Cristo O Caminho
Plano Encontro 1 Dia 203
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Leitura do livro
O Desejado de Todas as Nações, páginas 334-336
Restava ainda uma esperança aos fariseus — intimidar os pais do homem. Com aparente sinceridade, disseram: “Como pois vê agora?” Os pais temiam comprometer-se; pois se declarara que quem quer que reconhecesse Jesus como o Cristo, seria “expulso da sinagoga” (João 9:19, 22); isto é, excluído da sinagoga por trinta dias. Durante esse período, nenhuma criança poderia ser circuncidada, nem morto pranteado, na casa do ofensor. A sentença era considerada grande calamidade; e, se deixasse de produzir arrependimento, seguir-se-ia uma pena muito mais rigorosa. A grande obra, em favor de seu filho, levara a convicção aos pais, todavia responderam: “Sabemos que este é nosso filho, e que nasceu cego; mas como agora vê, não sabemos; ou quem lhe tenha aberto os olhos, não sabemos; tem idade, perguntai-lho a ele mesmo; e ele falará por si mesmo”. João 9:20, 21. Esquivaram-se assim a toda responsabilidade, passando-a ao filho; pois não ousavam confessar a Cristo.
O dilema em que se achavam os fariseus, suas perguntas e preconceitos, sua incredulidade em face dos fatos desse caso, estavam abrindo os olhos da multidão, especialmente do povo comum. Jesus operara freqüentemente Seus milagres em plena rua, e Sua obra era sempre de molde a aliviar sofrimentos. A pergunta em muitos espíritos, era: Faria Deus tão poderosas obras por meio de um impostor, como afirmavam os fariseus ser Jesus? O conflito estava-se tornando muito acalorado de parte a parte.
Os fariseus viram que estavam dando publicidade à obra realizada por Jesus. Não podiam negar o milagre. O cego estava cheio de alegria e reconhecimento; contemplava as maravilhosas obras da natureza e deleitava-se ante a beleza da Terra e do firmamento. Contava francamente o caso, e de novo o procuraram fazer calar, dizendo: “Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador.” Isto é: Não tornes a dizer que este homem te deu a vista; foi Deus que o fez.
O cego respondeu: “Se é pecador, não sei; uma coisa sei, e é que, havendo eu sido cego, agora vejo”. João 9:24, 25.
Então tornaram a interrogá-lo: “Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?” João 9:26. Com muitas palavras o procuraram confundir, a fim de que se julgasse iludido. Satanás e seus maus anjos estavam do lado dos fariseus, e uniram suas energias e sutilezas ao raciocínio dos homens, para neutralizar a influência de Cristo. Enfraqueceram as convicções que já se aprofundavam em muitos espíritos. Anjos de Deus estavam também a campo, a fim de fortalecer o homem cuja vista fora restaurada.
Os fariseus não compreendiam que tinham de tratar com algum outro além do ignorante homem que nascera cego; não conheciam Aquele com quem se achavam em conflito. Luz divina brilhou nos recessos da alma do cego. Enquanto esses hipócritas procuravam fazê-lo descrer, Deus o ajudou a mostrar, pelo vigor e precisão das respostas, que não seria enlaçado. Respondeu: “Já vo-lo disse, e não ouvistes; para que o quereis
tornar a ouvir? Quereis vós porventura fazer-vos também Seus discípulos? Então o injuriaram, e disseram: Discípulo dEle sejas tu; nós, porém, somos discípulos de Moisés. Nós bem sabemos que Deus falou a Moisés, mas Este não sabemos de onde é”. João 9:27-29.
O Senhor Jesus sabia a provação por que o homem estava passando, e deu-lhe graça e expressão de modo que se tornou uma testemunha em Seu favor. Respondeu ele aos fariseus, em palavras que constituíam incisiva censura a seus interrogadores. Pretendiam ser os expositores das Escrituras, os guias religiosos da nação; e, todavia, ali estava Alguém realizando milagres, e eles confessavam ignorar tanto a fonte do poder que Ele tinha, como Seu caráter e títulos. “Nisto pois está a maravilha”, disse o homem, “que vós não sabeis de onde Ele é, e me abrisse os olhos; ora nós sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus, e faz a Sua vontade, a esse ouve. Desde o princípio do mundo nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença. Se Este não fosse de Deus, nada poderia fazer”. João 9:30-33.
O homem havia enfrentado seus inquiridores com as próprias armas por eles manejadas. Seu raciocínio era irrefutável. Os fariseus estavam pasmados e calaram-se — estupefatos diante de suas precisas e decididas palavras. Por alguns momentos houve silêncio. Depois, os sacerdotes e rabinos, de sobrecenho carregado, apanharam e aconchegaram a si as vestes, como a temer contaminação do contato com ele; sacudindo o pó dos pés, atiraram-lhe as acusadoras palavras: “Tu és nascido todo em pecados, e nos ensinas a nós?” João 9:34. E excomungaram-no. Jesus ouviu o que acontecera; e, encontrando-o pouco depois, disse: “Crês tu no Filho de Deus?” João 9:35.
Pela primeira vez contemplou o cego o rosto de seu Restaurador. Ante o conselho vira seus pais turbados e perplexos; olhara a severa fisionomia dos rabinos; agora seus olhos descansavam sobre o amorável e sereno semblante de Jesus. Com grande dificuldade, já O reconhecera como Delegado do poder divino; agora lhe foi concedida maior revelação.
Ante à pergunta do Salvador: “Crês tu no Filho de Deus?” o cego replicou, perguntando: “Quem é Ele, Senhor, para que nEle creia?” E Jesus disse: “Tu já O tens visto, e é Aquele que fala contigo”. João 9:35, 37. O homem lançou-se aos pés do Salvador, em adoração. Não somente lhe fora restaurada a visão natural, mas haviam-lhe sido abertos os olhos do entendimento. Cristo lhe fora revelado à alma, e ele O recebeu como o Enviado de Deus.
Próximo, reunira-se um grupo de fariseus, e a vista deles trouxe à mente de Jesus o contraste sempre manifesto no efeito de Suas palavras e obras. Disse Ele: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem sejam cegos”. João 9:39. Cristo veio abrir os olhos cegos, dar luz aos que se assentam nas trevas. Declarara ser a luz
do mundo, e o milagre operado confirmava Sua missão. O povo que contemplou o Salvador em Seu primeiro advento, foi favorecido com mais ampla manifestação da divina presença do que o mundo nunca antes fruíra. O conhecimento de Deus foi mais perfeitamente revelado. Mas por essa mesma revelação estavam sendo julgados os homens. Seu caráter era provado, decidido o seu destino.
A manifestação de poder divino que dera ao cego tanto a vista natural como a do espírito, deixara os fariseus em trevas ainda mais densas. Alguns de Seus ouvintes, sentindo que as palavras de Cristo se aplicavam a eles, indagaram: “Também nós somos cegos?” Jesus respondeu: “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece”. João 9:40, 41. Se Deus vos tivesse tornado impossível ver a verdade, vossa ignorância não envolveria nenhuma culpa. “Mas [...] agora dizeis: Vemos.” Julgais-vos capazes de ver, e rejeitais os meios mediante os quais, unicamente, poderíeis receber a vista. A todos quantos compreendiam sua necessidade, Cristo viera com ilimitado auxílio. Mas os fariseus não confessavam necessidade alguma; recusavam-se a ir a Cristo, e por isso foram deixados em cegueira — uma cegueira de que eles próprios eram culpados. Jesus disse: “Vosso pecado permanece.”
O Desejado de Todas as Nações · Ellen G. White