Cristo O Caminho

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O Desejado de Todas as Nações, páginas 422-424

Capítulo 66 — Conflito

Este capítulo é baseado em Mateus 22:15-46; Marcos 12:13-40; Lucas 20:20-47.

Os sacerdotes e príncipes ouviram em silêncio as incisivas repreensões de Cristo. Não Lhe podiam refutar as acusações. Mas só ficaram ainda mais decididos a armar-Lhe ciladas; e com esse desígnio, enviaram-Lhe espias, “que se fingissem justos, para O apanharem nalguma palavra, e O entregarem à jurisdição e poder do presidente”. Lucas 20:20. Não mandaram os velhos fariseus a quem Jesus encontrara muitas vezes, mas jovens, que eram ardentes e zelosos, e os quais, pensavam, Cristo não conhecia. Estes foram acompanhados por certos herodianos, que deviam ouvir as palavras de Cristo, a fim de poderem testificar contra Ele em julgamento. Os fariseus e os herodianos haviam sido obstinados inimigos, mas estavam agora unidos na inimizade para com Cristo.

Os fariseus sempre se tinham sentido irritados com a cobrança do tributo por parte dos romanos. Sustentavam que o pagamento do tributo era contrário à lei divina. Viram então ensejo de armar uma cilada a Jesus. Os espias foram ter com Ele e, com aparente sinceridade, como desejando conhecer seu dever, disseram: “Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus. É-nos lícito dar tributo a César ou não?” Lucas 20:21, 22.

Houvessem sido sinceras as palavras: “Nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente”, e teriam sido uma confissão admirável. Mas foram ditas para enganar; não obstante, seu testemunho era verdadeiro. Os fariseus sabiam que Cristo dizia e falava o que era reto, e por seu próprio testemunho serão eles julgados.

Os que propunham a pergunta a Cristo, julgavam haver disfarçado suficientemente seu desígnio; mas Jesus leu-lhes o coração como um livro aberto, e sondou-lhes a hipocrisia. “Por que Me tentais?” disse Ele; dando-lhes assim, por mostrar que lhes lia o oculto intento, um sinal que não tinham pedido. Mais confusos ainda ficaram quando acrescentou: “Mostrai-Me uma moeda.” Trouxeram-Lha, e Ele lhes perguntou: “De quem tem a imagem e a inscrição? E, respondendo eles, disseram: De César.” Apontando a inscrição na moeda, disse Jesus: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Lucas 20:23-25.

Os espias haviam esperado que Jesus respondesse diretamente à pergunta, de uma ou de outra maneira. Se Ele dissesse: Não é lícito dar

tributo a César, seria levado às autoridades romanas, e preso por incitar rebelião. No caso de declarar lícito pagar o tributo, porém, intentavam acusá-Lo perante o povo como contrário à lei divina. Sentiram-se então confusos e derrotados. Frustraram-se-lhes os planos. A maneira sumária por que fora assentada a questão por eles proposta, deixou-os sem ter que dizer.

A resposta de Cristo não foi uma evasiva, mas uma réplica sincera. Segurando a moeda romana sobre que se achavam inscritos o nome e a imagem de César, declarou que, uma vez que estavam vivendo sob a proteção do poder romano, deviam prestar àquele poder o apoio que lhes exigia, enquanto isso não estivesse em oposição a um mais elevado dever. Mas, conquanto pacificamente sujeitos às leis da Terra, deviam em todos os tempos manter primeiramente lealdade para com Deus.

As palavras do Salvador: “Dai [...] a Deus o que é de Deus” (Lucas 20:25), foram uma severa repreensão aos intrigantes judeus. Houvessem cumprido fielmente suas obrigações para com Deus, e não teriam chegado a ser uma nação falida, subjugada a uma potência estrangeira. Nenhuma insígnia romana haveria tremulado sobre Jerusalém, nenhuma sentinela romana lhe jazeria às portas, nem romano governo teria reinado dentro de seus muros. A nação judaica estava então pagando a pena de sua apostasia de Deus.

Ao ouvirem os fariseus a resposta de Cristo, “maravilharam-se e, deixando-O, se retiraram”. Mateus 22:22. Ele lhes censurara a hipocrisia e presunção e, assim fazendo, expressara um grande princípio, princípio que define claramente os limites do dever do homem para com o governo civil, e seu dever para com Deus. Para muitos espíritos, ficara assentada uma aflitiva questão. Depois disso, apegaram-se para sempre ao justo princípio. E conquanto muitos se retirassem mal-satisfeitos, viram que o princípio fundamental da questão fora claramente apresentado, e maravilharam-se do vasto alcance do discernimento de Cristo.

Tão logo os fariseus se calaram, os saduceus surgiram com suas astutas interrogações. Os dois partidos achavam-se em oposição amarga. Os fariseus eram rígidos adeptos da tradição. Meticulosos nas cerimônias exteriores, diligentes em abluções, jejuns e longas orações, exibiam-se no dar esmolas. Mas Cristo declarou que eles tornavam vã a lei divina, pelo ensino de mandamentos de homens como doutrinas. Como classe, eram fanáticos e hipócritas; havia, no entanto, entre eles pessoas de genuína piedade, que aceitaram os ensinos de Cristo e se tornaram discípulos Seus. Os saduceus rejeitavam as tradições dos fariseus. Professavam crer a maior parte das Escrituras, e considerá-las como regra de conduta; eram, por assim dizer, céticos e materialistas.

Os saduceus negavam a existência dos anjos, a ressurreição dos mortos e a doutrina da vida futura, com suas recompensas e castigos. Em

tudo isso, diferiam dos fariseus. A ressurreição, especialmente, constituía assunto de debates entre esses dois partidos. Os fariseus haviam sido firmes adeptos da ressurreição, mas nessas discussões seus pontos de vista a respeito da vida futura tornaram-se confusos. A morte viera a ser para eles inexplicável mistério. Sua incapacidade para enfrentar os argumentos dos saduceus dava lugar a contínua irritação. Das discussões entre as duas facções resultavam de ordinário zangadas disputas, deixando-os mais distanciados que antes.

Os saduceus ficavam, em número, muito abaixo de seus oponentes, e não mantinham tão forte domínio sobre o povo comum; mas muitos deles eram ricos e possuíam a influência proporcionada pela fortuna. Em suas fileiras achavam-se incluídos os sacerdotes na sua maior parte, e dentre eles era em geral escolhido o sumo sacerdote. Isso acontecia, entretanto, com a expressa estipulação de não salientarem suas céticas opiniões. Em razão do número e da popularidade dos fariseus, era necessário aos saduceus condescender exteriormente com suas doutrinas ao exercerem qualquer ofício sacerdotal; mas o próprio fato de serem elegíveis para esses cargos emprestava força a seus erros.

Os saduceus rejeitaram os ensinos de Jesus; Ele era animado por um espírito que não queriam reconhecer tal como se manifestava; e Seus ensinos quanto a Deus e à vida futura contradiziam-lhes as teorias. Acreditavam em Deus como o único ser superior ao homem; mas argumentavam que uma providência que tudo rege e uma previsão divina privariam o homem da liberdade moral, degradando-o à posição de um escravo. Era crença deles que, criando o homem, Deus o deixara livre para dirigir sua própria vida e moldar os acontecimentos do mundo; que o destino deles estava em suas próprias mãos. Negavam que o Espírito de Deus opera por meio dos esforços humanos ou de meios naturais. Todavia, mantinham ainda a opinião de que, pelo devido emprego das faculdades naturais, podia o homem elevar-se e esclarecer-se; que, por meio de rigorosas e austeras práticas, sua vida se podia purificar.

Suas idéias de Deus moldavam-lhes o caráter. Como, segundo seu ponto de vista, Ele não Se interessava no homem, tinham pouca consideração uns para com os outros; pouca também era a união entre eles. Recusando-se a aceitar a influência do Espírito Santo sobre a conduta humana, faltava-lhes na vida Seu poder. Como o restante dos judeus, vangloriavam-se muito de seu direito de nascimento como filhos de Abraão e de sua estrita aderência às reivindicações da lei; mas do verdadeiro espírito da lei, da fé e da benevolência de Abraão, eram destituídos. Suas simpatias naturais estavam encerradas num estreito âmbito. Acreditavam possível a todo homem adquirir os confortos e bênçãos da vida; e o coração não se lhes comovia diante das necessidades e sofrimentos dos outros. Viviam para si mesmos.

O Desejado de Todas as Nações · Ellen G. White

Passagem bíblica

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