Cristo O Caminho

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O Desejado de Todas as Nações, páginas 493-494

romanos. A segunda acusação procurou Anás estabelecer em primeiro lugar. Interrogou a Cristo quanto a Seus discípulos e Suas doutrinas, esperando que o Prisioneiro dissesse qualquer coisa que lhe fornecesse base para agir. Pensava tirar alguma declaração, provando que Ele estava procurando fundar uma sociedade secreta, com o intuito de estabelecer um novo reino. Então os sacerdotes O poderiam entregar aos romanos como perturbador da paz e cabeça de insurreição.

Cristo lia claramente os desígnios do sacerdote. Como se lesse no mais íntimo da alma do que O interrogava, negou que houvesse entre Ele e Seus seguidores qualquer união secreta, ou que os reunisse em segredo e nas trevas para ocultar Seus desígnios. Não tinha segredos quanto a Seus intuitos ou doutrinas. “Eu falei abertamente ao mundo”, respondeu Ele; “Eu sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se ajuntam, e nada disse em oculto”. João 18:20.

O Salvador punha em contraste Sua maneira de agir, com os métodos de Seus acusadores. Durante meses O perseguiram, procurando enlaçá-Lo e levá-Lo perante um tribunal secreto, onde poderiam obter por falso juramento o que era impossível conseguir por meios justos. Agora levavam a efeito seus desígnios. A prisão à meia-noite por meio de uma turba, as zombarias e maus-tratos antes de Ele ser condenado, ou sequer acusado, era a maneira de eles procederem, não a Sua. O ato que praticavam era uma violação da lei. Suas próprias leis declaravam que um homem devia ser tratado como inocente até se provar culpado. Em face de seus próprios regulamentos, eram os sacerdotes condenados.

Voltando-Se para aquele que O interrogava, disse Jesus: “Para que Me perguntas a Mim?” Não haviam os sacerdotes e príncipes enviado espias para Lhe observar os movimentos, e relatar cada palavra Sua? Não estiveram estes presentes em todas as reuniões do povo, levando aos sacerdotes informações de tudo quanto fazia e dizia? “Pergunta aos que ouviram o que é que lhes ensinei”, replicou Jesus; “eis que eles sabem o que Eu lhes tenho dito”. João 18:21.

Anás emudeceu diante da firmeza da resposta. Temendo que Jesus fizesse alguma alusão a seu procedimento, que ele preferia manter encoberto, nada mais Lhe disse nesse momento. Um de seus servidores, cheio de indignação ao ver Anás calar-se, bateu no rosto de Jesus, dizendo: “Assim respondes ao sumo sacerdote?”

Cristo replicou calmamente: “Se falei mal, dá testemunho do mal; e, se bem, por que Me feres?” João 18:22, 23. Não proferiu ardentes palavras de represália. Sua calma resposta proveio de um coração imaculado, paciente e brando, que não se irritava.

Cristo sofria vivamente sob maus-tratos e insultos. Nas mãos dos seres que criara, e pelos quais estava fazendo imenso sacrifício, recebeu toda espécie de opróbrios. E sofreu proporcionalmente à perfeição de Sua

santidade e ao Seu ódio pelo pecado. Seu julgamento por homens que agiam como demônios era-Lhe um sacrifício sem fim. Achar-Se rodeado de criaturas humanas sob o domínio de Satanás, era-Lhe revoltante. E sabia que, num momento, por uma irradiação súbita de Seu divino poder, poderia reduzir a pó Seus cruéis atormentadores. Isso tornava a provação mais dura de sofrer.

Os judeus aguardavam um Messias que Se revelasse com demonstrações exteriores. Esperavam que Ele, por um raio de avassaladora vontade, mudasse a corrente dos pensamentos dos homens, forçando-os a reconhecer-Lhe a supremacia. Assim, acreditavam, devia Ele firmar a própria exaltação e satisfazer suas ambiciosas esperanças. Assim, quando Cristo era tratado com desprezo, sobrevinha-Lhe forte tentação de manifestar Seu caráter divino. Por uma palavra, um olhar, poderia compelir os perseguidores a confessar que era Senhor sobre reis e príncipes, sacerdotes e templo. Mas cumpria-Lhe a difícil tarefa de ater-Se à posição que escolhera como sendo um com a humanidade.

Os anjos do Céu testemunhavam todo movimento contra Seu amado Comandante. Ansiavam por libertar Cristo. Sob a direção divina os anjos são todo-poderosos. Uma ocasião, em obediência à ordem de Cristo mataram numa noite cento e oitenta e cinco mil homens do exército assírio. Quão facilmente poderiam os anjos, que contemplavam a vergonhosa cena do julgamento de Cristo, haver demonstrado sua indignação consumindo os adversários de Deus! Mas não eram mandados fazer isso. Aquele que poderia haver condenado Seus inimigos à morte, sofreu-lhes a crueldade. O amor para com o Pai, Seu compromisso, assumido desde a fundação do mundo, de tomar sobre Si o pecado, levaram-nO a suportar sem um queixume o rude tratamento daqueles que viera salvar. Era parte de Sua missão sofrer, em Sua humanidade, todos os motejos e abusos que sobre Ele fossem acumulados. A única esperança do homem residia nessa submissão de Cristo a tudo quando pudesse sofrer das mãos e do coração humano.

Nada dissera Cristo que pudesse dar ganho de causa a Seus acusadores; todavia, ligaram-nO, para significar que estava condenado. Cumpria, no entanto, haver uma simulação de justiça. Era necessário que houvesse a forma de um julgamento legal. Este as autoridades estavam decididas a apressar. Sabiam a consideração em que Jesus era tido pelo povo, e temiam que, fosse a prisão divulgada, talvez tentassem o libertamento. E ainda, se o julgamento e a execução não fossem efetuados imediatamente, haveria uma semana de adiamento em virtude da celebração da páscoa. Isso poderia frustrar-lhes os planos. Para assegurar a condenação de Jesus, muito dependiam do clamor da turba, composta em grande parte da escória de Jerusalém. Houvesse uma semana de delonga, e enfraqueceria a agitação, sendo possível surgir uma reação. A melhor parte do povo seria levantada a favor de Cristo; muitos se apresentariam com testemunhos em prol de

O Desejado de Todas as Nações · Ellen G. White

Passagem bíblica

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