Cristo O Caminho

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O Desejado de Todas as Nações, páginas 488-490

encanto das trevas que quase O venciam. Mas seus olhos estavam carregados; “e não sabiam que responder-Lhe”. Marcos 14:40. Sua presença os despertou. Viram-Lhe o rosto manchado com o suor sanguinolento da agonia, e encheram-se de temor. Sua angústia mental, não a podiam compreender. “O Seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o dos outros filhos dos homens”. Isaías 52:14.

Voltando, Jesus tornou a procurar o Seu retiro, caindo prostrado, vencido pelo horror de uma grande treva. A humanidade do Filho de Deus tremia naquela probante hora. Não orava agora pelos discípulos, para que a fé deles não desfalecesse, mas por Sua própria alma assediada de tentação e angústia. O tremendo momento chegara — aquele momento que decidiria o destino do mundo. Na balança oscilava a sorte da humanidade. Cristo ainda podia, mesmo então, recusar beber o cálice reservado ao homem culpado. Ainda não era demasiado tarde. Poderia enxugar da fronte o suor de sangue, e deixar perecer o homem em sua iniqüidade. Poderia dizer: Receba o pecador o castigo de seu pecado, e Eu voltarei a Meu Pai. Beberá o Filho de Deus o amargo cálice da humilhação e da agonia? Sofrerá o Inocente as conseqüências da maldição do pecado, para salvar o criminoso? Trêmulas caem as palavras dos pálidos lábios de Jesus: “Pai Meu, se este cálice não pode passar de Mim sem Eu o beber, faça-se a Tua vontade”. Mateus 26:42.

Três vezes proferiu essa oração. Três vezes recuou Sua humanidade do último, supremo sacrifício. Surge, porém, então, a história da raça humana diante do Redentor do mundo. Vê que os transgressores da lei, se deixados, têm de perecer. Vê o desamparo do homem. Vê o poder do pecado. As misérias e os ais do mundo condenado erguem-se ante Ele. Contempla-lhe a sorte iminente, e decide-Se. Salvará o homem custe o que custar de Sua parte. Aceita Seu batismo de sangue, para que, por meio dEle, milhões de almas a perecer obtenham a vida eterna. Deixou as cortes celestiais, onde tudo é pureza, felicidade e glória para salvar a única ovelha perdida, o único mundo caído pela transgressão. E não Se desviará de Sua missão. Tornar-Se-á a propiciação de uma raça que quis pecar. Sua prece agora respira apenas submissão: “Se este cálice não pode passar de Mim sem Eu o beber, faça-se a Tua vontade”. Mateus 26:42.

Havendo tomado a decisão, cai moribundo no solo do qual Se erguera parcialmente. Onde se achavam então os discípulos, para pôr ternamente as mãos sob a cabeça do desfalecido Mestre, e banhar aquela fronte, na verdade mais desfigurada que a dos outros filhos dos homens? O Salvador pisou sozinho o lagar, e do povo nenhum com Ele havia.

Mas Deus sofria com Seu Filho. Anjos contemplavam a agonia do Salvador. Viam seu Senhor circundado de legiões das forças satânicas, Sua natureza vergada ao peso de misterioso pavor que todo O fazia tremer. Houve silêncio no Céu. Nenhuma harpa soava. Pudessem os mortais ter testemunhado o assombro das hostes angélicas quando, em silenciosa dor,

observavam o Pai retirando de Seu bem-amado Filho os raios de luz, amor e glória, e melhor compreenderiam quão ofensivo é aos Seus olhos o pecado.

Os mundos não caídos e os anjos celestiais vigiavam com intenso interesse o conflito que se aproximava do desfecho. Satanás e suas hostes do mal, as legiões da apostasia, seguiam muito atentamente essa grande crise na obra da redenção. Os poderes do bem e do mal aguardavam para ver qual a resposta que seria dada à oração de Cristo — três vezes repetida. Os anjos anelavam trazer alívio ao divino Sofredor, mas isso não podia ser. Nenhum meio de escape havia para o Filho de Deus. Nessa horrível crise, quando tudo estava em jogo, quando o misterioso cálice tremia nas mãos do Sofredor, abriu-se o Céu, surgiu uma luz por entre a tempestuosa treva da hora da crise, e o poderoso anjo que se acha na presença de Deus, ocupando a posição da qual Satanás caíra, veio para junto de Cristo. O anjo não veio para tomar-Lhe o cálice das mãos, mas para fortalecê-Lo a fim de que o bebesse, com a certeza do amor do Pai. Veio para dar força ao divino-humano Suplicante. Ele Lhe apontou os Céus abertos, falando-Lhe das almas que seriam salvas em resultado de Seus sofrimentos. Afirmou-Lhe que Seu Pai é maior e mais poderoso que Satanás, que Sua morte redundaria na sua inteira derrota, e que o reino deste mundo seria dado aos santos do Altíssimo. Disse-Lhe que Ele veria o trabalho de Sua alma, e ficaria satisfeito, pois contemplaria uma multidão de membros da família humana salvos, eternamente salvos.

A agonia de Cristo não cessou, mas Sua depressão e desânimo O deixaram. A tempestade não amainou de maneira alguma, mas Aquele que dela era objeto estava fortalecido para lhe enfrentar a fúria. Saiu calmo e sereno. Uma paz celestial pairava-Lhe no rosto manchado de sangue. Suportara aquilo que criatura alguma humana jamais poderia sofrer; pois provara os sofrimentos da morte por todos os homens.

Os adormecidos discípulos foram subitamente despertados pela luz que circundava o Salvador. Viram o anjo inclinado sobre o prostrado Mestre. Viram-no erguer a cabeça do Salvador sobre seu seio, e apontar para o Céu. Ouviram-lhe a voz, qual música suave, proferindo palavras de conforto e esperança. Os discípulos recordaram a cena do monte da transfiguração. Lembraram a glória que, no templo, envolvera a Jesus, e a voz de Deus, que falara da nuvem. Agora se revelava aquela mesma glória, e não tiveram mais temor pelo Mestre. Ele Se achava sob o cuidado de Deus; um poderoso anjo fora enviado para O proteger. Novamente os discípulos, em sua fadiga, cedem àquele estranho torpor que os domina. Novamente Jesus vai os encontrar adormecidos. Contemplando-os dolorosamente, diz Ele: “Dormi agora, e repousai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores.”

Mesmo ao proferir essas palavras, ouviu as pisadas da turba que vinha em Sua procura, e disse: “Levantai-vos, partamos; eis que é chegado o que Me trai”. Mateus 26:45, 46.

Nenhum vestígio de Sua recente agonia se podia divisar ao adiantar-Se Jesus para enfrentar o traidor. Achando-Se à frente dos discípulos, disse: “A quem buscais?” Responderam: “A Jesus Nazareno.” Jesus disse: “Sou Eu”. João 18:4-6. Ao serem proferidas essas palavras, o anjo que há pouco estivera confortando a Jesus interpôs-se entre Ele e a multidão. Uma luz divina iluminou o rosto do Salvador, e uma como que pomba pairou sobre Ele. Em presença dessa divina glória, a turba assassina não pôde permanecer um momento. Cambalearam em recuo. Sacerdotes, anciãos, soldados e o próprio Judas caíram como mortos por terra.

O anjo retirou-se, e dissipou-se a luz. Jesus tivera oportunidade de escapar, mas permaneceu, calmo e senhor de Si. Como pessoa glorificada, ficou em meio daquele bando endurecido, agora prostrado e impotente a Seus pés. Os discípulos contemplavam tudo silenciosos, com admiração e respeitoso temor.

Rapidamente, porém, mudou a cena. A turba ergueu-se. Os soldados romanos, os sacerdotes e Judas reuniram-se em redor de Cristo. Pareciam envergonhados de sua fraqueza, e receosos de que Ele ainda escapasse. Novamente fez o Redentor a pergunta: “A quem buscais?” Tinham tido a prova de que Aquele que Se achava diante deles era o Filho de Deus, mas não se queriam convencer. À pergunta: “A quem buscais?” tornaram a responder: “A Jesus Nazareno.” O Salvador disse então: “Já vos disse que sou Eu; se pois Me buscais a Mim, deixai ir estes” (João 18:7, 8) — e apontou aos discípulos. Sabia quão fraca era a fé deles, e buscou protegê-los contra a tentação e a prova. Por eles estava pronto a Se sacrificar.

Judas, o traidor, não esqueceu a parte que devia desempenhar. Quando a turba penetrou no horto, fora ele que a conduzira, seguido de perto pelo sumo sacerdote. Aos perseguidores de Jesus dera um sinal, dizendo: “O que eu beijar é esse; prendei-O”. Mateus 26:48. Pretende então não ter parte nenhuma com eles. Achegando-se a Jesus, toma-Lhe a mão como um amigo familiar. Com as palavras: “Eu Te saúdo, Rabi”, ele O beija repetidamente e parece chorar, como sentindo com Ele o perigo que corria.

Jesus lhe diz: “Amigo, a que vieste?” Mateus 26:50. A voz tremia-Lhe de dor, ao acrescentar: “Judas, com um beijo traís o Filho do homem?” Lucas 22:48. Esse apelo deveria ter despertado a consciência do traidor, e tocado seu obstinado coração; mas a honra, a fidelidade e a brandura humana o haviam abandonado. Permaneceu ousado e em desafio, não mostrando nenhuma disposição de abrandar-se. Entregara-se a Satanás, e não tinha poder para lhe resistir. Jesus não recusou o beijo do traidor.

A massa tornou-se ousada, ao ver Judas tocar a pessoa dAquele que tão pouco antes fora glorificado diante de seus olhos. Apoderaram-se, pois, de Jesus e começaram a atar aquelas preciosas mãos que sempre se haviam empregado em fazer bem.

O Desejado de Todas as Nações · Ellen G. White

Passagem bíblica

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