Cristo O Caminho

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O Desejado de Todas as Nações, páginas 280-282

fazia para ajudar as almas em trevas. O muro de separação, criado pelo orgulho judaico, impedia os próprios discípulos de se compadecerem do mundo pagão. Cumpria, porém, quebrar essas barreiras.

Cristo não atendeu imediatamente à súplica da mulher. Recebeu essa representante de uma raça desprezada, como o teriam feito os próprios judeus. Assim procedendo, era Seu intuito impressionar os discípulos quanto à maneira fria e insensível com que os judeus tratariam um caso assim, ilustrando-o com o acolhimento dispensado à mulher; e quanto ao modo compassivo por que desejava que tratassem com essas aflições, segundo o exemplificou na atenção que posteriormente lhe deu ao pedido.

Mas embora Jesus não respondesse, a mulher não perdeu a fé. Passando Ele, como se a não ouvisse, seguiu-O, continuando em suas súplicas. Aborrecidos com sua importunação, os discípulos pediram a Jesus que a despedisse. Viram que o Mestre a tratava com indiferença e daí julgaram que os preconceitos dos judeus contra os cananeus Lhe agradavam. Aquele a quem a mulher dirigia seus rogos, porém, era um compassivo Salvador e, em resposta ao pedido dos discípulos, disse Jesus: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” Se bem que essa resposta parecesse em harmonia com o preconceito dos judeus, era uma tácita reprovação aos discípulos, o que vieram a compreender posteriormente, como a lembrar-lhes o que lhes dissera muitas vezes — que Ele viera ao mundo para salvar a todos quantos O aceitassem.

Com crescente ardor insistia a mulher em sua necessidade, inclinando-se aos pés de Cristo e clamando: “Senhor, socorre-me!” Aparentemente ainda lhe desprezando as súplicas, segundo o insensível preconceito judaico, respondeu Jesus: “Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos.” Com isso afirmava, por assim dizer, que não era justo desperdiçar com os estrangeiros e inimigos de Israel as bênçãos trazidas ao favorecido povo de Deus. Esta resposta teria desanimado inteiramente qualquer suplicante menos fervoroso. Mas a mulher viu que chegara sua oportunidade. Sob a aparente recusa de Cristo, viu a compaixão que Ele não podia dissimular. “Sim, Senhor”, respondeu ela, “mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores.” Enquanto os filhos da casa comem à mesa paterna, os cães não são deixados sem alimento. Têm direito às migalhas que caem da mesa abundantemente provida. Assim, se bem que muitas fossem as bênçãos concedidas a Israel, não haveria também uma para ela? Era considerada como um cão; não teria então também o direito de um cão a uma migalha de Sua generosidade?

Jesus acabava de partir de Seu campo de labor, porque os escribas e fariseus estavam procurando tirar-Lhe a vida. Murmuravam e queixavam-se. Manifestavam incredulidade e azedume, e recusavam a salvação tão abundantemente a eles oferecida. Aqui encontra Cristo uma criatura de

uma classe infeliz e desprezada, não favorecida com a luz da Palavra de Deus; todavia, submete-se imediatamente à divina influência de Cristo, e tem fé implícita em Seu poder de lhe garantir o favor que suplica. Pede as migalhas que caem da mesa do Senhor. Se lhe for dado o privilégio de um cão, está disposta a ser como tal considerada. Não a influencia nenhum preconceito ou orgulho nacional ou religioso, e reconhece imediatamente Jesus como o Redentor, e capaz de fazer tudo quanto Lhe pede.

O Salvador fica satisfeito. Provou-lhe a fé nEle. Por Seu trato com ela, mostrou que aquela que era tida como rejeitada de Israel, não mais é estranha, mas uma filha na família de Deus. Como filha, tem o privilégio de partilhar das dádivas do Pai. Cristo assegura-lhe então o que pede, e conclui a lição dada aos discípulos. Voltando-se para ela com olhar de compaixão e amor, diz: “Ó mulher! grande é a tua fé: seja isso feito para contigo como tu desejas.” E desde aquela hora a sua filha ficou sã. Não mais o demônio a perturbou. A mulher partiu reconhecendo o Salvador, e contente com a certeza da resposta ao seu pedido.

Foi esse o único milagre que Jesus operou, quando nessa viagem. Fora para a realização desse ato que Ele Se dirigira às fronteiras de Tiro e Sidom. Desejava dar alívio à aflita mulher, deixando ao mesmo tempo, em Sua obra, um exemplo de misericórdia para com a filha de um povo desprezado, para benefício dos discípulos quando não mais estivesse com eles. Desejava levá-los a sair da exclusividade judaica, interessando-se em trabalhar por outros além do próprio povo.

Jesus anelava desvendar os profundos mistérios da verdade ocultos por séculos, de que os gentios deviam ser co-herdeiros com os judeus, e “participantes da promessa em Cristo pelo evangelho”. Efésios 3:6. Esta verdade os discípulos foram tardios em apreender, e o divino Mestre deu-lhes lição após lição. Recompensando a fé do centurião em Cafarnaum, e pregando o evangelho aos habitantes de Sicar, já dera provas de que não participava da intolerância dos judeus. Mas os samaritanos tinham algum conhecimento de Deus; e o centurião mostrara bondade para com Israel. Agora, Jesus pôs os discípulos em contato com uma pagã que consideravam, como qualquer outro membro de seu povo, sem nenhum direito a esperar o Seu favor. Queria dar um exemplo de como uma pessoa nessas condições devia ser tratada. Os discípulos haviam pensado que Ele distribuía muito liberalmente os dons de Sua graça. Mostraria que Seu amor não devia limitar-se a qualquer povo ou nação.

Quando Ele disse: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”, declarou a verdade; e ajudando à cananéia, estava cumprindo Sua missão. Esta mulher era uma das ovelhas perdidas que Israel devia ter salvo. Era a obra que lhes fora indicada, e por eles negligenciada, que Cristo estava cumprindo.

Esse ato abriu o espírito dos discípulos mais amplamente para o labor

que se achava diante deles, entre os gentios. Viram um vasto campo de utilidade fora da Judéia. Viram almas suportando dores ignoradas pelos mais altamente favorecidos. Entre os que tinham sido ensinados a desprezar, achavam-se almas ansiosas do auxílio do poderoso Médico, famintos da luz da verdade, tão abundantemente dada aos judeus.

Mais tarde, quando os judeus mais persistentemente se desviaram dos discípulos por declararem que Jesus é o Salvador do mundo, e quando a parede divisória entre judeus e gentios foi derribada pela morte de Cristo, esta lição e outras semelhantes que indicavam não ser o trabalho evangélico restringido por costumes ou nacionalidades, tiveram sobre os representantes de Cristo poderosa influência em Lhes dirigir os labores.

A visita do Salvador à Fenícia e o milagre aí realizado, tinham ainda mais largo desígnio. Não somente pela mulher aflita, nem mesmo pelos discípulos e os que lhes recebessem os serviços, foi feita essa obra, mas também “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; para que, crendo, tenhais vida em Seu nome”. João 20:31. As mesmas influências que separavam os homens de Cristo dezenove séculos atrás, acham-se hoje em dia em operação. O espírito que ergueu a parede separatória entre judeus e gentios, está ainda em atividade. O orgulho e o preconceito têm construído fortes muros de separação entre as diferentes classes de homens. Cristo e Sua missão têm sido desfigurados, e multidões sentem-se virtualmente excluídas do ministério do evangelho. Não sintam elas, porém, que se acham excluídas de Cristo. Não há barreiras que o homem ou Satanás possa levantar, que a fé não seja capaz de atravessar.

Com fé, atirou-se a mulher fenícia contra as barreiras que se tinham elevado entre judeus e gentios. Apesar de não ser animada, a despeito das aparências que a poderiam ter levado a duvidar, confiou no amor do Salvador. É assim que Cristo deseja que nEle confiemos. As bênçãos da salvação destinam-se a toda alma. Coisa alguma, a não ser sua própria escolha, pode impedir qualquer homem de tornar-se participante da promessa dada em Cristo, pelo evangelho.

Qualquer discriminação é aborrecível a Deus. É-Lhe desconhecida qualquer coisa dessa natureza. Aos Seus olhos, a alma de todos os homens é de igual valor. “De um só fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da Terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites de Sua habitação; para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, O pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós.” Sem distinção de idade ou categoria, de nacionalidade ou de privilégio religioso, são todos convidados a ir a Ele e viver. “Todo aquele que nEle crer não será confundido. Porquanto não há diferença.” “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre.” “O rico e o pobre se encontraram; a todos os fez o Senhor.” “O mesmo é o Senhor de todos os que O invocam.” “Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Atos dos Apóstolos 17:26, 27; Gálatas 3:28; Provérbios 22:2; Romanos 10:11-13.

O Desejado de Todas as Nações · Ellen G. White

Passagem bíblica

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