Cristo O Caminho

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O Desejado de Todas as Nações, páginas 497-498

único recurso; Cristo devia ser forçado a condenar a Si mesmo. O sumo sacerdote ergueu-se da cadeira de juiz, fisionomia transtornada pela paixão, indicando pela voz e as maneiras que, estivesse em seu poder, e abateria o Preso que se achava diante dele. “Não respondes coisa alguma ao que estes depõem contra Ti?” (Mateus 26:62) exclamou.

Jesus guardou silêncio. “Ele foi oprimido, mas não abriu a Sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e, como a ovelha muda perante os Seus tosquiadores, Ele não abriu a Sua boca”. Isaías 53:7.

Por fim Caifás, erguendo para o Céu a mão direita, dirigiu-se a Jesus na forma de um solene juramento: “Conjuro-Te pelo Deus vivo que nos digas se Tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Mateus 26:63.

Em face desse apelo não podia Cristo permanecer silencioso. Havia tempo de ficar mudo e tempo de falar. Não falara antes que fosse diretamente interrogado. Sabia que responder agora era tornar certa Sua morte. Mas o apelo era feito pela mais alta autoridade reconhecida da nação, e em nome do Altíssimo. Cristo não deixaria de mostrar o devido respeito pela lei. Mais ainda, Sua própria relação para com o Pai era invocada. Precisa declarar plenamente Seu caráter e missão. Dissera aos discípulos: “Qualquer que Me confessar diante dos homens, Eu o confessarei diante de Meu Pai, que está nos Céus”. Mateus 10:32. Agora, pelo próprio exemplo, repetiu a lição.

Todos os ouvidos se inclinaram para escutar, e todos os olhos se fixaram em Seu rosto, ao responder: “Tu o disseste.” Uma luz celeste parecia iluminar-Lhe o pálido semblante, ao acrescentar: “Digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu”. Mateus 26:64.

Por um momento a divindade de Cristo irrompeu através do invólucro humano. O sumo sacerdote recuou diante do penetrante olhar do Salvador. Aquele olhar parecia ler-lhe os pensamentos ocultos, e arder-lhe no coração. Nunca, no resto de sua vida, esqueceu aquele perscrutador olhar do perseguido Filho de Deus.

“Vereis em breve”, disse Jesus, “o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu.” Nessas palavras, apresentou Cristo o reverso da cena que então ocorria. Ele, o Senhor da vida e da glória, estaria sentado à destra de Deus. Seria o juiz de toda a Terra, e de Suas decisões não haveria apelação. Então tudo que estava oculto seria trazido à luz da presença divina, e o juízo feito sobre cada homem segundo as suas obras.

As palavras de Cristo sobressaltaram o sumo sacerdote. A idéia de que haveria uma ressurreição de mortos, quando todos se achariam diante do tribunal de Deus, para ser recompensados segundo as suas obras, era um pensamento aterrador para Caifás. Ele não desejava crer que, no futuro, receberia sentença segundo as suas ações. Acudiram-lhe à mente, como um panorama, as cenas do juízo final. Por um momento viu o terrível

espetáculo das sepulturas dando os seus mortos, com os segredos que eles esperavam estarem para sempre ocultos. Sentiu-se por um momento como à presença do eterno Juiz, cujo olhar, que vê todas as coisas, estava a ler-lhe a alma, trazendo à luz mistérios que supunha ocultos com os mortos.

A cena desapareceu da visão do sacerdote. As palavras de Cristo o espicaçavam vivamente, a ele, o saduceu. Caifás negara a doutrina da ressurreição, do juízo e da vida futura. Ficou então enlouquecido por uma fúria satânica. Esse Homem, um preso diante dele, havia de atacar suas mais acariciadas teorias? Rasgando os vestidos, para que o povo visse o pretenso horror que experimentava, exigiu que, sem posteriores preliminares, fosse o Preso condenado por blasfêmia. “Para que precisamos ainda de testemunhas?” disse ele; “Eis que bem ouvistes agora a Sua blasfêmia. Que vos parece?” Mateus 26:65, 66. E todos O condenaram.

A convicção, de mistura com a paixão, levou Caifás a agir como fez. Estava furioso consigo mesmo por crer nas palavras de Cristo e, em lugar de rasgar o coração sob um profundo sentimento da verdade e confessar ser Jesus o Messias, rasgou as vestes sacerdotais, em decidida resistência. Esse ato era de profunda significação. Mal compreendia Caifás o seu sentido. Nesse ato, realizado para influenciar os juízes e garantir a condenação de Cristo, condenara o sumo sacerdote a si mesmo. Pela lei divina estava desqualificado para o sacerdócio. Proferira sobre si mesmo a sentença de morte.

O sumo sacerdote não devia rasgar as vestes. Pela lei levítica, isto era proibido sob pena de morte. Em circunstância alguma, em nenhuma ocasião, devia o sacerdote rasgar os vestidos. Era costume entre os judeus rasgar as vestes por morte de amigos, mas esse costume não deviam os sacerdotes observar. Por Cristo fora dada a Moisés ordem expressa sobre isto. Levítico 10:6.

Tudo que era usado pelo sacerdote devia ser de uma só peça, e isento de defeito. Por aquelas belas vestes oficiais estava representado o caráter do grande protótipo, Jesus Cristo. Nada senão a perfeição, no vestuário e na atitude, na palavra e no espírito, podia ser aceitável a Deus. Ele é santo, e Sua glória e perfeição devem ser representadas pelo serviço terrestre. Coisa alguma senão a perfeição poderia representar devidamente a santidade do serviço celestial. Os homens finitos poderiam rasgar o próprio coração, mostrando espírito arrependido e humilde. Isso seria distinguido por Deus. Mas nenhum rasgão deveria ser feito no vestido sacerdotal, pois isso mancharia a representação das coisas celestiais. O sumo sacerdote que ousasse apresentar-se em sagrado ofício e empenhar-se no serviço do santuário, com as vestes rasgadas, era considerado como se tendo separado de Deus. Rasgando-as, excluíra a si mesmo de ser um personagem representativo. Não mais era aceito por Deus como sacerdote, em ofício. Essa maneira de agir de Caifás mostrava a paixão humana, a humana imperfeição.

O Desejado de Todas as Nações · Ellen G. White

Passagem bíblica

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