolento suor e convulsionado pela agonia, surgiu diante dele. Lembrou-se com atroz remorso que Ele chorara e Se angustiara sozinho em oração, ao passo que os que se Lhe deviam ter unido naquela probante hora estavam adormecidos. Lembrou-Lhe a solene recomendação: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação”. Mateus 26:41. Testemunhou novamente a cena na sala do julgamento. Foi-lhe tortura ao coração a sangrar, saber que ajuntara o maior peso à humilhação e pesar do Salvador. No próprio lugar em que Jesus derramara a alma em agonia perante o Pai, Pedro caiu sobre o rosto e desejou morrer.

Fora por dormir quando Jesus lhe recomendara vigiar e orar, que Pedro preparara o caminho para seu grande pecado. Todos os discípulos, dormindo na hora crítica, sofreram grande dano. Cristo sabia a cruel prova por que eles haviam de passar. Sabia como Satanás havia de agir para lhes paralisar os sentidos, a fim de se acharem desapercebidos para a prova. Fora por isso que lhes dera aviso. Houvessem aquelas horas no horto sido passadas em vigília e oração, e Pedro não teria ficado dependente de suas débeis forças. Não teria negado a seu Senhor. Houvessem os discípulos velado com Cristo em Sua agonia, e estariam preparados para Lhe contemplar os sofrimentos na cruz. Teriam compreendido, até certo ponto, a natureza de Sua avassaladora angústia. Teriam podido recordar-Lhe as palavras predizendo os sofrimentos, a morte e a ressurreição. Entre as sombras da mais probante hora, alguns raios de esperança teriam aclarado as trevas e lhes sustido a fé.

Assim que se fez dia, o Sinédrio tornou a reunir-se, e outra vez foi Jesus levado à sala do conselho. Declarara-Se Filho de Deus, e tinham feito Suas palavras uma acusação contra Ele. Mas não O podiam condenar por isso, pois muitos deles não se achavam presentes à sessão da noite, e não Lhe tinham ouvido as palavras. E sabiam que o tribunal romano não veria nelas coisa alguma digna de morte. Mas se eles todos Lhe pudessem ouvir dos próprios lábios repetidas aquelas palavras, talvez conseguissem seu objetivo. Sua reivindicação ao messiado, poderiam interpretar como pretensão política, sediciosa.

“És Tu o Cristo?” perguntaram, “dize-no-lo.” Mas Cristo permaneceu silencioso. Continuaram a importuná-Lo com perguntas. Por fim, com doloroso, comovedor acento, respondeu: “Se vo-lo disser, não o crereis; e também, se vos perguntar não Me respondereis, nem Me soltareis.” Mas

O Desejado de Todas as Nações · Ellen G. White

Passagem bíblica

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